Risco de Desastres e o Futuro das Nossas Cidades

Informação é resiliência nas cidades do amanhã

Gael Mota
Gael Mota
Apr 9 · 7 min read

Certamente você já calculou, intuitivamente, os riscos antes de tomar uma difícil decisão. Ainda mais certo é que viu muita gente falando a seu respeito em jornais, revistas e internet para os mais distintos assuntos. Mas, afinal, o que é risco e qual o seu impacto na vida das cidades de hoje e do amanhã?

O conceito de risco reside na percepção do perigo, uma relação entre um indivíduo (ou grupo) com a catástrofe possível. Neste sentido, os riscos são percebidos, analisados, calculados, assumidos ou rejeitados, sempre tendo em vista uma ameaça futura e seus danos possíveis¹. Nossa convivência com o risco é diária, assumindo a probabilidade de perda em ações cotidianas que vão de tarefas domésticas até decidir atravessar aquela rua fora da faixa de pedestres. Toda ação envolve uma probabilidade de erro, perda ou dano e aí reside o risco.

Apesar de seu caráter onipresente, aqui trataremos de algo mais específico: o risco de desastres. Pela definição do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres² (UNISDR), desastre é uma séria interrupção no funcionamento de uma comunidade, resultando na perda de vidas, bem como impactos materiais, econômicos e ambientais que estão além da capacidade deste sistema se recuperar plenamente com seus próprios recursos. Neste espectro, anualmente milhões de pessoas encontram-se expostas ao risco de desastres, seja por condicionantes hidrológicas, geológicas, climáticas, sociais, tecnológicas, biológicas ou a soma delas.

O rol de ameaças passíveis de originar uma crise ou tornar uma população urbana vulnerável não é pequena e falaremos um pouco sobre isso a seguir.

Enchente no Rio Acre em 2015 (img).

Desastres Ambientais e a Cidade

A Terra está sempre em movimento. E nós também. Nesta constante interação entre dinâmicas naturais e humanas é que desastres e conflitos se consolidam, especialmente quando o pensamento rígido ignora o dinamismo de tudo que nos cerca.

Deslizamentos, inundações e erosão estão entre as principais ameaças naturais que impactam o cotidiano urbano brasileiro, mas esse catálogo pode ser facilmente ampliado ao considerar a diversidade geológica e biológica em que cada cidade foi consolidada. Segundo dados do International Disaster Database, o Brasil está entre os países mais atingidos por inundações de grande porte no mundo, havendo 94 crises registradas entre os anos de 1960 e 2008, totalizando 5.720 mortes e 15 milhões de pessoas diretamente afetadas³. Um número que impressiona, mas que deve ser ainda maior ao se considerar crises de menor intensidade, aquelas não tão destacadas pelos holofotes da mídia e, possivelmente, não incluídas em uma análise internacional desse tipo.

Sob este cenário de exposição à ameaças diversas é que as áreas de risco se tornam uma realidade. A delimitação espacial de uma área vulnerável aos danos causados por uma situação perigosa tem sua origem associada à complexa interação entre aspectos históricos, culturais, políticos, sociais, econômicos e naturais ali atuantes. As causas responsáveis pela origem destas áreas de risco são diversas, reflexo das particularidades socioambientais de cada comunidade. Desigualdade social, fragilidade no controle do uso da terra, incompatibilidade do desenho urbano com as condições naturais locais, especulação imobiliária e baixa aderência de políticas públicas (urbanísticas, ambientais e de habitação) estão entre os temas recorrentes na discussão sobre este tipo de vulnerabilidade nos centros urbanos.

Infelizmente, é na manifestação de crises que o assunto torna-se mais evidente para a sociedade como um todo [aqueles que não precisam conviver diariamente com este risco], a partir da ampla divulgação midiática dos desdobramentos de um desastre. Ações emergenciais são tomadas com o intuito de preservar o maior número de vidas possíveis e, em casos de danos massivos, municípios podem fazer o pedido de ajuda externa para sua recuperação (decretar estados de emergência ou calamidade pública, por exemplo).

Entretanto, mesmo reconhecendo o papel fundamental da resposta imediata às crises, torna-se necessário refletir a respeito de prevenção. Afinal, precisamos imaginar o futuro.

Número de desastres relacionados à interação de variáveis hídricas e climáticas segundo a UNISDR (img).

Onde Reside Nosso Futuro? Adaptação.

Adaptar-se é preciso. Reconhecendo isso é que em 2015 foi assinado o Marco Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015–2030⁴ por 187 países, durante a Terceira Conferência Mundial da ONU sobre o assunto. Sob a premissa da redução do risco e das perdas de vidas, meios de subsistência, ativos econômicos, físicos, sociais, culturais e ambientais, o Marco busca aumentar a resposta, recuperação e resiliência de comunidades através da implementação de medidas interdisciplinares que vão da educação a economia. Do impulsionamento de estratégias locais frente aos desastres até a cooperação internacional entre nações e a universalização de sistemas de alerta, trata-se de um documento que indica que a temática necessita de atenção nas próximas décadas.

