Análise de Roteiros: Comparando Batman Vs Superman e Capitão América: Guerra Civil

Os dois maiores filmes de super-heróis do ano estão saindo de cartaz e foram tema de debates atrozes. Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Capitão América: Guerra Civil são os carros-chefes de DC e Marvel respectivamente para o ano de 2016. Já seria natural aproximar os dois filmes mais recentes das duas maiores editoras de quadrinhos do planeta em análise comparativa, mas o exercício fica inevitável quando as tramas são tão semelhantes: ambos tratam da batalha travada por heróis, ambos levantam a periculosidade dos heróis para a humanidade como questão principal e ambos têm um figura vilanesca orquestrando o embate.

Diante de tantas simetrias, façamos uma análise espelhada dos dois filmes em termos de evolução de trama e escolhas narrativas. A proposta é detectar as similaridades e distinções na contrução narrativa, sem qualquer intenção de fazer juízo de valor sobre a qualidade dos filmes. Isso cabe à crítica e ao público. É importante lembrar que os filmes serão analisados com tais, isoladamente, independente do histórico de personagens, do curso da franquia nos cinemas, dos embates nos quadrinhos e das escolhas de adaptação das obras das quais se originam.

Como uma análise da trama dos filmes, o texto a seguir apresentará muitos SPOILERS. Recomendamos que você continue a leitura a partir daqui apenas se já tiver assistido aos filmes.

Antes de começar: a metodologia

Para esta análise narrativa, utilizo o modelo da estrutura clássica cristalizada por Syd Field e baseada nos estudos aristotélicos da Poética. Se em algum aspecto as tramas subvertem ou desobedecem à risca algumas das regras, uso também o modelo clássico para comparar escolhas narrativas e as consequências dessas escolhas.

Vale deixar claro que, para meu entendimento, este modelo se caracteriza por conter protagonista único e ativo que precisa superar obstáculos para alcançar seu claro objetivo, percorrendo uma trajetória linear cujo caminho se compõe por uma série de eventos relacionados na lógica de causa e efeito. A duração do filme dita o percurso traçado pelo protagonista, e pode ser divida em três partes — ou atos — em proporção de tempo aproximado de 1:2:1. Os atos, que podem ser respectivamente classificados como Apresentação, Confrontação e Resolução, são divididos por dois pontos de virada ou plot twists, que pontuam um acontecimento que gera uma guinada no caminho e nas expectativas do protagonista. O primeiro ponto de virada o coloca no trecho da ação ou confrontação e o segundo o eleva em direção a um clímax que dita se o objetivo será ou não alcançado. Além desse, há outros pontos narrativos importantes neste tipo de estrutura: o midpoint é um acontecimento importante que acontece bem no meio do filme, mas que não necessariamente pauta o início de um novo ato e o clímax, que é a parte máxima da tensão narrativa que acontece no terceiro ato e antecede o desfecho.

Gráfico modelo narrativo clássico (Y: Tensão / X: Tempo)

De onde a trama parte e onde pretende chegar

Para que possamos analisar as escolhas de roteiristas e diretores tanto em Batman Vs Superman quanto em Capitão América: Guerra Civil, é importante entendermos qual é a trajetória traçada pelos personagens ao longo da história. Para isso, devemos identificar o ponto de partida e o ponto de chegada dos heróis, e assim avaliarmos as escolhas da narrativa ao longo do caminho.

Enquanto em Capitão América: Guerra Civil a história parece muito mais centrada em um conflito específico — a divergência -, e mantém ao tema fundamental em seu desfecho, Batman vs Superman parece incluir questões e personagens novos ao longo do processo. Observamos que Apocalipse não faz parte da questão inicial do filme e que provavelmente será incluso na trama através de questões paralelas ao embate Bruce Wayne-Superman. Isso não é necessariamente um erro, mas sinaliza que a trama sofrerá viradas drásticas e que o conflito de heróis deixará de ser central na trama. Se esta opção é nociva ou não para o desenvolvimento da história depende das escolhas que roteiristas e diretor farão para chegar a este ponto. Vamos traçar os caminhos a partir daqui.

