Pesquisa sobre a Iara

A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. (Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray)

Iara

Origem

Iara ou Uiara é um nome de origem indígena, cuja raiz do Tupi-guarani y-îara significa “senhora das águas”, “mãe d’água”, “a beleza das águas” ou “dominadora”.​

Lenda de origem europeia ou indígena?

Alguns índicios mostram que a lenda da Iara é de origem europeia e foi adaptada para a realidade indígena. Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, escreve sobre isso:

A mulher-peixe chegou ao País, depois do descobrimento, através dos seus colonizadores. Estes, além da presença física, da língua e dos hábitos, trouxeram, ainda, os seus valores, mitos, lendas e superstições. Nesse sentido, a herança cultural européia misturou-se às culturas indígena e africana, permutaram-se conhecimentos e valores, surgindo, através do sincretismo, um amálgama sui generis. Na Região Norte, em particular, a permanente interação com os rios e igarapés, por parte dos(as) caboclos(as), deu origem a várias lendas que evidenciam elementos representativos da vida e da morte. A Iara, uma das mais belas figuras aquáticas, é uma delas. (…)
É importante lembrar que o poeta Luís de Camões, no século XVI, em Os Lusíadas, mencionou, diversas vezes, a presença de sereias na rota das navegações. E os tesouros e palácios, ofertados pela Iara, vêm corroborar com a forte presença de uma cultura importada — a européia — já que os indígenas (excetuando-se aqueles que absorveram e/ou absorvem muitos elementos da cultura do colonizador) não possuem o mesmo referencial de riqueza que os detentores do poder.
De acordo com Câmara Cascudo, no tocante à Iara, houve toda uma contribuição dos escravos negros, destacando-se a Kianda, a sereia africana; a figura poderosa de Osum, o orixá dos rios, lagos e lagoas, da teogonia negra; e a cultuada Iemanjá, que os afro-descendentes reverenciam como a divina Mãe D´água ou Aiocá, deusa das águas, sereia do mar, ou orixá feminino das águas.

Fonte: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&id=691

Segundo a mesma pesquisa, existem outros indícios que esse conto não pertencia originalmente aos índios. A sexualização da sereia também pode ser fruto da cultura europeia, já que os indígenas não reprimiam a sexualidade e assim não tinham necessidade de criar criaturas sensuais. Eles também não viam a água como um lugar que levava a morte e sim como um fruto da vida, uma benção.

Descrição

  • Cabelos negros e olhos negros (in Câmera Cascudo; Dicionário do Folclore Brasileiro);
  • Usa plantas aquáticas nos cabelos (Clarice Lispector?)
  • Metade mulher/metade peixe (a metade peixe se percebe menos porque está sob a água e porque não é atraente aos homens)
  • Muito bonita, sedutora, voluptuosa

Conto

Câmara Cascudo conta a história dessa maneira (apesar do link meio tosco chequei em várias fontes e é esse texto mesmo):

Palavras — chave:

  • Sedução por novidades, tentação, mundo novo
  • Morte
  • Obsessão (homens ficavam loucos e obsessivos após ver a sereia)

A pesquisa da Semira Vainsencher narra diversas versões da lenda da Iara, mas todas tem alguns pontos em comum:

Para os índios, Iara significa Senhora das Águas ou Ninfa das Águas.Também é chamada de Uyára e, em tupi, de Uauyára, representando uma figura de dupla imagem, que pode ser tanto feminina quanto masculina. De acordo com os nortistas, a sereia habita nos rios e em seus afluentes, mas só aparece diante de homens solteiros, ou daqueles que estão prestes a se casar. Sendo metade peixe e metade mulher, ela pode ser vista penteando os cabelos, cantando ou, simplesmente, conversando com algum transeunte. E o pretenso parceiro, como se estivesse sob efeito hipnótico, é levado para as águas profundas, morrendo logo afogado.

Segundo a pesquisa a Iara masculina é representada no folclore pelo Boto 
Cor-de-Rosa.

Às vezes, dizem que a Iara pode se apresentar, também, sob a forma masculina, como no mito do Boto — que à noite se transforma em um homem muito formoso e educado, vestido de branco, que atrai as caboclas para o seu palácio encantado, no fundo das águas, matando-as afogadas. Os nortistas, que utilizam o mito do Boto para arrefecer a ira dos maridos traídos e dos pais enganados (quando suas mulheres ou filhas engravidam fora do âmbito doméstico) creditam a fuga ou o desaparecimento de seus entes queridos, ainda hoje, ao poder de sedução da Iara.

Interpretações

No Século XIX era comum a europeização da Iara em registros escritos. Literatura romântica, na qual foi retomado o folclore popular com objetivo de criar uma identidade nacional brasileira, distinta da Europa. (José de Alencar, Gonçalves Dias, etc.)

Mãe d'água — Gonçalves Dias
Minha mãe, olha aqui dentro, 
Olha a bela criatura, 
Que dentro d′água se vê! 
São d′ouro os longos cabelos,
Gentil a doce figura, 
Airosa, leve a estatura; 
Olha, vê no fundo d′água 
Que bela moça não é

Ela inspirou diversos poetas como sendo uma musa de difícil alcance.

