Nem direita, nem esquerda, mas cristão?

Apesar de ser um assunto que eu goste bastante, confesso que é sempre um desafio escrever sobre ele. Pois, ao fazer isso, é impossível não expor minhas crenças e preferências políticas. E sendo um assunto tão polêmico, polarizado e extremado em nossos dias, expor o que penso geralmente é desconfortável. Eu inclusive diminuí consideravelmente o número de posts sobre política em meu Facebook, pois estava cansado de tantos embates e discussões. Escrevo este texto num tom pacificador e conciliador, não buscando polêmica alguma, mas sim refletir para que busquemos a paz e a unidade em nossas inúmeras diferenças.

“Não sou de direita, nem de esquerda, mas sou cristão!”

Tenho ouvido (e lido) com frequência entre cristãos esta frase em conversas e discussões sobre política. E não só entre cristãos, mas também de cristãos para não-cristãos. Desde o começo acho justo deixar algo claro: não gosto muito desta frase. Apesar de entender e reconhecer que ela tem algo correto a nos ensinar, no geral acredito que traz mais malefícios que benefícios para a igreja e a atuação dos cristãos na sociedade. Explico o porquê e, como de costume, usarei um texto bíblico para me auxiliar neste desafio.

Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.
João 17.15–18

Os cristãos costumeiramente caem no paradoxo de viver neste mundo, mas não pertencer a ele. Diante disso, a grande questão que fica é: o que significa viver neste mundo, e o que significa não pertencer a este mundo?

Muito se poderia escrever sobre como um cristão deve viver no mundo, e qual o significado de não pertencer ao mundo, ou até qual é a sua missão. Sim, missão, afinal os discípulos de Jesus foram enviados ao mundo por ele, assim como ele foi enviado ao mundo por Deus. Mas não tenho a intenção de, neste texto, escrever exaustivamente sobre a missão cristã. Dentro da missão, quero focar apenas nas escolhas que os cristãos dia após dia precisam fazer no âmbito político, tendo em vista tanto o ‘viver’, quanto o ‘não pertencer’.

Vivendo neste mundo

Urna eletrônica

Escolhas. Palavra essencial para mostrar o que eu penso sobre os malefícios provindos desta frase. Não só os cristãos, mas todo cidadão precisa fazer escolhas no âmbito político. No caso dos brasileiros, pelo menos de dois em dois anos, nas eleições, cada cidadão devidamente registrado como eleitor se dirige às urnas para escolher seus candidatos. E como decidir em quais candidatos votar? Neste momento considero que todos os que leem este texto sabem da importância do voto consciente. Caso contrário, pouco importa o “como decidir em quais candidatos votar”, basta votar em qualquer um. Mas não é isso que se espera de um eleitor, muito menos de um eleitor que é cristão. Voto consciente implica, dentre outras coisas, em conhecer as maiores necessidades da sociedade, em saber quais são os principais assuntos debatidos e propostos em políticas públicas e, finalmente, em escolher qual candidato tem as propostas que mais se aproximam daquilo que se entende ser o melhor para todos. E um cristão que fizer isso tudo, obviamente, buscará ser coerente com os princípios bíblicos nessa escolha.

E é aqui que as diferenças começam a dar as caras. Por que será que os cristãos não escolhem sempre os mesmos candidatos? Se todos escolhessem de acordo com os princípios bíblicos, os votos não deveriam ser todos iguais? Pois é, não. Sobre isso falo mais em seguida. Mas o fato é que não é assim, e nem deveria ser. Há muita diversidade entre os cristãos no âmbito político. E isso vai além da “simples” escolha de um candidato, pois essa escolha se baseia em suas propostas, que por sua vez refletem as inclinações políticas de cada eleitor.

Sendo um pouco mais prático, tente responder às seguintes perguntas.