Início

Espectador próximo a Batman, Capitão América e Homem de Ferro, mas distante de Superman.

Tanto Guerra Civil quanto Batman vs Superman têm como set up de trama tragédias criadas pelos heróis que causaram a morte de inocentes. A diferença é a forma com a qual o Narrador escolhe abordar a questão. Em Guerra Civil, vemos alguns dos Vingadores em missão em Sokovia contra um grupo liderado por Ossos Cruzados. É uma missão corriqueira onde acompanhamos os heróis triunfarem sobre o grupo de inimigos, como em qualquer outro filme. A batalha termina com Ossos Cruzados detonando a granada que mataria a ele mesmo e o Capitão América, mas a explosão é prontamente interrompida pela Feiticeira Escarlate. A heroína usa seus poderes para erguer o vilão numa altura suficiente para que a granada exploda distante do Capitão. Mas ela perde o controle dos seus poderes e a explosão acaba acontecendo próximo a um prédio civil, causando a morte de vários inocentes. Como acompanhamos a batalha próximo aos heróis, por quem já temos empatia ao longo de anos de franquia, sentimos o mesmo sofrimento de Feiticeira Escarlate diante do acidente. Estamos envolvidos com sua causa.

Em Batman vs Superman, o ponto de vista é diferente. O filme já começa durante a destruição da cidade e aceleramos junto com Bruce Wayne por entre carros nas ruas de Gotham, no meio de civis em pânico. Estamos no ponto de vista das vítimas. Wayne se preocupa com um prédio que é uma das sedes de suas empresas e conversa com um de seus funcionários, que está exatamente onde acontece a luta entre Superman e Zod. Esta luta, aliás, é o momento climático de O Homem de Aço, filme anterior da franquia. Naquela cena sim, acompanhamos a luta e o sofrimento de Superman ao decidir matar Zod para evitar a morte de mais civis. Porém, como estamos considerando aqui o filme Batman vs Superman isolado da franquia, não vamos considerar que assistir ao filme anterior é requisito primordial para qualquer espectador que assista ao filme em questão.

Voltando a primeira sequência de Batman vs Superman, o funcionário das empresas Wayne parece resignado diante de seu destino irreversível e Bruce Wayne vê de baixo Superman lançando seu raio e causando o desmoronamento do prédio. Wayne ainda consegue salvar uma garotinha e retirar outra vítima dos escombros, também empregado de suas empresas. Mesmo assim não consegue evitar as grandes perdas desses personagens: os pais da menina estavam no prédio que desaba e a vítima dos escombros viria a perder parte das pernas.

A diferença de ponto de vista no caso de Batman vs Superman induz o espectador a tomar partido das vítimas e vilanizar Superman. Afinal de contas, o super-herói de Cripton parece totalmente insensível aos danos que aquela batalha gera aos civis. A conclusão da primeira sequência é um Batman que considera muito mais a vida dos inocentes do que Superman. O Homem de Aço, por sua vez, parece não se importar com as baixas que causa, desde que o inimigo acabe exterminado.

Ao longo da história, entretanto, testemunhamos duas situações trágicas das quais Superman é acusado injustamente: a chacina em Nairomi e a explosão no Capitólio. O fato de que na verdade Superman é vítima dessas acusações aproxima o espectador novamente do herói. Esse movimento não condiz com a escolha inicial do ponto de vista e, enquanto decisão narrativa, compromete o desenvolvimento do filme. Caso o espectador tivesse acesso a batalha que fez com que Superman destruísse o prédio e testemunhasse uma situação que, por exemplo, redimisse a atitude do super-herói, não teríamos um olhar tão julgador sobre ele no início. Teríamos, como em Guerra Civil, uma possibilidade de debate, de dois pontos de vista igualmente razoáveis.

Em Guerra Civil, todos nós compreendemos que a regularização dos super-heróis — proposta pela ONU depois do incidente em Sokovia — é passível de discussão. Nós entendemos o que motiva Tony Stark a apoiar a proposta, da mesma forma que a hesitação de Steve Rogers em assinar o documento da ONU é compreensível. Não há qualquer projeção maniqueísta entre os dois lados, como houve na primeira sequência de Batman vs Superman de forma sugerida.