A Iara — Olavo Bilac
Vive dentro de mim, como num rio, 
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, lara 
De cabeleira de ouro e corpo frio.
Entre as ninféias a namoro e espio: 
E ela, do espelho móbil da onda clara, 
Com os verdes olhos úmidos me encara
E oferece-me o seio alvo e macio.
Precipito-me, no ímpeto de esposo, 
Na desesperação da glória suma, 
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo…
Mas nos meus braços a ilusão se esfuma: 
E a mãe-d′água, exalando um ai piedoso, 
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Sereias internacionais

A Iara é uma sereia de água doce, mas que pode ser associada com as lendas de sereias que existem ao redor do mundo. As sereias "internacionais"são muitas vezes associadas com seres de uma beleza superior e cruéis assim como a Iara.

Na mitologia grega

Na mitologia grega existe uma deusa chama Ceto (Keto) que é a deusa dos monstros do mar, baleias, tubarões e peixes grandes. Ela era casada com o próprio irmão Phorcys e seus filhos são monstros como a Medusa, o dragão Ladon e Echidna, uma metade-cobra e metade-mulher. Porém a ela não foi a deusa que deu origem a lenda das sereias. Na Grécia Antiga, conta-se a histórias das sirenas: mulheres-pássaros que naufragavam navios ao cantarem e distraírem os marinheiros.

Ulysses e Calipso ( Odisséia — Homero): o Odisseu (Ulisses) naufragou na costa da sua ilha, Calipso (ninfa do mar) acolheu-o em sua morada e por ele se apaixonou. Passava os dias a tecer e a fiar, e neste tempo insistia em seduzi-lo, oferecendo-lhe inclusive a imortalidade se aceitasse ficar com ela para sempre.

O herói, entretanto, resistia, sem conseguir esquecer a sua pátria, a sua esposa (Penélope) e seu filho. Passados sete anos, após os quais Poseídon acalmara a sua ira, Zeus, compadecido, enviou Hermes até à presença de Calipso com ordem para que a mesma libertasse o seu hóspede. Desse modo, mesmo contra a sua vontade, ela forneceu os recursos para que Odisseu construísse uma jangada, deu-lhe provisões e assegurou-lhe as condições favoráveis para o caminho de volta ao lar.

Pequena Sereia — Hans Christian Anderson (Dinamarca)

Em um dos contos de fadas mais famoso da cultura Europeia é a história da Pequena Sereia. Ela se apaixona por um humano e abandona sua vida no e sua identidade vendendo sua voz para uma bruxa do mar em troca de pernas para andar na superfície.

Na história original ela salva um belo príncipe de um naufrágio e o leva para um templo, até que algumas mulheres se aproximam e ela foge. Apaixonada ela faz o pacto com a bruxa e vai a superfície, muda, mas mesmo assim consegue atrair o príncipe com a sua beleza. Ele apesar de atraído pela sereia, está apaixonando pela mulher que o encontrou no templo, achando que ela o havia salvado. Ele se casa com ela. A Bruxa envia uma faca para a Pequena Sereia matar o príncipe e assim voltar a ser sereia, mas ela não consegue e se joga no mar virando espuma do mar (ou uma estrela). Símbolo de inocência, do amor impossível.

Anime: https://www.youtube.com/watch?v=fLDp-E_aWR0

Seres marítmos e assutadores

Em outros contos, as sereias (ou sereianos) aparecerem como criaturas aterrorizantes que assombram as águas, meio-mulher e meio-peixe mantendo uma aparência escamosa e não de beleza humana.

H. P. Lovecraft escreveu diversos contos sobre criaturas do mar assustadoras. O mais famoso de seus contos é o Chamado de Cthulhu na qual um monstro gigante com cabeça de polvo provoca delírios em diversas pessoas ao redor do mundo. Poderoso ele possui seguidores que cultuam a sua imagem em rituais com sacrifícios humanos.

Outra criatura marinha de Lovecraft é o Dagon, esse sim se assemelha com um "sereio" horripilante. Uma espécie de cruzamento entre peixe e humano gigante assusta os marinheiros.

O conto A Sombra de Innsmouth dá uma nova luz aos outros dois contos interligando Dagon como uma entidade louvada por uma "igreja" e com Chutlhu, Ancião supremo que espera o dia para conquistar novamente a Terra. Esse conto fala sobre um povo horripilante e asqueroso (Deep ones), "sapos-peixes" com mas com uma estrutura antroposofica. Esses seres das águas acasalaram com os seres humanos da cidade de Innsmouth criando um povo estranho, aparentemente humano porém de olhos arregalados que nunca piscam, nariz achatado, rosto fino, mãos grandes e pouco amigável com forasteiros.

Referências:

Iara na literatura romântica brasileira

Câmara Cascudo (uma das principais referências em folclore brasileiro):

Disney vs Hans