Um Corinthians x Palmeiras e a nossa ética de vencer a qualquer custo

Na última quarta-feira foi disputado um dos mais tradicionais clássicos do futebol, que completa 100 anos de história. Jogaram, em Itaquera, Corinthians e Palmeiras.

De início é importante destacar um fato sobre o autor deste texto: suas paixões pelo clube de verde e branco podem e vão influenciar na redação dos parágrafos abaixo.

Dito isso, voltemos ao jogo. Estava daquele jeito, muito disputado, algumas jogadas mais firmes, mas o árbitro conduzia bem a partida. O placar não saíra do 0 x 0.

Falta de Maycon em Keno. Gabriel nem está na jogada.

Até que aos 45 minutos do primeiro tempo, em um contra ataque alviverde, o atacante Keno que partia em velocidade na direção do gol é derrubado pelo corintiano Maycon (nº 30). Falta clara, punível com cartão amarelo. O árbitro, contudo, se confunde e, ao invés de dar o amarelo para o Maycon, o mostra ao volante Gabriel (nº 5), que até ano passado defendia as cores do Palmeiras e fora contratado nesta temporada pelo Corinthians (“Judas! Traíra!”). Como ele já tinha amarelo, foi expulso.

Árbitro expulsa Gabriel ao invés de Maycon, que cometeu a falta.

Em que pese a acentuada reclamação dos jogadores alvinegros e as orientações da equipe de arbitragem, Thiago Duarte Peixoto, árbitro da partida, não voltou atrás e manteve a injusta expulsão do [traíra, ops, digo] volante Gabriel.

E é aqui que vem minha surpresa. Nenhum jogador ou integrante da comissão técnica do Palmeiras avisou o árbitro do erro. É impossível imaginar que pelo menos uma pessoa que vestia verde naquele estádio não tenha visto o lance como de fato ele ocorreu. E se viram, porque ninguém foi avisar o árbitro de seu erro?

Árbitro pede que Gabriel, expulso injustamente, saia do campo. Jogadores do Palmeiras, olhando, nada fazem.

Ora, porque acontece no futebol o mesmo que acontece na minha e na sua vida. Temos uma vontade imensa de sempre nos dar bem, e na maioria das vezes é isso o que guia as nossas decisões.

Seja furando uma fila, pedindo para alguém responder chamada quando você não está na aula, mexendo em alguns dados para que a sua declaração de Imposto de Renda fique mais interessante, entrando num esquema com o governo para que sua empresa seja favorecida…

O que todas essas situações, inclusive a do futebol, têm em comum? Se o “Árbitro” não vir a maracutaia, eu vou me dar bem. Essa acaba sendo a nossa verdadeira ética. Nos dar bem.

Tenho me impressionado com o que aprendo do Evangelho. E acho que se aplica exatamente para todas essas situações. A caminhada com Jesus redefine a minha ética. Aprendo que eu já me dei bem (sou mais que vencedor) por conta do que Jesus fez por mim. Assim eu não preciso ficar buscando me dar bem em todas as situações e sou livre pra tentar ter uma ética e praticar uma moral com outros parâmetros, como justiça e amor.

Entender isso é libertador e reorientador.

Porque agora, nas partidas as quais disputo, não importa apenas o vencer. Mas o como vencer. E se eu não vencer porque disputei uma partida limpa, não tem problema. Porque todas as coisas que acontecem são para o meu bem. Posso ser o cara do Fair Play, porque aprendi que tem coisas que importam mais do que vencer uma partida.

Aquele que ganhou todos os campeonatos, se fez Íbis, e foi rebaixado à última divisão, para que eu e você pudéssemos jogar limpo. Para que nossa ética tenha um outro paradigma, diferente do se dar bem em todas as situações, o paradigma do seu amor.

E quanto ao resultado de Corinthians x Palmeiras, bom, melhor deixar pra lá…