Para os outros, a sujeira

Pedido na porta de banheiro na Cidade Universitária da USP
“Imagina só a situação, numa cidade que não tem banheiros públicos em quantidade suficiente para o tamanho da população, muita gente hoje deu de cara na porta. Empresa que presta serviço de limpeza para o metrô sumiu do mapa. Funcionários cruzaram os braços e o cidadão ficou sem banheiro.”

Foi assim que o jornalista Cesar Tralli abriu a matéria sobre o desaparecimento da Higilimp. E, com as palavras “Funcionários cruzaram os braços”, resumiu a situação dos milhares de trabalhadores da Higilimp que se perguntavam, naquele exato momento, como pagariam suas contas. Os cerca de três mil funcionários da empresa não eram a manchete, a manchete eram os banheiros.

Assim como no metrô, em que os usuários sentiram a ausência desses trabalhadores por meio do fechamento dos sanitários e da sujeira. Na USP, estudantes e funcionários notaram mais a falta dos trabalhadores da limpeza do que notam normalmente sua presença.

Por todos os banheiros foram espalhados recados pedindo a colaboração dos usuários, para que os locais fossem mantidos minimamente limpos. Pressionar a descarga, jogar o lixo no cesto, não molhar as pias, atos que deveriam ser corriqueiros, mas que não são.

Cartaz pede colaboração dos usuários, em alguns prédios os banheiros foram fechados ao público.

Em algumas unidades, como no prédio de jornalismo da ECA (Escola de Comunicação e Artes), chegou-se até a manter os banheiros fechados, permitindo o acesso apenas aos funcionários do respectivo prédio. Em outro departamento da ECA, quando saía do banheiro, ao desejar boa tarde à mulher que o limpava, recebi como resposta “eu não sou faxineira, não”. Apesar de eu não ter perguntado, ela, que estava de calça preta e uma blusa também preta com enfeites, bastante destoante dos uniformes fornecidos pelas empresas de limpeza, fez questão de esclarecer que trabalhava na secretaria daquela unidade, mas que preferia ela mesma limpar a ficar na sujeira.

“Eu fiquei sabendo [que ela tinha sumido], eu tava trabalhando na FAU. A gente ficou trabalhando, a gestora do prédio pagou pra gente, pra continuar limpando lá. Pagaram 50 reais por dia. Com passagem e alimento.” Silvia*

Algumas unidades da USP como FAU e ECA acabaram “contratando” como diaristas parte das “ex-faxineiras” da Higilimp, “ex” entre aspas, porque, na carteira de trabalho, elas continuavam sendo funcionárias daquela empresa, já que, ao sumir, a empresa não tinha dado baixa na carteiras. O valor da diária variava de unidade para unidade, na ECA disseram ter recebido R$ 100, na FAU, R$ 50.

Recebiam por dia trabalhado, dessa forma, pelo menos locais de mais urgência como banheiros seriam limpos, e que fique registrado mais esse como um dos gastos que devem entrar na conta da terceirização da limpeza da universidade. Uma delas contou que quando vinha trabalhar nesse esquema de diárias, frequentemente era abordada por funcionários da USP:

"Ninguém se preocupou, acho que o que as pessoas gostam é do nosso serviço e não da gente. [Eles dizem] 'Ah eu sinto muito, que pena que vocês estão aí parados e tá tudo sujo lá dentro.' Então eles não estavam se preocupando com a gente, mas com a sujeira que estava lá dentro, que a gente tinha que resolver logo isso pra poder limpar. Era isso que eles queriam. 'Ai, quando que vocês voltam a trabalhar? Tomara que seja logo, porque não estou aguentando o cheiro insuportável dos banheiros. E os lixos que estão transbordando nas salas de aulas e nos banheiros.' Tanto é que os funcionários [da USP] chegaram a limpar.” Maria*

No Instituto de Psicologia não foi diferente. A suposta preocupação demonstrava, na verdade, a falta dela. Como uma das terceirizadas contou, enquanto ela estava sem salário e sem emprego, a grande dúvida e por parte dos servidores da USP era sobre quando ela estaria ali, de volta com as colegas, mantendo o ambiente limpo e asseado:

“Na hora que precisa, ninguém aparece, né? As pessoas falavam o seguinte, quando a gente de vez em quanto aparecia aqui, eu mesma vim muito tirar xerox ‘Ai que bom que você tá aqui. Quando você volta?’ A preocupação dela é essa. Aí pergunta: `E aí, recebeu tudo direitinho?`. Quando a gente fala que não…” Antônia*

Já na Escola de Educação Física (EEFE) não foi preciso contratar “diaristas”. Única unidade em que ainda há funcionárias do quadro de servidores da USP atuando na limpeza — a última a entrar, trabalha lá há 15 anos — pedia-se também colaboração. Devido ao número limitado de trabalhadoras, até que a situação fosse normalizada, a limpeza ficaria reservada aos vestiários e banheiros da unidade.

“Quando a Higilimp saiu, nós ficamos 22 dias fazendo o serviço deles, aí o nosso, largamos, foi um comunicado, de que a prioridade eram os banheiros” Vânia, funcionária pública

Com o sumiço da Higilimp em 11 de fevereiro, até o fim daquele mês todas as unidades atendidas pelo contrato haviam ficado sem prestação de serviço de limpeza. O contrato com a nova empresa, a Gramaplan, só teria início no primeiro de março. Nova, no entanto, ela também não era. Desde 2013, ela já tinha um outro contrato de limpeza com a USP, que atende a outras unidade da Cidade Universitária.

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