A Necessidade Universal da Salvação em Cristo

Lições Bíblicas CPAD – 2º Trim. 2016
Comentário sobre a lição 02 – 10/04/16

Introdução

Na presente lição aprenderemos um pouco mais sobre o que a teologia chama de “depravação total” – a situação em que se encontra o ser humano após a entrada do pecado no mundo – uma das verdades centrais da fé cristã. Em um dos pontos altos de sua carta, Paulo mostra tanto a judeus como a gentios, que todos se encontram na mesma situação por uma razão:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. (Rm 3.23)

Passearemos especialmente por duas doutrinas bíblicas que se relacionam diretamente: a doutrina do pecado (Hamartiologia) e a doutrina da salvação (Soteriologia). O pecado entrou no mundo através da desobediência de Adão e Eva, ainda no livro de Gênesis, ao que chamamos de “pecado original” ou “pecado de Adão” ou ainda, simplesmente: “a queda”.

Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram. (Rm 5.12)

Um teólogo do passado chamado Pelágio, negou esta verdade bíblica, comprometendo assim, todo o seu entendimento sobre a mecânica da salvação em Cristo. O Concílio de Éfeso o reputou como herege no ano 431.

Todos pecaram, portanto, todos precisam de salvação. Mergulhemos pois, nos argumentos de Paulo, e aprendamos um pouco mais sobre o Evangelho de Cristo revelado na carta aos Romanos. Bons estudos!

I. A Necessidade da Salvação dos Gentios (Rm 1.18–23)

Paulo, com a habilidade que lhe era peculiar, articulou muito bem as palavras que seriam entregues aos romanos. No trecho que estudaremos, Paulo começa falando diretamente aos gentios, depois aos judeus, e conclui explicando que todos careciam da Graça de Deus. O orgulho e a insensibilidade de cada grupo precisavam ser quebrados.

O pecado afastava os gentios para longe de Deus. Quanto mais distantes, mais insensatos eles se tornavam. No trecho que vai do verso 18 ao 23, podemos identificar problemas sérios na vida dos gentios:

  • No verso 18 notamos que a impiedade e injustiça dos homens provocam a ira de Deus. Lendo na versão Almeida Revista e Corrigida, tradicionalmente mais usada em nosso meio, pode parecer confuso o que Paulo está querendo dizer. Leiamos em outra versão:
Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. (Rm 1.18 AS21)

Deus está irado com o pecado, a saber, a impiedade e injustiça dos homens, que os impedem de conhecer a Verdade de Deus. Osborne (2010, p 20) esclarece o contexto:

Por que Deus está irado com o pecado? Porque as pessoas que cometem impiedades e injustiças afastam de si mesmas a verdade, substituindo a verdade a respeito do Senhor por uma fantasia da sua própria imaginação (1.25).
  • Os versos 19 e 20 falam de uma revelação natural de Deus nas coisas criadas. O problema aqui, é que o homem se mostra indiferente à realidade que o cerca. Tanto o eterno poder como a divindade do Senhor podiam ser claramente vistos e entendidos a partir das maravilhas da criação de Deus. Em sua mais recente obra, Neves (2015, p. 25) observa:
Quando se trata da Criação de Deus, não existe para Paulo o ateu em estado puro, pois, pelas coisas criadas, é possível descobrir Deus. Um conhecimento universal, e não experiencial para salvação*. Como explicar o funcionamento do universo, com milhares de galáxias, além das conhecidas, e a harmonia entre elas? o reconhecimento de um Deus que governa tudo isso pode ser explicado racionalmente. O caminho da descoberta de Deus está aberto a todos*
[*grifo nosso]

Notadamente, o autor defende um conhecimento “experiencial” com Deus para a salvação, ou seja, uma experiência de ordem prática. Leiamos agora o comentário de José Gonçalves, comentarista da presente lição:

Embora o homem não possa conhecer a Deus perfeitamente através da revelação natural ou geral, conhecimento que só se torna possível através da revelação especial de Deus, Jesus Cristo, todavia ele deveria se sentir despertado para a realidade espiritual através das coisas criadas* (1.21).
[*grifo nosso]

Nos destaques das citações acima, Percebemos que os dois autores defendem a necessidade de algo mais além da revelação natural de Deus para que o homem possa ser salvo. Naturalmente, pode surgir uma dúvida legítima na cabeça do leitor:

Se os gentios não tiveram contato com este “algo mais”, porque então Deus os puniu?

O cerne da questão é: negligenciar a revelação natural ou geral de Deus é um pecado indesculpável: (…) para que eles fiquem inescusáveis (1.20b)

O comportamento dos gentios está bem claro nos versos 21 e 23:

21 porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu. 23 e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis. (AS21)

Os gentios rejeitaram a revelação e passaram a viver à seu modo. Esta revelação seria o pontapé inicial para um relacionamento real com Deus, como observaram os comentaristas:

O caminho da descoberta de Deus está aberto a todos. (Neves. 2015, p. 25)

(…) ele deveria se sentir despertado para a realidade espiritual através das coisas criadas. (Lições Bíblicas 2º Trim. Adultos. 2016, p. 14)

  • Os versos 21b e 22 falam das especulações dos gentios – pensamentos e discursos ricos em sabedoria, mas, incapazes de oferecer uma solução definitiva para o problema do pecado – não é diferente em nossos dias: por muito pensar, o homem acaba encontrando todo tipo de desculpa para sua incredulidade. Alguns defendem que “todos os caminhos levam a Deus”, outros dizem que “religião é para fracos”, que é “o ópio do povo”, muitos alegam que Deus só deseja que “façamos o bem” e alguns mais ousados dizem que “não há Deus” (Sl 14.1a).
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. (Rm 1.22)

Estas são apenas algumas das explicações que são dadas pelas pessoas como desculpa para não levarem seus pensamentos cativos a Cristo (2 Co 10.5).

