O direito universal à respiração

Ricardo Moura
Apr 6, 2020 · 11 min read
Multidão mascarada em Honk Kong. Crédito da foto: AP/Kin Cheung

Para o filósofo e historiador Achille Mbembe, a pandemia do Covid-19 nos oferece a oportunidade de redescobrir nosso pertencimento à mesma espécie e nosso vínculo inquebrável com toda a vida

há quem evoque o “pós-Covid-19”. Por que não? Para a maioria de nós, no entanto, especialmente nas partes do mundo em que os sistemas de saúde foram devastados por anos de negligência organizada, o pior ainda está por vir. Na ausência de leitos hospitalares, máquinas respiratórias, testes maciços, máscaras, desinfetantes à base de álcool e outros dispositivos de quarentena para aqueles que já são afetados, muitos dos quais infelizmente não passarão pelo orifício da agulha.

Política dos vivos

A humanidade errante

Uma vez atravessada a barreira dos alvéolos, o vírus se infiltra na circulação sanguínea. Ele então ataca seus órgãos e outros tecidos, começando pelos mais expostos. Segue-se uma inflamação sistêmica. Aqueles que antes do ataque já apresentavam problemas cardiovasculares, neurológicos ou metabólicos, ou sofriam de patologias ligadas à poluição, sofreram os ataques mais furiosos. Sem fôlego e privados de aparelhos respiratórios, alguns foram embora repentinamente, sem possibilidade de se despedir. Seus restos foram imediatamente cremados ou enterrados. Na solidão. Disseram-nos para nos livrarmos disso o mais rápido possível.
Mas já que aqui estamos, por que não adicionar a todos eles, a todos os outros, as dezenas de milhões de vítimas de AIDS, cólera, malária, Ebola, Nipah, febre de Lasse, febre amarela, zika, chikungunya, câncer de todos os tipos, epizootias e outras pandemias animais, como peste suína ou febre catarral ovina, todas as epidemias imagináveis ​​e inimagináveis ​​que, durante séculos, assolam povos sem nome nos países distante, sem contar as substâncias explosivas e outras guerras de predação e ocupação que mutilam e dizimam dezenas de milhares e jogam nas estradas do êxodo centenas de milhares de outras pessoas, a humanidade errante.
Além disso, como podemos esquecer o desmatamento intensivo, os mega-incêndios e a destruição dos ecossistemas, a ação prejudicial das empresas que poluem e destroem a biodiversidade e, hoje em dia, já que o confinamento agora faz parte de nossa condição, as multidões que habitam as prisões do mundo, e outras pessoas cuja vida é despedaçada em frente às paredes e outras técnicas de fronteira, sejam os inúmeros pontos de verificação que pontilham muitos territórios, ou mares, oceanos, desertos e tudo o resto?
Ontem e anteontem, era apenas uma questão de aceleração, de amplas redes de conexão que abrangem todo o mundo, da inexorável mecânica da velocidade e da desmaterialização. É no computacional que deveria residir tanto o destino dos conjuntos humanos e produção material quanto o dos vivos. Lógica onipresente, circulação de alta velocidade e memória de massa auxiliar, bastava “transferir todas as habilidades dos vivos para um duplo digital” e pronto. [2] O estágio final de nossa breve história na Terra, os seres humanos poderiam finalmente ser transformados em um dispositivo plástico. O caminho foi balizado pela realização do antigo projeto de extensão infinita do mercado.
No meio da intoxicação geral, é nesta raça dionisíaca, descrita em outra parte do Brutalismo, que o vírus freia, sem contudo interrompê-lo definitivamente, mesmo quando tudo permanece no lugar. Agora, porém, é o momento de asfixia e putrefação, amontoamento e cremação de cadáveres, em uma palavra, para a ressurreição dos corpos vestidos, ocasionalmente, com sua mais bela máscara funerária e viral. Para os seres humanos, a Terra estaria a caminho de se transformar em uma roda farfalhante, a Necrópole universal? Até que ponto irá a propagação de bactérias de animais silvestres para seres humanos se, de fato, for preciso cortar quase 100 milhões de hectares de floresta tropical (pulmões da Terra) a cada vinte anos?
Desde o início da revolução industrial no Ocidente, quase 85% das áreas úmidas foram drenadas. À medida que a destruição de habitats continua inabalável, as populações humanas com saúde precária são quase diariamente expostas a novos patógenos. Antes da colonização, os animais silvestres — principais reservatórios de patógenos — eram confinados a ambientes em que apenas populações isoladas viviam. Foi o caso, por exemplo, dos últimos países florestais do mundo, os da Bacia do Congo.
Atualmente, as comunidades que viviam e dependiam de recursos naturais nesses territórios foram expropriadas. Expulsos graças à venda de terras por regimes tirânicos e corruptos e à concessão de grandes concessões estatais a consórcios agroalimentares, eles não conseguem mais manter as formas de autonomia alimentar e energética que permitiam, durante séculos, viver em equilíbrio com o mato.

Nós nunca aprendemos a morrer

O digital, um novo buraco cavado na terra pela explosão

Guerra contra os vivos

Direito fundamental à existência

Coda

Texto original: https://aoc.media/opinion/2020/04/05/le-droit-universel-a-la-respiration/

Tradução: Ricardo Moura (http://www.twitter.com/ricardoxmoura).

Textura

Tramas cruzadas entre literatura, jornalismo e ciências…

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