Qual é a sua posição em relação aos temas ‘descriminalização das drogas’, ‘liberação do porte de armas’, ‘cotas nas universidades’, ‘políticas assistencialistas’, ‘intervenção do governo na economia’, ‘privatização de empresas/espaços públicos’, ‘direitos trabalhistas e sindicatos’, ‘liberalismo econômico’, ‘pena de morte’, ‘carga tributária’, ‘papel do Estado na sociedade’, entre outros?

Tim Keller, em seu livro Justiça Generosa (Vida Nova, 2013, p. 49), também problematiza essa questão.

A Bíblia contém muitas prescrições éticas diferentes e claras para o ser humano. Porém, quando nos voltamos para a lei social do Antigo Testamento, a aplicação tem de ser feita com cautela e estará sempre sujeita a discussões. Por exemplo, embora tenhamos visto que a Bíblia requer que ajudemos os necessitados — e deixar de fazê-lo é cometer injustiça –, ela não estabelece, no geral, como a redistribuição deve acontecer. Deveria ser do jeito que os políticos de direita estabelecem, quase exclusivamente por meio de ofertas voluntárias, individuais? Ou do jeito que os políticos de esquerda desejam, ou seja, que o governo faça redistribuição de renda e cobrança diferenciada de impostos?

Querendo ou não, todos nós temos opiniões sobre esses diversos temas. Se alguém não faz ideia do que seja isso tudo, é bom se preocupar. E, em minha leiga opinião, sempre haverá um grupo de pessoas com as quais nós mais nos identificamos quanto às posições e escolhas em relação a esses temas. Conscientes disso ou não, sempre teremos nossas inclinações políticas. Você pode chamar isso de direita ou esquerda, conservador ou progressista, ou até inventar um outro nome, mas é preciso reconhecer que não estamos alheios a essas inclinações.

“Muro do Impeachment” em frente ao Congresso Nacional (Brasília-DF)

Sendo assim, se alguém diz ‘não ser de direita, nem de esquerda, mas cristão’ com a intenção de mostrar não ser influenciado ou inclinado a nenhum desses lados, creio que isso beira à ingenuidade. Agora, se alguém diz isso com a intenção de simplesmente não ser definido (ter sua identidade completamente atrelada) por um desses “lados”, eu entendo, até concordo, mas acredito que isso poderia ser feito de outra maneira. Esta frase, apesar de cumprir o papel de reforçar a identidade cristã de uma pessoa, geralmente vem também carregada por mais três pontos, a meu ver, ruins: 1. uma certa arrogância que supõe que os cristãos estão completamente alheios e “acima” de qualquer ideologia ou inclinações políticas; 2. uma tentativa (às vezes inconsciente, às vezes velada, às vezes escrachada) de dizer que as preferências políticas de um determinado grupo é a visão cristã genuína; 3. intolerância no meio cristão contra aqueles que reconhecem e assumem suas inclinações e preferências políticas, como se não fosse possível ser cristão e, ao mesmo tempo, ser de direita ou de esquerda. Como já foi falado, é preciso reconhecer nossos gostos e inclinações políticas, e eu acredito que é sim possível reconhecermos essas inclinações sem sermos definidos por elas.

Ser cristão e viver neste mundo implica em levar a política a sério. Implica em ser sensível às necessidades e aos problemas de nossas cidades e de nosso país. Implica em se envolver, conhecer, discutir e pensar sobre as questões levantadas pela classe política e debatidas na sociedade. Implica em voto consciente, em escolhas. E são nas diferenças de nossas escolhas que temos a oportunidade de respeitar o nosso próximo, de tolerar e amar nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Não pertencendo a este mundo

Entretanto, além de reconhecer nossas inclinações políticas, é preciso reconhecer também os perigos que elas nos trazem.

