02. Amnésia (2000)

Thriller, policial • 113 min. | ★★★★★★★★★☆

⚠️ AVISO: Eu me esforço para manter as resenhas livres de spoilers, mas às vezes algo escapa. LEIA POR SUA PRÓPRIA CONTA E RISCO!


Amnésia é um dos primeiros grandes filmes de Christopher Nolan — diretor e roteirista de filmes como A Origem, Interestelar e a trilogia d’O Cavaleiro das Trevas — mas foi um dos últimos a que assisti. É mais ou menos assim que o filme funciona, também; ou seja, fora de cronologia.

Baseado no conto Memento Mori, de Jonathan Nolan — irmão e frequente colaborador de Christopher — o filme conta a história de Leonard “Lenny” Shelby, um ex-investigador de seguros obcecado em achar o assassino de sua mulher para vingar sua morte. Até aí, tudo bem; o problema é que Lenny sofre de amnésia anterógrada — popularmente conhecida como perda de memória recente — o que lhe impede de armazenar novas informações e dificulta muito sua caçada.

“Cara, cadê meu carro?”

Tendo lidado com um aparente caso de amnésia anterógrada enquanto ainda era investigador— de um tal Sammy Jankins, bastante citado ao longo do filme — Lenny sente que a chave para seguir sendo funcional com a sua condição é a organização. Para isso, utiliza-se de duas táticas: tirar fotos instantâneas de pessoas, lugares e objetos do cotidiano — nas quais escreve comentários que esclareçam quem ou o que é — e tatuar em vários lugares do seu corpo as informações cruciais para identificar seu alvo.

Nolan utiliza uma brilhante edição e cortes de cenas para colocar o espectador na pele do protagonista. Cada cena começa no final da próxima, a desordem emulando a confusão mental de Lenny — pessoas aparecem agindo como se você devesse conhecê-las, mesmo sendo a primeira vez (no desenrolar do filme) que você as vê. Para completar, cenas em preto e branco são colocadas entre cada cena colorida, com Lenny explicando a uma pessoa misteriosa por telefone toda sua história, como também a relação com Sammy Jankins. Detalhes são mostrados através de flashbacks, tornando a cronologia real dos eventos ainda mais difícil de compreender.

Dica: preste especial atenção às cenas em preto e branco!

Em entrevistas, Nolan disse que um dos temas recorrentes mais proeminente em suas obras é a subjetividade do tempo; de fato, em função de sua amnésia anterógrada, Lenny nunca consegue saber quanto tempo realmente se passou desde o assassinato de sua esposa, sempre — com o perdão do clichê — “parecendo que foi ontem”. Porém, ouso desafiar a ideia do diretor: para mim, o tema que melhor caracteriza as obras de Nolan é como a realidade pode não ser confiável — quem viu A Origem deve se lembrar que o filme termina com um detalhe que levanta questionamentos sobre se o que estava acontecendo era mesmo real. E Amnésia não é diferente: a memória falha do protagonista coloca em xeque as ‘verdades’ que vão sendo apresentadas, até que o final surpreendente coloca todas elas sob uma nova luz.


👍 PRÓS:

  • Sensacional, como costumam ser os filmes do Nolan: uma história intrigante e complexa que pretende o espectador e o faz refletir
  • Desvendar o filme torna-se algo extremamente divertido e prazeroso
  • A edição, feita para confundir, é muito precisa. (Tanto que, colocando as cenas em sua devida ordem cronológica, o filme flui sem engasgos.)

👎 CONTRAS:

  • Desvendar o filme talvez signifique assisti-lo mais de uma vez — e mesmo assim, é provável que ainda restem dúvidas!