Porque buzinar é, sim, um problema

Se tem uma coisa que me incomoda mais do que tomar chuva durante uma caminhada é ouvir buzinada dos carros passantes. “Ah! Mas que frescura! O cara tá só te elogiando”.

Não. Não está.

Porque uma buzinada não é um elogio, uma buzinada é uma rede de problemas culturais e de comportamento disfarçada de elogios.

O problema da buzinada é que ela não vem acompanhada apenas da traseira do carro indo embora após o ato. O problema é que — se o carro não estiver lá para nos proteger — ela vem acompanhada da passada de mão, da tentativa do beijo à força na balada, da perseguição em ruas desertas, da sensação de nunca estar segura, do fato de nunca se estar segura de fato.

O problema da buzinada é que ela não é amistosa, não é convidativa, não faz eu me sentir mais bonita, querida, mulher. A buzinada é grosseira, é invasiva, faz com que eu me sinta uma bunda, um objeto, a mulher que acham que eu devia ser.

O problema da buzinada é que a culpa dela vira minha. Afinal, “com uma roupa dessas, você queria o que?”. Quando, na verdade, a culpa é toda da sua falta de respeito.

O problema da buzinada é que, além da minha chance de resposta, ela também arranca de mim a minha liberdade. Pelo simples fato de me fazer pensar duas vezes sobre a roupa que devo ou não sair de casa pela amanhã. “Será que vão mexer comigo se eu estiver com as pernas de fora?”.

O grande problema da buzinada é que ela faz com que você — buzinador — faça parte da minha vida sem que eu permita. E isso, nem eu nem mulher alguma podemos deixar acontecer sem, ao menos, colocar o dedo médio em riste quando você passa buzinando.

Eu acredito em um mundo em que eu tenha o direito de escolher quem eu permito entrar na minha vida ou não. E, até que esse tão sonhado dia chegue, eu vou continuar achando uma merda quando ouvir um “fon-fon” na rua.

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