Prólogo do tempo

Não escrevo há muito tempo. Na verdade, nem sei pode onde começar, mas, vá lá. Os meus hábitos reclusos e calados se tornaram parte dos meus dias. Passaram-se anos. Deixei de ser aquele menino de superlativos. Tudo mudou. Meu pai envelheceu; ainda sim anda como um menino viçoso prestes a completar seus dezoito anos. As paredes apenas descascaram-se. Vovó resolvera-se a morrer. O cachorro Baby também falecera. As tias apenas ficaram mais idosas. Hoje, penso na minha avó, no antigo cachorro e nos bolos de barro de aniversário que fazíamos pelas manhãs. Naquele tempo, a pobreza abarcava nossas almas pequenas. Foram-se as noites em que eu, um rapaz pequeno de rosto queimado, tocava o céu estrelado com facilidade. Ao lado de vovó, não me preocupava muito com as maledicências que a vida pobre nos trazia. Éramos pequenos e invisíveis como as formigas que diante da anunciação da noite gelada, seguiam em procissão rumo as suas pequenas casas.

Abaixo do telhado de vovó, assim como as formigas, levantávamos também as nossas casas. Casas de mentira. Brincávamos de casinha. Quando criança construíamos, eu e minhas primas, casas de madeira bem nos fundos do quintal. Lá, ficávamos sozinhos, invisíveis do mundo. Acho que ainda estou lá. As construíamos para fugir da realidade dura. Nos refugiávamos dentro delas. Dentro dos cubículos ou embaixo dos lençóis, levantávamos nossas pequenas cabanas. Nos abrigávamos lá dentro. Ficávamos lá, escondidos, sem pensar no amanhã.

Penso na minha avó. Penso no meu avô também. E se eles estivessem vivos? E se vovô não tivesse caído no chão do banheiro naquela tarde radiante de outono? E se vovó não tivesse ficado brava naquela noite tão festiva? E se Caetano não tivesse adormecido naquela manhã de sábado? Hoje, será que poderia eu, como nos velhos tempos, repousar novamente nos seus colos? E se eles estivessem aqui? E se Baby tivesse latido menos, poderia hoje ouvi-lo latir novamente madrugada a dentro? E se vovô não tivesse escorregado naquele chão frio, poderia hoje roubar os pães que ele fazia com tanto esmero?

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