Edge of Tomorrow

All You Need Is Repeat


Em Austerlitz, romance de W. G. Sebald, no decorrer de uma investigação para determinar algumas questões relativas ao seu passado, o protagonista (cujo nome dá título ao livro) encontra um vídeo de propaganda nazi. Trata-se de um vídeo de catorze minutos, no qual se transmite a ideia da existência de uma cidade onde se vivia sossegadamente, longe dos horrores da guerra. Para Austerlitz, perceber se determinada pessoa esteve ou não presente na cidade, se aparece ou não aparece no vídeo é fundamental, e é assim que manda fazer uma cópia, em câmara lenta, com a duração de uma hora. Esta transformação é essencial:

“o mais perturbador, disse Austerlitz, era a transformação dos ruídos nesta versão em câmara lenta. Numa curta sequência do início que mostra o trabalho sobre o ferro ao rubro […] a alegre polca de um qualquer compositor vienense de operetas que se ouve na banda sonora da cópia de Berlim torna-se marcha fúnebre que se arrasta de um modo quase grotesco”

Esta ideia da aparição da verdade mediada pela tecnologia encontra acolhimento em algumas produções cinematográficas mais recentes. Ainda não há muito tempo, num dos momentos mais impressionantes de Spring Breakers (Harmony Korine, 2012), uma das protagonistas partilhava com as suas companheiras de viagem o seu desejo em conseguir pausar a realidade, como se de um videojogo se tratasse, perpetuando assim momentos, derrubando a barreira da memória e da experiência.

A adaptação para cinema do romance de Hiroshi Sakurazaka, All You Need Is Kill, constitui mais uma variação deste tema. Edge of Tomorrow, um dos blockbusters do verão de 2014 e que tem como protagonistas Tom Cruise e Emily Blunt, coloca-se no cerne desta questão explorando alguns aspectos do complexo regime mediático contemporâneo.

Em Edge of Tomorrow, um dos soldados que morre no campo de batalha — numa missão militar destinada a repelir os invasores alienígenas que chegaram ao nosso planeta através de um meteorito caído na Alemanha — , ganha a habilidade de reviver o seu último dia de vida, justamente até ao momento em que é dizimado pelo inimigo. Este é o motivo narrativo central do filme, a ideia de que através da repetição ad infinitum dos acontecimentos, Cane — o soldado a que Cruise dá corpo — será enfim capaz de perceber o que é que corre mal, ajustando e corrigindo as suas acções de maneira a poder compreender os pontos fracos do inimigo, alterando assim o seu destino, antes condenado ao fracasso e à derrota.

Tal como em Austerlitz, trata-se de um novo posicionamento perante a realidade: no caso do romance de Sebald através de um movimento de desaceleração; no filme realizado por Doug Liman, mediante a figura da repetição. A aparição do sentido último da realidade no campo de concentração de Theresienstadt — na farsa propagandista das imagens encenadas no vídeo nazi, — através da mediação tecnológica é aqui relevante, na medida em que configura algumas das questões exploradas pela estratégia de Edge of Tomorrow.

A repetição à qual Cane é exposto parece ser assim comparável às sucessivas revisitações mediáticas dos eventos do desembarque na Normândia, que fazem parte do imaginário histórico do espectador contemporâneo. Às lições de estratégia militar que Cane vai aprendendo, equivale o abrir do (suposto) verdadeiro sentido da História através de obras como Saving Private Ryan ou Band of Brothers, para citar dois exemplos de produções que procuram revisitar aqueles eventos de acordo com um registo pretensamente realista. Este realismo não corresponde a outra coisa senão à espectacularização da história, que em Edge of Tomorrow parece ser assumidamente explorada de forma programática.

Tal é a evidência desse programa de espectacularização ou reapropriação da história patentes em Edge of Tomorrow, que uma das datas importantes da distribuição mundial do filme foi justamente o 6 de Junho, aniversário dos 70 anos do desembarque na Normândia.