
“… não há espetáculo mais abjeto que o de homens levados abaixo da condição de homens.”
Albert Camus
Entropia
por Fernando Massami Kikuthi
Pela primeira vez tive nojo desta vida. – Por quê? – Bem, talvez porque hoje tenha encontrado um antigo conhecido.
O Sr. M era amigo de meu pai e frequentava nossa casa na época das vacas gordas. Lembro-me dele: tinha um olhar inabalável, cabelos sempre alinhados, trajes impecáveis, um verdadeiro dândi. Era dono de uma grande editora que, como a de papai, ia de vento em popa. Costumava nos presentear toda vez que à nossa casa vinha. Recordo-me dele, pois o admirava, e principalmente pelos presentes… – engraçado, mas de todos amigos da família (que não eram poucos), a imagem do Sr. M foi a única que continuou em minha mente, guardada de maneira alva. – Depois da morte de papai perdemos contato…
Usurpando um de meus maiores tesouros, vejo seu rosto em meio à penumbra, vejo também sua capa amarela.
Hoje voltei a vê-lo. – Sr. M! É o senhor, não é? Se recorda de mim? Sou o filho de Luís Henrique… – nesse momento me interrompeu – Você é o jovem violonista? – Sim senhor. – disse-lhe. – Como mudaste. Tornou-se um homem feito, mas manteve os olhos de tempestade, iguais os de sua mãe.
Usurpando um de meus maiores tesouros, vejo seu rosto em meio à penumbra, vejo também sua capa amarela.
Sim, minha mãe: mulher exuberante, sagaz nos criou sozinha depois da morte de papai.
- Como tem passado? – disse-lhe. Minha pergunta tinha sido sem cabimento; aquele Sr. M, antes inatingível, já não existia, não possuía mais o antigo olhar, nem os cabelos e trajes impecáveis.
- Sabe jovem, desde a morte de seu pai… – a verdade era que o Sr. M não possuía mais aquele ar beático, nem dinheiro, nem nada. Seu olhar cansado denunciava que há muito estava naquela condição. Seguiu-se o que eu chamaria de um desabafo do antigo amigo de papai, confirmando o que já suspeitava.
O Sr. M estava quebrado.

Consternado, convidei-o para o jantar, nos despedimos e ficou tudo combinado para ás 21:00hs.
Dirigi-me ao trabalho, afinal já passava das 10:00hs, receava que o chefe me passasse um sermão.
- Bom dia senhor. – disse Clara.
Clara era minha secretária, linda moça, de pele morena e olhos cor de turquesa.
- Bom dia Clara. Alguém me procurou?
- Não senhor, hoje está tudo calmo, nem mesmo o patrão apareceu…
Fui para meu escritório. Como não queria trabalhar deixei os papéis de lado e me coloquei a pensar. Pensava em Clara, na sua estonteante beleza, as imagens indo e vindo. No passado tivemos um caso, no começo houve amor, paixão, depois Clara tornou-se obsessiva. Resolvi terminar por ali… Lembro de nossa última conversa como amantes:
-Você gosta de mim?
- Por certo que sim. – respondi –
- Então por que me evita?
- Não sei lhe dizer o porquê.
- Mas você ainda me ama, não? – perguntou ansiosa –
- Acho que não. – respondi –
Usurpando um de meus maiores tesouros, vejo seu rosto em meio à penumbra, vejo também sua capa amarela.
O dia passou rápido, o calor de verão entorpeceu minha mente. Notei que a cada dia que passa o tempo se vai mais depressa, como se o relógio funcionasse mais e mais rápido. Em casa fiquei pensando no motivo do tempo ter se tornado tão veloz.
Um dia ouvi falar em Entropia, uma propriedade da matéria que faz com que esta, mesmo permanecendo em repouso, estática, termine por se desfazer, se despedaçar… achei ser este um bom motivo, mesmo que de forma indireta, pois a Entropia afinal não faz os ponteiros do relógio se moverem mais rápido, ela causa o que já foi falado e assim gera um efeito, este sim, faz o tempo acelerar.
Assim como o Sr. M, nossa família também teve seu declínio. Com a morte inesperada de papai e a pouca experiência de mamãe à frente dos negócios, mais o governo que gradativamente parecia se voltar contra o povo, o patrimônio da família foi se esvaindo, mas mamãe nos ensinou a continuar vivendo, sempre em frente, com dignidade. E comparando nossa situação com a dos outros me parece que a crise não se restringiu a nossa família…
Nesse momento Melissa chegou.
- Olá amor! — disse ela –
Melissa era minha esposa: bonita, alegre, espirituosa, muito inteligente por sinal e dona de pernas que faziam babar. Estávamos casados há dez anos, vivíamos felizes, um a ajudar o outro…
- Aí está você querido. — disse Melissa -
- Olá garota
- Onde está meu beijo? – perguntou insinuante –
Sabe, pensando agora, notei que nunca amei minha mulher, sempre gostei muito dela, mas nem no início existiu amor, paixão sim, mas não amor. – talvez por isso tenha dado certo – Todas as outras que um dia amei acabaram por me cansar.
Beijei-lhe a fronte e disse: Aqui está seu beijo.
- Vou tomar uma ducha, quer vir? – disse ela –
Desejava seu corpo, queria tê-la em meus braços…
- Não querida, tenho que cuidar do jantar, hoje teremos um convidado.
