Lançamento do livro dia 30 de abril, na Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre

Longe das aldeias

Leia um trecho do livro de Robertson Frizero, novo lançamento do Terceiro Selo. “Longe das aldeias” traz uma trama de memória, esquecimento, amor e perdão. O autor já foi finalista do Prêmio Açorianos e premiado por sua obra infantil. Esta é sua estréia na prosa de ficção.
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Tia Mirna não vê razão para eu me preocupar, mas hoje de manhã minha mãe esqueceu meu nome. Viu-me como Petar e disse que meu avô iria me dar uma surra se eu não recolhesse as ovelhas de uma vez por todas. Tia Mirna sorriu, saudosa, e girou a mão insistente — um código nosso para eu continuar dentro das recordações de mamãe.

Eu disse então para Marija que as ovelhas já dormiam no estábulo. Ela chamou-me de mentiroso, estou a ver daqui as ovelhas, ralhou com olhos de ira ao bater-me bem forte no rosto. Senti ódio da teimosia de meu tio Petar em não fazer as coisas de imediato quando lhe davam uma ordem.

Fui pastorear o rebanho sentado na varanda de casa, olhando as pessoas irritadas pelo calor violento do asfalto. “Não me admira meu tio Petar ter fugido de casa!”, irritei tia Mirna aos gritos. A neve é menos fria que gente como meu avô, e meu tio deve ter se perdido de propósito na floresta gelada. Imaginei o menino caminhando feliz, com suas perninhas fracas afundando na branca vastidão de sua liberdade. Meu avô passou sete dias e sete noites tentando encontrar meu tio sob a pior das nevascas. Antes tivesse recolhido ele mesmo as ovelhas desgarradas.

Quando vi Petar escondido dentro de uma furna, ouvi a voz de tia Mirna chamando-me para acudir minha mãe. Entrei correndo em casa, e ela havia caído do leito, quase febril. Chorava muito e dizia meu nome, não mais o de Petar. O sol invadia o quarto, mas ela tremia nervosa, implorando para não levarem de seus braços o pequeno Emanuel.

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