Eu - 1
Estou eu , esperando que o atendente acabe de fazer seu imprestável trabalho .
- Próximo ! - Ele grita quase que para ele mesmo , sem vontade , é a minha vez .
- 1000 reais , débito , poupança , isso . - Tiro o dinheiro e entrego
- 1000 reais ? - Ele pergunta depois de contar
- Humhum - Respondo num tom quase anestesiado pelo tédio .
O que será que esse atendente de banco tem na mente ?O que ele quer da vida ? Provavelmente os seus sonhos de infância já foram destruídos, e ele percebe que não será grande coisa na vida e se conforma .Tenho pena desse tipo de gente .Agora meu tédio já passou, esse é um bom meio para faze-lo passar, tentar o que se passa na mente de cada pessoa, e é útil algumas vezes .
Vou-me indo para uma cafeteria ali perto , a cafeteria é um ótimo lugar para observar as pessoas e tentar entender seus comportamentos . Entro na cafeteria , me sento , peço um cappuccino médio , uma água à temperatura natural , prefiro , e um pão de queijo só pra não ficar de barriga vazia , até porque o pão de queijo de lá é frio e duro . Retiro meu bloco de anotações. Nesse momento entra uma figura alegre e sorridente , pelo jeito conhece o dono do estabelecimento , cumprimenta os garçons e as atendentes , todos esses sorridentes e prestativos . Esse tipo de pessoa deve ter um controle mental muito grande para dissimular tal afeição com todos que conhece , sério , não consigo acreditar que ele goste de todo mundo , parando para pensar , essa é a definição de politica , não ? Ele sai levando um copo de expresso , manda colocar na conta , agora eu entendo .
Tem um casal sentado do meu lado , parecem brigados , ela não consegue ficar mais de alguns segundos olhando para os olhos dele , ele , ao contrario , busca o olhar dela , com uma cara de desculpas , ela se levanta aos prantos , sai apressadamente e ele deixa um punhado de dinheiro sobre a mesa , e a segue , essa é fácil : Traição . Pessoas são previsíveis , homens são mais , devo achar isso porque sou um . É até difícil engolir aquele pão de queijo , mas tento , tenho que manter as aparências nos lugares que frequento , mas putz ! Esse pão de queijo está muito ruim , deixo ele pela metade , me levanto e vou embora . Tenho que comprar pão , sabe , vivo sozinho , mas de vez em quando eu gosto de um pão bastante crocante e saído do forno , infelizmente , isso é difícil de encontrar hoje em dia . Vejo uma ruiva passando do meu lado , me impressiono com sua beleza , olho pra traz e ela se foi , são sei se era real , talvez uma forte lembrança … não , não vou falar sobre isso . Na padaria , outra fila , duas na verdade , uma para o pão e outra para pagar , nisso o pão já esfria . Chega a minha vez e olho para a atendente :
-Faz tempo que o senhor não vem aqui ! - Não , não faz , dois , três dias no máximo - Verdade ! Estava começando a ficar com saudades de vocês - Outras mentira , e ela sorri . Vou embora .
De vez em quando tenho vontade de só contar o que sinto , de verdade , mas me parece que as relações sociais são baseadas em pequenas mentiras , ditas para não magoar , e eu ? Como fico ? Eu me magoo quando não digo o que penso , me magoo quando dissimulo , “É um mal necessário” ouvi certa vez . O pior é que eu sei que se eu começar a agir assim , o máximo que irei conseguir é ser exilado da sociedade , e se eu conseguisse convencer outro alguém , ele também seria excluído , mas se comportar propositalmente sabendo que isso vai contra meus princípios não é um auto-exílio ? Não sei , sei que começou a chover e estou sem meu guarda-chuva , nem casaco , não me importo , é só água , gosto da sensação , me purifica , de certo modo , e o melhor : Não tem mais ninguém na rua , amén ! Me encaminho para casa . Sono , ah ! Maldito sono , me vejo numa rua desconhecida e deserta , me perdi , saco , olho para os lados , é , estou perdido , divertido , eu acho , divertido vai ser me achar , tenho um senso de direção horrível , pareço até mulher , sem ofensas , é a genética . Encontro um ponto de referencia que penso me lembrar , é uma borracharia , isso mesmo , me lembro dela , paro na frente da borracharia , e agora ? Ainda está chovendo , e eu estou ensopado , não lembro para onde continuar . Ah ! Salvação ! Um táxi ! Mando ele ir para a minha casa , com sorte ele também não se perde , chego em casa à salvo . Moro no primeiro andar , em cima de um escritório de advocacia , continua chovendo , tá , parei de gostar de chuva , entro , tiro meu sobretudo e coloco na pia , quer saber ? vou colocar toda a roupa na pia . Me deito , paz … exterior , dentro de mim um turbilhão de pontos e contos , produto do que vivi hoje , sobre a sociedade , bem capaz d’eu escrever um livro regurgitando isso tudo e de ser best-seller , bem capaz . Tento dormir , o turbilhão de idéias não deixa , me rendo à ele .
Sociedade falida ; pessoas conformadas ; lixo cultural ; desilusão ; estagnação ; estamos todos condenados à viver na mesmice chata e ilusória , eu já desisti de lutar contra isso , me rendi , e agora , me rendo ao sono .
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