Às 21:00hs, o Sr. M chegou. Fui recebê-lo – Pontual como sempre – falei – É, afinal há coisas que nunca mudam, coisas das quais nunca se esquece. – respondeu-me – Entramos…
Apresentei-lhe minha esposa, e ele a ela. Apresentações feitas, pedi que Melissa servisse o antepasto. – Sua mulher é belíssima, rapaz, tens muita sorte – notei que seus olhos brilhavam, estava comovido, fraquejara – Me lembra sua mãe – acrescentou.
Usurpando um de meus maiores tesouros, vejo seu rosto em meio à penumbra, vejo também sua capa amarela.
Estranho como funciona o acaso, depois de tanto tempo sem contato com este homem, estávamos aqui, eu, ele e minha mulher, sentados conversando como velhos amigos. Encontrei-o também por acaso: pela manhã, estava a caminho do trabalho, quando me deparei com dois homens se defrontando, notei ser um deles já de avançada idade, o homem mais novo agredia ao pobre senhor de forma brutal, me pareceu que o mais velho não suportaria aqueles golpes. Com medo que o mais jovem viesse a matá-lo, segurei-o e pedi que tivesse calma, pois era inconcebível agredir uma pessoa mais velha aparentemente indefesa – este homem, um comerciante – esbravejava contra o outro. Continuei a segurá-lo. Este acabou se acalmando e me contou que o velhote costumava furtar alimentos de seu estabelecimento todos os dias, e que resolvera naquele dia acabar com aquilo.
- Você mataria por tão leve delito?
- Sim. – respondeu-me –
Não conseguia entender como alguém poderia tirar a vida de outra pessoa, ainda mais por uma coisa tão banal… Disse-lhe que assumiria o prejuízo causado pelo pobre coitado e pedi que o deixasse em paz. Depois de tudo acertado fui acudir o larápio. Nunca fui um e exemplo de “caridade”, nunca passei fome, mas já havia visto pela TV pessoas com fome, muita fome. Isso me tocou, por isso o ajudei. Também porque sou avesso à violência (meu pai morreu de forma violenta, foi assassinado, talvez esta seja a causa). Ao me aproximar para o ajudar, reconheci seu rosto. Era o Sr. M.
Comíamos e bebíamos feito loucos, conversávamos sobre os velhos tempos e sobre coisas novas. O S.r., M me parecia feliz, contente por estar entre amigos, por sentir mesmo que por um breve momento o sabor de seu antigo estilo de vida.
Não queria estragar o momento, mas a curiosidade me incitava. Acabei por perguntar o que havia acontecido. Queria saber o que o deixara naquele estado, tendo até de furtar. Nos contou que após a morte de meu pai, tivera sérios problemas mentais, não quis entrar em detalhes, mas pelo que disse tinha se envolvido num incidente onde alguém acabou saindo sem vida e ele se sentia responsável. Depois a mulher o abandonou e como não tinham filhos acabou ficando sozinho, encontrou na bebida um refúgio e acabou por perder tudo o que lhe restava.
Sei como são esses assuntos de morte. Mexem mesmo conosco. Ainda hoje tenho sonhos com meu pai. Não gosto de falar deste assunto, pois me deixa um tantinho triste. Estava presente quando ele foi assassinado, cheguei até mesmo a ver o rosto do criminoso (estava escuro e eu era muito criança), mas nunca consegui identificá-lo. Lembro que a morte de meu pai ficou sem explicação e que do assassino só houve uma pista…
Mas esta não foi de muita serventia e o caso foi arquivado.
Melissa continuava a nos servir. Bebíamos e falávamos… como o assunto era o passado, não pude resistir e perguntei do que ele mais sentia falta. Disse-me que sentia falta do conforto, das noites em nossa casa. – percebi que já estávamos embriagados – ele continuou — … das conversas com sua mãe… Achei estranho esta última parte, pois o Sr. M quase nunca falava com mamãe e quando o fazia ela estava junto de meu pai. – ele continuou – disse que sentia falta dos licores caros, do absinto e disse… – Como sinto falta de sua mãe… – achei que nada mais do que falávamos fazia sentido. De repente ele parou e disse:
- Espere, a coisa de que mais sinto falta é….
Lembrei de uma parte de um sonho que me acompanhara toda a vida, creio neste momento ter ultrapassado todos os limites do termo bêbado, pois as coisas se tornaram muito confusas. Recordo de sentir meu ser inteiro pulsando, um clarão vermelho tomando conta da sala de jantar, um estalo e depois disso não me lembro de nada…

Usurpando um de meus maiores tesouros, vejo seu rosto em meio à penumbra, vejo também sua capa amarela.
Fico pensando em meu pai, e naquele dia infeliz que de mim ele foi arrebatado. Lembro-me também daquela maldita capa amarela, a única pista do assassino…
- Senhora Melissa?
- Sim.
- Seu marido não se lembra de nada. A senhora pode nos ajudar contando o que aconteceu em sua casa naquela noite. – perguntou o investigador
Bem, — disse Melissa, abatida – eu cheguei em casa e ele me disse que teríamos um convidado. Quando nosso convidado chegou servi os aperitivos e depois jantamos. Havíamos bebido muito e enquanto conversávamos continuei servindo bebidas. A certa altura meu marido perguntou de que nosso convidado mais sentia falta. Enquanto este falava, sem mais nem menos, meu marido pegou a faca de carne e o atacou, atacou, atacou… – falava descontrolada – Neste momento o investigador a interrompeu…
- Deixe-me ver. Seu marido deu então trinta facadas neste tal Sr. M. Foi isso?
Melissa, chorando, respondeu:
- Sim.
- E o que o Sr. M falava quando seu marido o atacou?
Melissa respondeu:
- Não me lembro direito, mas me parece que era algo sobre uma capa amarela…
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