Conto: O pânico e a cegueira

Ao redor dela tudo era escuro, absolutamente preto assim como sua roupa…

Ela caminha um pouco ofegante, escuta apenas sua respiração e o próprio salto tocando firmemente o chão.

No meio do vazio, senta-se em uma cadeira:

colagem digital

Boa tarde… Sara, sem ‘h’, mudei de nome quando fiz 18, justamente por que era muito chato ter de frisar o fato de ser Sara com ‘h’, mas agora eu tenho sempre que dizer ‘sem h’.

Ri sem muita empolgação.

Eu não gosto muito de aparecer em filmagens, não tenho muita desenvoltura como pode ver, mas acredito que seja importante falar sobre isso e tornar público meu relato, o meu caso, no caso.

Sim, é um tanto complicado… De fato, eu sofro de agorafobia e claustrofobia, entende? Se estou em um lugar muito cheio logo entro em pânico, o mesmo acontece se estou numa imensidão muito vazia. Mas os dois estão sempre oscilando; o pior acontece quando sou acometida pelos dois medos, pode imaginar?

Você tem razão, a reação dos médicos é sempre bizarra, imagine que ao constatarem isso ficam fascinados pelo meu caso.

Claro!

Fui submetida a dois tratamentos, químico e mecânico. O químico era a base de sintéticos que suplementavam minha atividade cerebral, fazendo com que esses processos de medo, ao serem retardados, dessem lugar a outros, mas então eu esquecia de tomar apenas uma capsula e o inferno se fazia.

Quando fui submetida ao tratamento mecânico foi implantada no meu ‘core de pulso’ um dispositivo que emitia choques pelo meu corpo, era como se eu levasse um chacoalhão imenso, assim eu me acalmava, em teoria… Eu ficava sempre muito nervosa, havia uma fadiga imensa que me impedia de trabalhar.

… Trabalho com engenharia de alimentos, eu e as máquinas. É o que me resta, mas gosto do trabalho. Desculpe interromper, se importa se eu diminuir um pouco o raio de isolamento? Acho que estou ficando desconfortável sem poder te ver… Com licença. Vou exibir sua silhueta apenas, mais opaca, tudo bem? Eu me sinto mais confortável ao avisar o que estou exibindo.

- Agora você me vê então?

- Sim, como eu disse, só a silhueta, vejo como se houvesse uma luz bastante fraca irradiando acima de sua cabeça.

- Você nasceu com a fobia?

- Não, desenvolvi quando fui à praia pela primeira vez, imagine que eu morava em uma das Super-Cidades, nenhum de meus responsáveis possuíam categoria suficiente para ir ao campo ou às regiões litorâneas. Então só conseguimos esse feito quando eu já tinha 14 anos.

- Então como foi a viagem?

- Bom, saindo da cidade tudo ja ficou estranho. Tudo era muito diferente e sinto que não fui preparada para encarar, tudo era muito rápido, escuro… E como mágica uma luz muito forte apareceu e fiquei o dia todo com aquela mancha branca na vista… Sabe? Quando uma forte luz…

- Sim! É mesmo horrível!

- Ao pisar na areia, ver toda aquela cor amarela e ter uma estranha sensação… Meio inexplicável, como se meu corpo estivesse ficando quente… As pessoas vestiam pouca roupa e… Olhando para o mar, aquela linha reta… Desculpe… Fico um pouco nervosa ao falar disso.

- Tudo bem, fale o quanto puder.

- Muita água, sem fim, como pode?

- Longa história… rs

- Sim, depois estudei sobre isso, mas não foi suficiente para ficar bem.

- E como foi que você chegou à solução.

- Falar disso me faz bem! Naquela época os testes estavam começando. Na verdade, a solução nasceu bem antes de mim, quando meus responsáveis eram jovens, ‘lááááá’ no tempo da mãe, quando começaram a georeferenciar o IP64… Lembra-se?

- Não sou tão velho, mas também já li um pouco sobre isso…

- Sim, a realidade alternativa foi a evolução da aumentada, e era utilizada apenas como entretenimento. A tecnologia evolui rapidíssimo! Mas a finalidade da coisa fica estagnada por muito tempo.

- Acho que sempre será assim.

- Então, eu fui do primeiro grupo a experimentar a cura pela tecnologia. As soluções químicas e mecânicas são paliativas terríveis. Então, me desculpe a falta de memória, um professor ‘x’ desenvolveu uma solução específica para meu medo. Assim ele implantou no meu core de pulso um tipo de controle de pontos de luz, que fornece a possibilidade da mudança total do meu “espaço”, do mundo que me cerca.

- Não se preocupe com os detalhes técnicos, vamos entrevistar especialistas também. Mas caso saiba, fique à vontade.

- De fato, não sei muito… Mas eu utilizo o controle do core para controlar o que quero ver ao meu redor, pessoas, objetos, caminhos. Assim eu sempre posso adequar a minha realidade ao meu potencial de pânico. Caso eu não tenha tempo hábil para o controle, caso eu seja acometida por pânico súbito, um alarme irá avisar meu médico e o hospital mais próximo, eu ainda acho essa parte do mal súbito muito antiquada…

- Estranho ainda não terem resolvido isso. Mas já aconteceu?

- Não. Não passei ainda pelo mal súbito, em pessoas jovens ele é bastante improvável. Tenho controle total da realidade que me cerca.

- Acho importante falar sobre o fato de não esbarrar em ninguém…

- Não sei bem como isso funciona.

- Mas as pessoas podem te ver?

- Sim, mas… Na verdade… Nunca pensei muito sobre isso…

- Qual a sensação?

- De medo?

- Não. A de ter optado por cegar-se.

Ao clicar no coração verdinho 💚, você dará ao texto visibilidade.

Ao deixar uma crítica 💬, você me fará melhorar. :)