A comunicação não-violenta e “o lugar das pessoas”

Este final de semana ministrei por primeira vez o curso no qual escolhi compartilhar meus principais aprendizados da imersão internacional de Comunicação Não-Violenta (CNV), que participei na Costa Rica em outubro passado. Passei algum tempo escolhendo as dinâmicas, as frases que me impactaram durante a experiência e o que era “imprescindível” para compartilhar com o grupo.

Eis que… já nos primeiros momentos do curso, no sábado pela manhã, algo aconteceu e direcionou o diálogo para questões como “A CNV é capaz de dar conta de violências estruturais, tais como racismo e machismo?”… A manhã foi tensa e intensa, muita escuta se fazia necessária e novas perguntas surgiam. Compartilhar a mudança de paradigma dos relacionamentos estruturados sobre a ideia de Certo X Errado para as relações construídas e cultivadas com base no que é importante para cada pessoa foi um verdadeiro desafio, em meio a tantas opiniões.

Terminamos as atividades da manhã e me sentia muito cansada. Sustentar um campo, no qual os conflitos emergem ao vivo é uma experiência que exige bastante energia, atenção e presença. Durante o almoço, pensei sobre o meu papel como facilitadora de processos, de uma prática na qual a proposta é trazer o que está vivo e ser vulnerável, quando as pessoas não estão muito acostumadas a isso, apenas por um aprendizado social que nos inclina ao oposto, a proteger-se e a não desagradar. Por um momento, me questionei sobre esta responsabilidade, se estava preparada para seguir adiante com este tipo de trabalho, pensei sobre as escolhas que estava fazendo. Estas reflexões também me levaram a reconhecer que estava em um grupo no qual uma boa parte das pessoas, já vivenciando práticas de CNV na suas vidas, haviam chegado sedentas por expressar suas verdades e que me preocupava um pouco com o que viria a seguir, no período da tarde.

Tal foi minha surpresa ao voltar do almoço e encontrar na minha cadeira, o seguinte bilhete acompanhando uma barra de chocolates:

Talvez, as pessoas que tiveram esta iniciativa e escreveram estas palavras tão significativas para mim não saibam o quanto ler esta declaração naquele momento foi importante, me fez respirar, dispersou as dúvidas e tensões que passavam na minha cabeça e me ajudaram a confiar no meu trabalho e que estava conduzindo aquele grupo a partir do meu melhor e com muito amor.

Seguimos as atividades que se desenrolaram cada vez mais vivas. Surgiu a necessidade de tomar uma decisão de mudança de lugar para o encontro do dia seguinte, diante de um conflito que havia ocorrido no período da manhã e escolhi com muita tranquilidade decidir junto com o grupo, porque na prática da CNV não fazia sentido para mim decidir sozinha e apenas “informar” os participantes. O que se seguiu foi muito rico, necessidades compartilhadas, incômodos, criação de opções para a mudança, tudo cocriado mesmo, a partir de muita escuta, em um verdadeiro processo circular. Ao final desta troca, percebemos que podíamos cuidar das necessidades de todos, mesmo que não juntos e que estávamos escolhendo cuidar destas necessidades, cada um da sua melhor maneira.

Somente no domingo à tarde, já em outro local e em um dia no qual as atividades ocorreram com mais tranquilidade e mais de acordo com o “planejado”, pude me dar conta que o que havia conduzido e havíamos vivenciado tinha sido nada mais que o poder do círculo. Eu, que há alguns meses tenho vivido esta experiência (dos Processos Circulares criados por Kay Pranis) e desejado introduzir cada vez esta metodologia nas minhas facilitações, havia tornado real este desejo, mesmo sem me dar conta. Naquele final de semana todos tiveram voz igualmente, e eu participei de todas as partilhas.

Nunca havia experimentado uma prática de CNV tão real quanto a deste final de semana. No sábado à noite, havia revisado o “roteiro preparado” para o curso e já havia percebido que, ainda que de uma maneira diferente da que tinha planejado, naquele grupo havíamos tido a oportunidade de experimentar o que é se relacionar a partir da CNV e compartilhar no círculo nossos aprendizados, que claro, iam muito além daqueles “imprescindíveis” que tinha planejado à principio. Afinal, eram os aprendizados das pessoas que emergiam em um processo circular. E como dizia Marshall:

O objetivo da CNV é nos lembrar do que já sabemos, de como nós, humanos, deveríamos nos relacionar uns com os outros.

Para acalentar ainda mais meu coração, fui lembrada por uma das participantes, no fechamento do curso, que sua experiência havia sido extremamente coerente com o que eu havia proposto na abertura do curso, com a leitura do poema O lugar das pessoas, de William Crocker. Tive acesso a este poema, também durante a imersão, e o escolhi por definir para mim o ambiente que criamos ao escolher e praticar a Comunicação Não-Violenta. Ao escutá-la, senti muita felicidade e compreendi que tudo que vivemos era o que precisávamos viver. O campo materializou o que sempre quis criar ao compartilhar CNV: a real vulnerabilidade, acolhida, cuidada, escutada, e gatilho para nosso crescimento pessoal, como indivíduos, grupos e comunidade. Finalizo, então este texto, com a partilha deste poema, espero que faça sentido também para vocês. ;-)

O lugar das pessoas

William Crocker

Se este não é um lugar onde as lágrimas são entendidas,

Onde vou chorar?

Se este não é um lugar onde o meu espírito pode criar asas,

Onde vou voar?

Se este não é um lugar onde minhas perguntas podem ser feitas,

Onde vou procurar?

Se este não é um lugar onde meus sentimentos podem ser escutados,

Onde vou falar?

Se este não é um lugar onde você vai me aceitar como eu sou,

Onde posso ir?

Se este não é um lugar onde eu possa tentar aprender e crescer,

Onde posso ser apenas eu?

*Se você gostou deste texto, pode “bater palmas”. Isso ajuda que o meu texto alcance mais pessoas dentro da plataforma do Medium. Gratidão! ❤