Proporcionalidade na divisão de atos

Incidentes com civis são disparadores de conflito em ambos os filmes. Sokovia e Nairomi sediam o set up da questão central nas tramas. Tanto Tony Stark quanto Bruce Wayne desejam restabelecer a ordem e viver novamente em harmonia com civis. Ambos advogam pelo fim do heroísmo irresponsável: Stark defende a regularização dos super-heróis e Wayne engaja pela destruição de Superman. O posicionamento de ambos é motivado pelo sofrimento das vítimas: Tony Stark encontra a mãe de um garoto promissor morto na explosão de Sokovia e Wayne, como já dito, tenta ele mesmo salvar a vida das vítimas durante o desabamento.

Stark e Wayne não tomam uma atitude imediata. Neste momento, quem enfrenta Capitão América e Superman são ONU e senadora Finch, respectivamente. A senador convoca Superman para prestar esclarecimentos no Capitólio, enquanto a ONU redige um documento de regularização dos super-heróis que deve ser assinada por todos. Tanto a sede da reunião da ONU quanto o Capitólio acabam explodidos. Ambas explosões dão um novo curso às tramas: Bucky Barnes é responsabilizado pelo ataque em Viena e Capitão América é apontado como cúmplice do terrorista em Guerra Civil; em Batman vs Superman, o Homem de Aço desaparece depois da explosão do Capitólio e Batman assume o compromisso de caçá-lo “pelo futuro da humanidade”.

Estes dois eventos, no entanto, acontecem em momentos diferentes no filme. Enquanto a explosão da sede da ONU em Guerra Civil ocorre com pouco mais de meia hora de história, a explosão do Capitólio em Batman vs Superman ocorre exatamente na metade do filme. Seria plausível afirmar que este twist de trama é uma virada de midpoint, e não uma virada de ato, mas, a meu ver, Batman vs Superman não se organiza dessa maneira; Zack Snyder não usa o modelo clássico dos três atos para estruturar o roteiro. Primeiro porque a trama desloca a questão central a medida que muda de ato, como se dentro do filme houvesse três filmes diferentes; segundo porque entre a chacina de Nairobi e a explosão do Capitólio, a trama mantém em banho-maria investigações de navio português, balas, pesquisas com criptonita e debates sobre atitudes de Superman, sem permitir evoluir a ação dramática.

O benefício de seguir um modelo de roteiro de acordo com a estrutura clássica é justamente dar mais tempo para o desenvolvimento da ação dramática. É o que acontece em Guerra Civil. Depois da explosão, cada evento se sucede ao outro de forma orgânica e atado pelos laços da causa e efeito. Batman vs Superman, por sua vez, rompe com essa regra da narrativa hollywoodiana, mas não propõe uma organização de trama que possa beneficiar a história. Entre a cena em Nairomi e a explosão do Capitólio há uma sequência de eventos justapostos que contribuem para a história apenas com informações expositivas. O filme toma muito tempo para chegar ao assunto central que propõe o título.

Subtramas férteis e subtramas estéreis

As tramas menores que correm em paralelo nos filmes ajudam a irrigar a trama principal e contribuem para o ritmo da história. São dez os coadjuvantes que tomam partido de algum lado em Guerra Civil e participam ativamente da batalha. Cada um com sua motivação e trajetória, mas obviamente uns com menor peso de trama do que outros. Homem-Formiga é convocado por Falcão em um foreshadowing que já havíamos percebido no filme solo de Scott Lang. A entrada dele e do Homem-Aranha é motivada pela admiração que ambos têm pelos heróis principais. Já Visão e Viúva Negra se aliam a Tony Stark por compatibilidade de opinião, mesmo que Viúva Negra vá se revelar um agente duplo adiante. Feiticeira Escarlate é posta por Stark sob custódia depois do incidente em Sokovia e isso por si só já os coloca em oposição. Máquina de Combate e Falcão se posicionam por lealdade. Bucky e Pantera Negra, por outro lado, estão alheios às motivações da batalha e se alocam por questões pessoais: o primeiro se defende da perseguição das autoridades junto a seu protetor Capitão América; o segundo deseja vingar a morte de seu pai.