O Evangelho não é de direita, nem de esquerda. Isso é uma verdade. Mas isso não quer dizer que ele é em si uma ideologia política contrária à direita e à esquerda. Na verdade, significa que: 1. o Evangelho é supracultural, ele faz sentido e é relevante em todas as culturas em todas as épocas, seja qual for o sistema político; 2. o Evangelho não “cabe” dentro de uma ideologia política, se coubesse, não seria supracultural, pois os sistemas políticos são culturais. O Evangelho nunca se propôs a criar um sistema político, por isso não faz sentido defender a existência de um sistema político genuinamente cristão, e nem recusar-se a ter preferência por um sistema político contemporâneo, afinal nossa sociedade se organiza dessa forma.

Toda e qualquer ideologia política é uma criação humana. Por ser criação humana, há falhas, há incoerências, há contradições com o Evangelho, há o pecado. Mas há coisas boas também nas ideologias políticas, como senso de justiça, bem estar social, incentivo ao trabalho e à generosidade, proteção à vida, etc. Ou seja, há contradições e há compatibilidades com o Evangelho. E esse é o perigo de nossas inclinações políticas: deixar-nos levar e conformar (não só no sentido passivo, mas também no sentido de tomar a forma) pelas contradições ao Evangelho que elas carregam.

Ainda sobre a problematização da ajuda aos pobres, Tim Keller complementa:

Pessoas zelosas discutem e continuarão discutindo qual é a melhor maneira de ajudar os pobres. Todo mundo que busca apoio na Bíblia para suas ideias acaba encontrando uma resposta, mas no fim das contas o que a Bíblia diz sobre justiça social não pode ser ligado a nenhum sistema político ou econômico.

Vocês devem ter percebido quantas vezes o termo ‘inclinações políticas’ foi escrito até aqui, e não foi à toa. Acredito que sempre teremos nossas inclinações políticas, mas elas devem continuar sendo apenas inclinações ou preferências políticas, nunca um compromisso de vida, nunca como aquilo que dá sentido à nossa vida, nunca como algo que vai redimir a nossa sociedade.

Somente o Evangelho de Jesus Cristo pode dar sentido à nossa vida e pode redimir a nossa sociedade. Sempre que colocamos nossa esperança em algo ou alguém que não seja Jesus, estamos pecando. O compromisso do cristão com o Evangelho deve ser absoluto, e é nesse sentido que precisamos sempre reforçar nossa identidade cristã em meio às nossas inclinações políticas.

Esse é o significado de viver neste mundo, mas não pertencer a ele, no âmbito político. É reconhecermos nossas inclinações políticas, mas não sermos definidos por elas. É nos envolvermos com a política em nossa sociedade, conhecendo suas demandas e fazendo escolhas, buscando também sermos coerentes com os princípios cristãos. Quando penso nisso, sempre me lembro do que um amigo me disse certa vez numa conversa sobre este assunto:

“Gui, como seria lindo o dia em que os cristãos de direita deixassem de criticar e criticar somente a esquerda, e passassem a criticar a própria direita, buscando aplicar os princípios cristãos naquilo em que ela contradiz o Evangelho… E como seria lindo o dia em que os cristãos de esquerda deixassem de criticar e criticar somente a direita, e passassem a criticar a própria esquerda, buscando aplicar os princípios cristãos naquilo em que ela contradiz o Evangelho!”

Eu acredito nisso. Seria lindo o dia em que parássemos de “guerrear” contra o lado oposto, respeitássemos suas escolhas, e lutássemos por uma sociedade mais justa onde nós estamos.

Não tenho a intenção de exigir que todos os cristãos tomem uma posição entre direita ou esquerda. Apenas gostaria de incentivar o respeito e a liberdade entre os cristãos quanto às escolhas de cada um, e o compromisso com o Evangelho em meio às nossas escolhas. Quem sabe, a partir daí, consigamos ter um diálogo saudável também com aqueles que pensam diferente de nós?

Voltando à frase, gostaria de sugerir uma alteração:

“Seja na direita, seja na esquerda, antes de tudo, sou cristão.”

Gui Dutra