11. A Garota Dinamarquesa (2015)

Biográfico, drama • 120 min. | ★★★★★★★★☆☆

⚠️ AVISO: Eu me esforço para manter as resenhas livres de spoilers, mas às vezes algo escapa. LEIA POR SUA PRÓPRIA CONTA E RISCO!


For the record: achei a atuação do Eddie Redmayne a mais digna do Oscar de Melhor Ator dentre os concorrentes (apesar de alguns poréns detalhados mais abaixo). O DiCaprio só levou o prêmio porque a Academia se sentiu mal por já tê-lo esnobado em tantas outras ocasiões. Não que ele tenha sido ruim em O Regresso, mas não acho que foi sua melhor atuação a concorrer… (meu voto seria para sua interpretação de Howard Hughes e sua batalha com o TOC em O Aviador, mas quem sou eu pra falar alguma coisa, né?)

Mas whatever, isso aqui não é um espaço pra discutir os filmes mais “Oscar-worthy” do Leo, e sim resenhar A Garota Dinamarquesa— um dentre sete longa-metragens baseados em história real que concorreram em qualquer categoria do 88º Academy Awards (descontados os documentários).

E que filme! Adaptando o romance de mesmo nome, escrito por David Ebershoff, o filme detalhe a história antiga — de quase 100 anos atrás, mas simultaneamente atualíssima — da transsexual copenhaguense Lili Elbe (nascida Einar Wegener), a descoberta — ou melhor, redescoberta — de sua verdadeira identidade ao modelar para uma pintura de sua esposa Gerda e sua jornada culminando na eventual cirurgia de redesignação sexual, uma das primeiras da História, realizada na Alemanha.

Analisado friamente, o filme é belíssimo: a fotografia do filme é impressionante, com todos os seus trajes de época e os cenários de uma Europa por volta de 1920. É uma história comovente e muito bonita, com Gerda (Alicia Vikander) demonstrando um amor altruísta ao apoiar Lili (Eddie Redmayne) apesar disso significar o fim de seu casamento e do homem que um dia amou… E talvez esse seja um problema: na minha opinião — e não só minha — , o filme sobre uma importante transsexual acaba sendo mais sobre o drama de sua esposa (que nem foi dessa forma; mais sobre isso abaixo).

Esse problema não é o único do filme; dado o assunto delicado que o mesmo aborda — não muito mais aceito e entendido hoje do que na época que a película retrata — , é impossível relevar certas questões de representatividade, começando com a escalação de Eddie Redmayne — um ótimo ator, mas cisgênero — em um papel que seria oportunidade perfeita para atores ou atrizes transgênero (que você talvez nem havia imaginado que existiam, justamente por essa falta de visibilidade).

Não obstante isso, a sociedade transgênero achou também que a própria história do filme (não tão real quanto ele quer te fazer pensar) não é uma representação satisfatória do que é ser transgênero. Como cisgênero que jamais poderia expressar adequadamente essa insatisfação, apenas compartilho aqui resenhas que me ajudaram a entender essa opinião (em inglês):

De fato, em minhas próprias pesquisas motivadas pelo filme, notei várias discrepâncias entre a história do mesmo e a história real em que ele diz se basear: omissões importantes e fabricações irrelevantes, criadas principalmente para dramatizar. O personagem de Hans (Matthias Schoenaerts) — suposto amigo de infância de Lili que aparece como terceiro eixo de uma espécie de triângulo amoroso — sequer existiu; o mais próximo dele em vida foi o oficial italiano Fernando Porta, que torrou todas as economias de Gerda e a abandonou cinco anos após terem se casado, em 1936. A ruína do casamento entre Lili e Gerda não ocorreu da maneira descrita; acredita-se que Gerda era no mínimo bissexual — como evidenciado por suas obras eróticas envolvendo mulheres — e ela viveu por mais tempo com Lili do que sua contraparte cinematográfica. O próprio livro que inspirou o filme se reconhece como uma obra de ficção, mas a adaptação insiste em se comercializar como “baseada em uma história real”.

Ainda assim, A Garota Dinamarquesa tem muito sucesso no seu principal objetivo, que é entreter. A história, mesmo com suas (por vezes grosseiras) imprecisões, é comovente e serve para trazer a questão dos transgêneros para o público menos informado — mesmo que a representação ainda esteja aquém do que poderia ser. O elenco todo faz um trabalho extraordinário, criando um filme que merece ser assistido, nem que seja para fomentar os debates sobre seus erros e acertos. É um primeiro passo, ainda que falseante, para a melhor representação dos transgêneros no cinema das grandes massas.


👍 PRÓS:

  • Brilhante atuação de seu elenco, sobretudo o par Eddie Redmayne e Alicia Vikander
  • Mesmo que de uma forma ainda não tão adequada, traz a questão trasgênero ao grande público — certamente ME motivou a aprender mais sobre o assunto, o que é um ponto bastante positivo

👎 CONTRAS:

  • Oportunidade perdida em escalar ator ou atriz transgênero no papel principal, dando um passo ainda maior em busca da melhor representatividade dos transgêneros na mídia mainstream
  • O nível de comprometimento com a verdade não alcança o que eu esperaria de um filme que se diz “baseado em uma história real”