Tal preocupação não é em vão, visto o contínuo processo de urbanização mundialmente observado, bem como as pressões econômicas sobre o planejamento urbano, a supressão de ecossistemas [que prestam serviços valiosos para a sociedade] e a crise habitacional nos limites da cidade legal. Se hoje mais da metade da população mundial já vive em cidades, a estimativa é que esta porcentagem possa chegar a 69% em 2050, um total de 7,1 bilhões de pessoas vivendo no meio urbano. Um processo que será ainda mais visível nos países com “desenvolvimento tardio”, onde a estrutura urbana já é incapaz de lidar com a situação atual [imagine a futura?]. Para efeito de comparação, no Brasil estima-se que em 2050 cerca de 91% da população viva em cidades⁵.

Para aumentar a complexidade do problema, mudanças climáticas são observadas em escala global e podem, ainda, impactar diretamente na nossa capacidade de prever enchentes, deslizamentos e erosão costeira, por exemplo. Logo, se temos dificuldade em criar prognósticos confiáveis para a ocorrência de crises, teremos maior dificuldade em conviver com os riscos⁶ e aí surge um grande agravante cenário.

Neste contexto, a consolidação de cidades resilientes⁷, capazes de absorver situações adversas, se demonstra mais do que um ideal, mas uma necessidade. Iniciativas políticas, educacionais, tecnológicas e ambientais estão sendo tomadas em prol da ampliação da capacidade de enfrentamento das comunidades, tornando-as mais preparadas para a resposta e prevenção de conflitos. E, para isso, compreender o ambiente ao nosso redor é mais do que fundamental para a redução do risco de desastres, é a base de tudo.

Foi-se o tempo da aplicação de ideias mirabolantes nas cidades oriundas do interesse daqueles que detém o poder de forma inquestionável. Para um futuro menos distópico é preciso haver responsabilidade em nossas ideias e ações: toda decisão requer dados, pensamento crítico, racionalidade e percepção diante da imbricada interação entre tudo que faz nosso mundo ser nosso mundo. Por menor que pareça sua influência no todo, saiba que é uma parte indissociável de um sistema maior, complexo e em constante adaptação, resultado de incontáveis pequenas partes como eu, você, todos que conhece, animais, plantas, solo, rocha, clima e assim por diante. Desta rede nada pode ser desconectado.

Sob um caráter de crescente atenção para o tema, somos impulsionados a mudar nossa perspectiva em relação a tudo que nos cerca, nos tornando agentes efetivos na busca por soluções reais para o lugar em que vivemos. Recuperação de serviços ecossistêmicos, educação ambiental, mapeamento comunitário de áreas de risco, data science, machine learning, internet das coisas e a consolidação das smart cities, tudo está conectado em prol de um futuro comum… e, nele, a democratização da informação é protagonista.

Tudo está conectado nas cidades inteligentes e a informação é a essência de tudo (img).

Um exemplo próximo e atual

Exemplos de projetos, iniciativas e negócios que buscam por soluções para a resiliência urbana têm se tornado mais comuns nos últimos anos [e esta tendência é seguir aumentando]. Um desses, focado na coleta de dados meteorológicos em tempo real para empreendimentos e cidades, é a Pluvi.On. Uma startup que iniciou suas atividades com a proposta de construção de pluviômetros de baixo custo e se tornou um exemplo de que é possível empreender, inovar e gerar impacto positivo de forma conjunta (a entrevista que fiz com eles em 2017 você pode ler aqui).

Atualmente, a Pluvi.On está com financiamento coletivo para a implementação de um sistema de monitoramento de chuvas, em tempo real, para a cidade de São Paulo. Este projeto incorpora um serviço de bot destinado à comunicação dos dados obtidos nas estações diretamente para os usuários em localidades vulneráveis à inundações. Tudo de forma gratuita. Para conhecer o projeto, acesse: https://benfeitoria.com/pluvion

Detalhes da pequena-gigante estação pluviométrica da Pluvi.On, segundo eles mesmos.

Sugestões de leitura (com links):

¹ Os Riscos: O Homem como Agressor e Vítima do Meio Ambiente (Yvette Veyret, Editora Contexto)

² Terminologia para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR, inglês)

³ Desastres Naturais: Conhecer para Prevenir (Instituto Geológico)

Marco Sendai para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR, inglês)

Mudanças Climáticas e Cidades (PBMC)

Um Brasil Mais Vulnerável no Século XXI (Revista Fapesp)

Como Construir Cidades Mais Resilientes: um Guia para Gestores Públicos Locais (UNISDR)

*Imagem de destaque: Jay Janner/Austin American-Statesman via AP

Gael Mota

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Gael Mota

geoscientist and college professor; dreaming of electric sheep.

TERRA001

TERRA001

Laboratório independente dedicado ao fomento de projetos com impacto socioambiental positivo; educação e ciência aplicada por futuros menos distópicos.

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