A caixa de José

A caixa antiga de biscoitos guarda todas as lembranças
todas as histórias não vividas
todas as rezas sussurradas.

A caixa antiga de biscoitos guarda todos os pesadelos sonhados
todos os rostos mortos com seus olhares encanados
todas as dores nas mãos pelo dia de trabalho.

A caixa antiga de biscoitos guarda todas as fomes não matadas
todos os sonhos não realizados
todo o frio não esquentado.

A caixa guarda todos os olhares desviados
todos os pedaços de cartas rasgados
todos os gestos de despedida
todos os abraços não dados.

A caixa antiga de biscoitos guarda todos os cheiros de vestido amarrotado
todos os choros não chorados
todas as doenças não curadas.

A caixa antiga de biscoitos guarda todas as brigas de escola
todas as missas comungadas 
todos os peixes pescados.

A caixa antiga de biscoitos guarda todas as imagens dos santos imaculados
todas as fotografias do soldado já enterrado
e a única foto do cachorro, aquele de papai, que morreu desenganado.

E durante a noite soa alto

do fundo do baú guardado
todos corações sepultados.

A caixa antiga guarda todas as lembranças das missas de sétimo dia
todas as orações não ditas
todas as histórias esquecidas.

E lá no meio dos falecidos e dos poucos ainda vivos
uma foto da santíssima virgem Maria
sob o céu de aparecida diz:
“Durante toda a sua existência, teve como lema: o trabalho, a honra e a honestidade. Dedicou todos os seus atos para o bem-estar dos seus próximos. Tudo fizemos para que tua vida não se extinguisse, mas Deus assim quis. Seja feita sua santíssima vontade Jesus querido, dai-lhe o descanso eterno, entre os esplendores da luz perpétua. Eu vou para Deus, mas não esquecerei aqueles que amei na terra”.

A caixa antiga de biscoitos guarda todas as lembranças
todos os retratos com seus olhares encanados
todos os corpos hoje enterrados.

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