Todos os personagens se envolvem de forma orgânica e contribuem em suas tramas para o avanço da trama principal. Até mesmo a morte de Agente Carter fertiliza a motivação do Capitão América. Ela, assim como Bucky, são os últimos amigos vivos de Steve Rogers, de uma época remota do início do século XX. Lidar com a perda de uma pessoa por quem tem grande afeto conecta ainda mais Rogers a Bucky Barnes e o incita a intervir em sua busca, de forma a evitar uma possível execução do Soldado Invernal pelas autoridades.

Em Batman vs Superman, a opção por introduzir personagens para a franquia parece estar acima da coerência narrativa do filme em si. A presença da Mulher Maravilha, por exemplo, não traz qualquer benefício a trama central que é a batalha dos heróis, apesar de funcionar com um grande fan service. A existência de Lois Lane é ainda mais sintomática. Nas cenas em que sua presença é mais valorizada, ela parece ou exaltar um ponto de fraqueza de Superman — que coloca qualquer coisa em segundo plano para salvá-la de alguma situação de perigo, o que evidencia um traço de egoísmo de sua personalidade — ou demonstra estupidez — principalmente quando joga a lança de criptonita na água (?) e acaba quase morrendo afogada. Sua trama paralela de investigar balas de prata é um caminho longo e desnecessário para desdobrar os planos de Lex Luthor.

Zemo Vs Luthor— Mesmos objetivos, desenvolvimentos distintos

Em filmes em que os próprios super-heróis se antagonizam, é estranho que haja ainda um vilão que se opõe a ambos. Além de set ups idênticos e pontos de virada muito semelhantes, Guerra Civil e Batman vs Superman também se aproximam quanto a motivação de seus Zemo e Luthor: ambos se esforçam para induzir os heróis de seus filmes a se confrontarem.

As semelhanças, no entanto, param por aí. As razões de cada vilão e as consequências de suas ações divergem muito. Zemo perdeu a família em um missão desastrosa dos Vingadores que vitimou civis, mas não se considera capaz de mata-los ele mesmo com as próprias mãos. Por isso usa Bucky para atrair Capitão América e explode a sede da ONU de forma a responsabilizar o Soldado Invernal. Não satisfeito, ainda consegue descobrir o que de fato aconteceu em dezembro de 1991: Bucky Barnes matou os pais de Tony Stark. Com Capitão América ao lado do velho amigo — e que conhecia a verdade sobre esse fato sem jamais comunica-lo ao Homem de Ferro -, a batalha entre os principais heróis passa a ser pessoal.

Luthor, por outro lado, carrega uma história anterior muito mais confusa. Tanto Lois Lane quanto Bruce Wayne tentam conectar pontos entre balas de prata e cheques estornados, enquanto o público coça a cabeça para tentar descobrir o que tudo isso tem a ver com fazer testes de criptonita no cadáver de Zod. Para a senador Finch, Luthor pede apoio para desenvolver armas contra um deus incontrolável e quaisquer outro alienígena de Cripton que esteja sobre a Terra, caso contrário terá que contar com “a bondade dos monstros”. Diante da negativa, Luthor mata a senadora na explosão do Capitólio, usa Lois Lane para atrair Superman — Lois e Bucky, de certa forma, exercem a mesma função de expor uma fraqueza afetiva em Superman e Capitão América — e sequestra Martha Kent a fim de induzir Superman a matar o Batman para salvar sua mãe. E aí vem a dúvida: por que Lex Luthor deseja matar o Batman?

