John Wesley pregando ao ar livre (Fonte: Boston Borough Council)

O Evangelista

Cargo eclesiástico ou dom de Deus?

[nota de esclarecimento]:
O presente texto é uma breve reflexão sobre a ordenação de irmãos ao cargo de “Evangelista” nas Assembleia de Deus do Brasil, igreja da qual sou membro. Como cristão assembleiano, minha intenção é tentar ajudar a igreja que amo, lançando mais um pouco de luz sobre o assunto em apreço. Não é meu objetivo lançar críticas a esmo; aprendi que “muita falação pode estragar a comunhão”.

O que é e o que faz um evangelista?

De maneira bem resumida, podemos dizer que o evangelista é um “ganhador de almas”; ele é portador de uma mensagem: o Evangelho – poder de Deus para salvação de todo aquele que crê – àquele que crê, Deus promete salvação:

(…) tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa (Ef 1.13).

Embora todo cristão deva evangelizar, nem todos podem ser chamados de evangelistas. Efésios 4.11 nos diz que Deus “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores”. Essa variedade foi planejada por Deus “com o propósito de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para que o Corpo de Cristo seja edificado” (Ef 4.12 KJA). De acordo com Davis (2000 p. 14), podemos resumir assim:

Deus chamou toda a Igreja para fazer evangelismo e escolheu pessoas em particular para terem o dom de evangelista no corpo de Cristo.

O fato de Deus ter chamados específicos para pessoas específicas não pode ser um empecilho para a evangelização, isto é, ainda que o crente não tenha um chamado (o dom) para ser um evangelista, ele deve pedir orientação a Deus para evangelizar sempre que puder, e se acha que faz pouco ou quase nada, deve pedir a Deus oportunidades e estratégias. Nada de pensar: “se não tenho o dom, não devo me preocupar com isso” – é um erro pensar assim, pois a Palavra nos chama para evangelizar (Mc 16.15, Mt 28.18–20, At 1.8; 8.1,4), além do mais, é um tanto estranho pensar em alguém que recebeu o presente da salvação, vive em novidade de vida, mas não tem vontade de falar dessa alegria ou sente vergonha dela.

Porque qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na do Pai e dos santos anjos (Lc 9.26 ARA).

O anúncio do Evangelho é também chamado de kerigma – palavra de origem grega que significa ‘proclamação’, ‘mensagem’, ou ‘pregação’ – ela está presente em vários trechos do NT. O pequeno discurso de Jesus em Lc 4.18,19 também é conhecido como “o kerigma”. O site Wikipédia faz uma observação importante:

Apesar de ter sido efetuado originalmente por Jesus, entende-se que o kerigma se refere a um ato individual que pode ser realizado por qualquer cristão, mesmo sem experiência ou treinamento prévio.

Percebemos mais uma vez que todo cristão pode e deve anunciar a boa-nova de salvação. Toda a Igreja foi chamada para cumprir esta missão. O seguinte resumo do kerigma nos é oferecido por Davis (2000 p. 32):

O kerigma está resumido nas palavras de Paulo: “Cristo morreu por nossos pecados segundo as escrituras, […] foi sepultado, e […] ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15.3,4). Se o evangelista ou o pastor pregar “outro evangelho”, a maldição de Deus estará sobre o ministério desses ministros (Gl 1.6–9). O eterno (Ap 14.6), gracioso (At 20.24) e glorioso (2 Co 4.4) Evangelho de Deus (Rm 1.1) traz as pessoas para Cristo (1 Co 4.15) com a finalidade de salvação (Ef 1.13). Este é o tipo de evangelho que evangelistas e pastores precisam pregar nos dias de hoje. Nós temos as boas-novas em uma sociedade recheada de más novas.

Concluo esta introdução falando da importância do conhecimento bíblico para o evangelista. O fundamento do evangelista tem de ser a Bíblia, e por mais que se negue, a teologia precisa fazer parte do fundamento. Falando sobre os fundamentos de um evangelista, Davis (2000, p. 28) assinala:

O bíblico tem de vir antes do prático. Toda a aventura na vida tem de ter um fundamento sólido ou eventualmente se desfalecerá. O ponto de partida para o evangelista determinará sua missão, métodos, motivos e mensagem. Qual é o ponto de partida para o evangelista contemporâneo? Uma base teológica sã.

