Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?
Reportagem escrita em 1 de abril de 2019
A frase da famosa letra de uma música da banda Skank, representa o que muitos jovens almejam desde muito novos: ser jogador de futebol. Seja pelo dinheiro, pela fama, para dar uma vida melhor aos familiares ou pelo simples fato de fazer algo que ama.
O grande empecilho desse sonho, assim como da maioria dos outros, é o caminho para que ele seja atingido. A distância da família e dos amigos, o fator psicológico, entre outros pontos, são elementos que dificultam ainda mais a caminhada, principalmente porque esse desafio começa quando ainda se é muito novo. O número de meninos que sonham em ser atletas profissionais é gigante. Consequentemente, a concorrência também é enorme. Muitos garotos têm a habilidade necessária, recebem algumas oportunidades mas, por algum motivo, não conseguem se tornar jogadores.

Diego Serafim Pedro, 29, conhecido como Dieguinho, é um claro exemplo de quem tem habilidade, mas não atingiu o mais alto nível no futebol. Multicampeão nos torneios semi-profissionais/amadores de Minas Gerais, Diego passou pela base do Cruzeiro Esporte Clube, um dos principais times do estado, quando tinha apenas 8 anos de idade, mas por algumas dificuldades, não continuou na equipe.
“Minha maior dificuldade foi a adaptação. Não só no Cruzeiro, mas em outros clubes que joguei, minha maior dificuldade era me adaptar ao lugar e conviver com outras pessoas, pois eu nunca tinha saído de casa, então eu tinha essa dificuldade”, contou Diego.

Renan Reis Oliveira, 21, assim como Diego, integrou por um tempo a base do Cruzeiro, quando tinha 15 anos, mas também acabou não se tornando jogador. Ao contrário de Diego, Renan apontou a falta de informação como maior dificultador da sua passagem no clube mineiro: “Eram treinos rápidos, com cerca de 25 meninos. A gente chegava lá — na Toca da Raposa, centro de treinamento do Cruzeiro — e eles separavam os jogadores e faziam um rachão. Não sabíamos como estava sendo nosso desempenho e nem quem estava nos avaliando. Havia cerca de oito pessoas da comissão técnica em volta do campo nos observando”.
Diego e Renan passaram um tempo mais curto na luta pelo sonho de garoto, mas outros tantos seguem na tentativa de se tornar profissional por mais tempo.
Luiz Carlos da Silva Júnior, também conhecido como Juninho, já foi um desses jovens. Hoje com 25 anos, Juninho ficou dos 13 aos 18 na busca pelo sucesso dentro das quatro linhas. Passou pela base de seis clubes, dentre eles Cruzeiro, São Paulo, Atlético-MG e Fluminense, além de ter sido companheiro de equipe de jogadores que hoje atuam profissionalmente, como o volante Luiz Philipe, conhecido como Muralha, que teve passagem pelo Flamengo e hoje atua no futebol da Arábia Saudita.
Expondo uma parte da rotina dos garotos na trajetória da busca pelo profissionalismo no futebol, Juninho relata que a convivência em alguns momentos era limitada:
“Quando eu estava no Santo André-SP, na época o clube estava bem, eu tinha entre 14 e 15 anos. A base morava e treinava em um tipo de sítio, que era afastado. Eu estava em avaliação, portanto eu não tinha folga para ir pra casa e foi bem complicado. Por ser afastado, a galera só saia para estudar; eu, como estava em avaliação, não estudava, só ficava lá dentro. Não via ninguém, convivia mesmo só com a galera do meu quarto”, contou.

Assim como Diego, Juninho relata que uma das maiores dificuldades era ficar longe da família e dos amigos. Em uma das tentativas de se firmar na base de algum clube, ele conta sua experiência quando tinha apenas 13 anos: “Eu sempre fui ligado demais a minha mãe, e os campeonatos de base aconteciam muito nas férias escolares. Em alguns anos eu entrava de férias e viajava para o alojamento para disputar campeonatos. Em 2007, eu saí de férias e fui para Rio Novo-MG para disputar um campeonato; voltei para casa no dia 23, passei Natal e ano novo e dia 2 de janeiro eu viajei novamente, para começar o treinamento para a disputa da Copa Cazetinha, no Espírito Santo. Final e começo de ano estava toda a minha família na minha casa e eu tive que sair”.
Quintiliano Lemos, diretor das categorias de base do Cruzeiro, nos conta que o cuidado com quem está no clube ultrapassa as quatro linhas: “Sempre pensamos em formar boas pessoas, bons cidadãos e também bons atletas. Para isso temos um departamento de assistência social. Oferecemos escola regular dentro do centro de treinamento e também escola de inglês. Os garotos que não conseguirem se tornar atletas, e também os que conseguirem, possuem uma base para, se for de interesse, fazer uma Faculdade e ter um curso superior.”
Muitos jovens recebem uma atenção e base para, caso não se tornem atletas profissionais, seguirem sua vida com sucesso em outros âmbitos. Alguns clubes, assim como o Cruzeiro, demonstram que existem muitas coisas importantes além apenas do futebol.