Essa não é a primeira vez no filme que a conduta do personagem é imprecisa. Os cheques com mensagens ameaçadoras que Bruce Wayne recebe são enviadas por Luthor por qual razão exatamente? Induzir o Batman a se engajar em uma batalha contra Superman? Por que Lex Luthor convida Bruce Wayne, Clark Kent e Diana Ross para uma festa em sua casa e permite que Batman e Mulher Maravilha bisbilhotem, se ele sabe da identidade secreta de todos eles (lembrando que Luthor conseguiu uma imagem de Diana em um caixa eletrônico que comprova que ela seria uma metahumana) e a ameaça que pode representar a ele mesmo? Adiante na história descobrimos que Luthor havia infiltrado um agente em Nairomi a fim de executar a chacina e responsabilizar Superman. Mas por que alguém acreditaria que o Homem de Aço mataria todas aquelas pessoas, ainda mais utilizando uma reles arma de fogo? E por que senadores e opinião pública de fato acreditam nisso sem qualquer questionamento?

As decisões questionáveis que Luthor toma ao longo da trama para alcançar seus objetivos nos jogam para dois extremos igualmente prejudiciais: ou entendemos que Lex não tem capacidade intelectual suficiente para se tornar um antagonista páreo para Batman e Superman — o que tira a força do embate — ou não conseguimos acompanhar a lógica do plano maligno como se a história não explicasse o suficiente e nos desconectamos do filme.

Diferente de Zemo, Luthor não tem uma meta clara para o objetivo que traça: por que ele deseja matar o Superman? Zemo, por outro lado, planeja vingança, pura e simples, e se articula para conseguir obtê-la da forma mais perspicaz. É importante deixar claro que seus meios também são narrativamente questionáveis — como diabos ele conseguiu burlar a segurança daquela prisão e se passar por outra pessoa? Mesmo assim, em termos comparativos, seu arco é muito mais simples e robusto do que o de Luthor, muito mais efetivo. O vilão de Batman vs Superman, por outro lado, traça um caminho muito complicado e a lógica narrativa se perde em um enredo enfraquecido.

Os heróis se unem

A presença dos vilões nos filmes pressupõe que os heróis em algum momento irão se unir para combate-lo. Considerando que em ambos os casos o plano é induzir os heróis para se confrontarem, é de se imaginar que, sendo vilões, esse plano irá falhar e os heróis irão se voltar contra ele. Em Batman vs Superman, trailer já havia entregado o momento do primeiro agrupamento da Liga da Justiça contra Apocalipse, mas em Guerra Civil a expectativa de como se daria essa união continuou até a exibição do filme.

Nos dois filmes, os caminhos traçados são opostos. Enquanto em Batman vs Superman os heróis saem da luta solitária para agrupar a Liga de Justiça, em Guerra Civil os Vingadores anteriormente unidos sofrem uma ruptura. Esse movimento deveria tornar a união dos heróis mais natural em Batman vs Superman, mas não é o que acontece. Depois de um confronto intenso, Bruce Wayne recua seu ímpeto por matar Superman depois de descobrir que, assim como a sua, a mãe de Clark Kent também se chama Martha.

Esse momento de conexão emocional altera o curso da história ao ponto de tornar Batman e Superman de adversários para cúmplices. Toda construção da lógica de Bruce Wayne a respeito da ameaça de Superman para a humanidade, sua sede de vingança ao lidar com vítimas literalmente dilaceradas, tudo isso vai por água abaixo depois que a palavra mágica “Martha” é dita. Mal comparando, é como a ordem de palavras que hipnotiza Bucky Barnes — perde-se totalmente a consciência de tudo que se fez antes.

Há quem defenda que o “momento Martha” vai além de duas mães de mesmo nome, que simboliza a consciência de que Batman e Superman são, na verdade, a mesma pessoa. Mas se formos considerar que Bruce Wayne se dá conta da igual periculosidade de Batman para a humanidade, a lógica não seria ele abdicar de si mesmo ao invés de assumir com Superman o fato de serem inevitavelmente causadores de tragédia? Apesar de simbólico, esse argumento não parece narrativamente viável, pelo menos não às claras na trama. Dá a entender que houve sim uma dramática sensibilização de Bruce Wayne ao ouvir o nome de sua mãe morta e uma imediata conexão de causas entre ele e Clark. Tanto que, adiante no filme, o Batman se identifica com “um amigo de seu filho” ao resgatar Martha Kent do sequestro. O efeito natural no espectador é desconectar-se da história, questionar o que acontece na tela e terminar irritado com esta tentativa de subestimar sua inteligência.