O evangelista nas Assembleias de Deus

A questão gira em torno do cargo de “evangelista”. É oportuno lembrar que a Assembleia de Deus ordena irmãos a este cargo, mas parece que tal prática carece de respaldo bíblico. Sendo bem direto e objetivo, penso que não há biblicidade para tal cargo, pois ser “evangelista” tem mais a ver com um dom dado por Deus, isto é, até alguém que não tem nenhum cargo eclesiástico pode ser um evangelista – de fato, existem muitos nesta situação – ao passo que muitos evangelistas (ordenados ao cargo) não o são de fato.

Este não é um assunto novo; o pastor Altair Germano escreveu sobre ele duas vezes – primeiro em 2009 (aqui), depois em 2012 (aqui) – agora, o assunto volta a tona com duas lições dominicais sobre a obra do evangelista:

2º Trim. de 2014 – Lição 08: O Ministério de Evangelista
3º Trim. de 2016 – Lição 04: O Trabalho e Atributos do Ganhador de Almas

Leiamos algumas afirmações feitas pelo pastor Antônio Gilberto em sua série de comentários sobre os dons ministeriais publicados no site CPAD News:

O autêntico ministro evangelista, chamado por Deus e colocado por Ele no ministério, não deve exercer o apostolado. Seu ministério deve ser itinerante.

O professor de Escola Dominical tem a visão de uma classe de alunos; o pastor tem a visão de sua congregação, seu campo; o evangelista tem a visão regional e mundial. Sua paixão é o mundo para Cristo!

A diferença de ministério entre o apóstolo e o evangelista está bem definida em Atos 8, na evangelização de Samaria. No ministério de Felipe como evangelista, destaca-se a pregação e a conversão dos pecadores (At 8.5–13). No ministério de Pedro e João como apóstolos, destacam-se o estabelecimento firme da obra e a consolidação dos resultados da evangelização (At 8.14,25).

Percebemos que o dever do evangelista é pregar para os descrentes, ou seja, para exercer seu chamado, o evangelista precisa ir de encontro aos perdidos e lhes anunciar o Evangelho, que é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. Ele não pode ficar parado na igreja local, aliás, o evangelista é peça chave dentro de uma coisa muito especial que as Assembleias de Deus realizam: as cruzadas evangelísticas.

O grande equívoco é o entendimento de que, se o evangelista aparece na lista dos chamados “dons ministeriais”, ele deve fazer parte do que conhecemos como “o ministério”, isto é, aquele corpo de obreiros que faz a obra na igreja local (auxiliares, diáconos, presbíteros e pastores).

Dois queridos mestres assembleianos nos ajudam com suas explicações no vídeo abaixo, o Dr. Caramuru Afonso e o Pr. José Serafim. O vídeo já está no ponto [1:15:17 até 1:22:20] é só clicar e acompanhar o raciocínio:

Diante dos comentários, percebe-se que o cargo de evangelista não faz muito sentido. Em concordância com os mestres acima, o veterano professor Luís Henrique diz que “dificilmente um pastor será evangelista”, isto é, quem foi chamado para o pastorado, não foi chamado para ser evangelista – são dons diferentes – raramente alguém apresenta os dois dons, sendo assim, não faz sentido o obreiro precisar passar pelo cargo de evangelista para se tornar pastor, uma vez que não fará jus ao título de evangelista.

O veterano Luís Henrique arremata a questão quando diz:

“Na maioria das vezes a igreja coloca um evangelista para ser pastor de uma igreja para poder sustentar esse obreiro e isso finda em acabar com o ministério do evangelista. Pode-se ganhar um pastor, mas também pode ocorrer de não se ter mais nem um evangelista e nem um pastor”. (apazdosenhor.org.br)

Conclusão

A elaboração da Declaração de Fé assembleiana está em sua fase final. 
O documento, que aborda questões de ordem comportamental e doutrinária, é um marco muito positivo na nossa história das ADs no Brasil – temos sido muito abençoados, por exemplo, com o reconhecimento da Teologia Arminiana em nossa denominação – uma senhora evolução!

Defendo o reconhecimento do evangelista (da pessoa e do dom), mas não através de um cargo “acima” do presbítero e “abaixo” do pastor. Diante do peso das evidências contra a legitimidade e biblicidade desse cargo em uma igreja cristã, seria muito bom se o Conselho de Doutrina repensasse a questão com carinho. Quiçá em um futuro próximo…

Bibliografia:

  • DAVIS, James O. O Evangelista: melhor amigo do pastor. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2000
  • GILBERTO, Antônio. Os Dons Ministeriais. Parte 04
  • HENRIQUE, Luís. Lição 8 – O Ministério de Evangelista
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