É interessante notar, que a maioria dos cursos de Teologia apresenta a Filosofia em suas grades curriculares, muitas vezes como matéria obrigatória. De fato, é inegável sua contribuição, no campo do saber, auxiliando o homem no conhecimento do ser de Deus e de suas obras, no entanto, também não podemos negar que muitos se desviaram da verdade por dar muita vazão às especulações humanas. O resultado são pessoas que consideram ser mais “racional” seguir seu próprio caminho, e pessoas que antes eram piedosas mas agora negociam valores e doutrinas fundamentais para todo cristão, produzindo pensamentos e comportamentos altamente relativistas e liberais.

II – A Necessidade de Salvação dos Judeus (Rm 2.1–3.8)

Apesar de não ignorarem a realidade de Deus, os judeus não se encontravam em melhor situação que os gentios. Além de insensibilidade e orgulho havia ainda o problema da hipocrisia. O orgulho dos gentios, que pensavam saber qual o melhor caminho a seguir, os levou para a condenação. O orgulho dos fariseus, que se achavam superiores por terem recebido a Lei (Rm 2.17,18), colocava-os na mesma situação dos gentios: condenáveis diante de Deus.

Os judeus mantinham um sistema de práticas e rituais tão complexo, que muitas vezes eles mesmos não conseguiam cumprir, mesmo assim exigiam que os outros o cumprissem (Mt 23.2–4). Jesus criticou fortemente a atitude dos fariseus, chamando-os por exemplo, de hipócritas, pois não viviam o que ensinavam (Rm 2.21–25). Infelizmente, muitos agem como os fariseus, adotando um forte espírito de censura em relação ao próximo. Ao menor sinal de “deslize” criticam duramente o próximo. A esse comportamento dá-se o nome de farisaísmo.

Atrelado a esse conceito, estava o problema do legalismo, ou seja, a tentativa de alcançar a salvação pelo mero cumprimento de um conjunto de regras. Na verdade, podemos dizer que o comportamento farisaico é uma consequência do legalismo. Veja a definição do pastor e professor Wesleyano Vic Reasoner:

Teologicamente, “legalismo” é a tentativa de ganhar a salvação através de nossos esforços. Legalismo é também a preocupação excessiva com os requerimentos da lei, e muitas vezes é acompanhada de um espírito de censura em relação aos outros.

Os judeus precisavam se libertar do jugo da Lei, pois não há nada que o homem possa fazer para se salvar, a não ser entregar-se a Cristo, arrependendo-se dos seus pecados.

E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? (Rm 2.3-4)

III – A Necessidade da Salvação da Humanidade (Rm 3.9–20)

A Palavra de Deus é incisiva quando afirma que todos pecaram. Leiamos alguns versículos que não citamos na introdução:

Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
(Rm 3.10 cf. Sl 14.1-3 / Sl 53.1–3)

Pois não há um só homem justo sobre a terra, que só faça o bem e nunca peque. 
(Ec 7.20 AS21)

Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.
(Sl 51.5)

O que falar do dramático encontro de Jesus com uma furisosa multidão? 
Todos foram desafiados a responder se tinham ou não pecado (Jo 8.6–9). Ninguém teve coragem de se manifestar. O silêncio falou por si só, fazendo jus a um ditado que diz: “quem cala, consente”.

Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. (1 Jo 1.8)

Sobre a condição do homem após a queda, Maia (2015, p. 45) assinala:

A caracterização da depravação humana como “total” significa, em primeiro lugar, que ela atinge todos os homens. A humanidade inteira está debaixo da condenação e da escravidão do pecado.

O ser humano se encontra espiritualmente morto, e não há nada que possa fazer para sair de tal situação. Faz-se necessária a ação da graça divina para libertar o homem de sua condição de morte espiritual. Uma boa explicação nos é oferecida por Maia (2015, p. 48):

Com a depravação de sua natureza, o homem perdeu seu livre arbítrio. Sua vontade tornou-se escrava do pecado, com liberdade apenas para pecar (posse peccare). Somente a graça divina irá libertar esta vontade cativa, capacitando-a a responder favoravelmente à oferta de salvação feita pelo Senhor Jesus Cristo.

Jesus é o oposto de tudo isso, Ele é alguém que, à nossa semelhança, foi tentado em todas as coisas, porém sem pecado (Hb 4.15b AS21). É o único que pode salvar a humanidade (Mt 18.11 / Rm 5.17–21 / Jo 3.16 / Mc 16.16 / At 2.21 / At 16.31 / Jo 14.6).

e Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro. 
- 1 João 2.2 (ARA)
E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.
- Atos 4.12

Assim como todos pecaram, todos são alvo do amor de Deus. Em Cristro não há mais Judeu nem Grego, não há acepção de pessoas. Deus amou o mundo!

Siglas
ARA – Almeida Revista e Atualizada | AS21 – Almeida Século 21

Nota: As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Corrigida Fiel (ACF) salvo quando há indicação específica.

Bibliografia Consultada

  • Bíblia Online versão Almeida Corrigida Fiel
  • Bíblia Online versão Almeida Século 21
  • Biblia Online versão Almeida Revista e Atualizada
  • Grant Osborne et al (Ed.). Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. Tradutor: Dagmar Ribas.
  • Reasoner, Vic. Graça Falsificada.
  • NEVES, Natalino das. Justiça e Graça: Um estudo da doutrina da salvação na carta aos Romanos. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
  • MAIA, Carlos Kleber. Depravação Total. São Paulo: Editora Reflexão, 2015. (Arminianismo).
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