Em Guerra Civil, a união dos heróis é momentânea, não é uma virada de trama e acontece de forma um menos abrupta. Não é totalmente natural porque Tony Stark descobre do nada que o suposto psiquiatra que entrevista Bucky Barnes em sua carceragem (Zemo) matou o verdadeiro e usurpou seu lugar — nós não vemos esta revelação vindo à tona até chegar a Stark. É momentânea porque dura até pouco tempo adiante, quando o Homem de Ferro assiste ao vídeo que prova que o Soldado Invernal é o assassino de seus pais. Essa virada de trama coloca Homem de Ferro e Capitão América definitivamente em combate e o objetivo maior de Zemo é alcançado.

Conexões entre primeiro e terceiro atos — evolução orgânica e incompatibilidade de trama

A entrada para o terceiro ato de Guerra Civil se dá em direção à luta climática na Sibéria. A tensão se eleva com a possibilidade de um herói talvez matar o outro, mas isso não acontece. No fim, Capitão América está prestes a desferir o golpe fatal em um vulnerável Homem de Ferro, mas reluta. Afinal, são dois heróis, são dois amigos que não pretendem levar ao extremo suas divergências. É um final lógico, se pensarmos na parceria que os Vingadores demonstram ter desde o início do filme. Encerrada a batalha, Capitão, Bucky e Pantera Negra vão para Wakanda. Stark e Rogers se mantêm divergentes, mas não mais adversários.

Não é por ser parte de uma franquia que Guerra Civil abdica da própria lógica para irrigar a qualquer custo os filmes posteriores, como faz Batman vs Superman. A linha traçada entre início e final da história — como visto no gráfico do longínquo início deste texto -, indica que a trama orbita ao redor do que o filme propôs como seu centro fundamental desde o começo: a batalha entre os heróis. Não há desvios nem inclusão de elementos ao longo da história que desvirtuem a proposta inicial, por isso a evolução de trama se dá de forma simples, efetiva e orgânica.

Batman vs Superman subverte a fórmula estrutural de Hollywood, não se sabe se por intenção ou por erro, mas não faz funcionar seu modelo narrativo. A desproporcionalidade dos atos dramáticos traz a impressão de três filmes distintos dentro do mesmo filme, e a batalha dos heróis batiza apenas a segunda parte. A terceira não condiz com a proposta inicial do filme, como vimos anteriormente. Depois da grande virada na revelação das mães homônimas, Batman e Superman se aliam contra Lex Luthor, que envia Apocalipse, seu mais novo experimento feito com DNA de Zod. A batalha contra o vilão introduz a Mulher-Maravilha de maneira grandiosa e gera — pasmem — grande devastação aos arredores da cidade. A destruição é ainda maior do que na batalha de Superman contra Zod, do começo do filme, e dessa vez Batman parece não se importar com crianças que ficariam órfãs nem com possíveis amputados. O final do filme desdiz todo o que foi construído no começo. É como se dissesse para o espectador: “esqueça tudo o que aconteceu até Clark dizer Martha, o filme começa para valer a partir daqui.”

Não é que Guerra Civil seja um primor da narrativa cinematográfica. Pelo contrário; é um filme comum que consegue explorar a estrutura clássica e o gênero no qual se encaixa de maneira eficiente. Mas quando é posto em comparação com um filme estruturalmente acidentado como Batman vs Superman — com o agravante de serem ambos tão semelhantes em vários aspectos -, Guerra Civil parece um filme de vanguarda. Na verdade, sendo bem claro, Guerra Civil cumpre tecnicamente aquilo que tem a obrigação de fazer com o mínimo de decência, assim como qualquer blockbuster hollywoodiano. Batman vs Superman se rebela contra a fórmula, mas não consegue entregar uma proposta melhor do que aquela que nega por julgar simplória.

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