Se tem algo que eu não entendo…
… É a existência de livros sobre “como escrever” — esses guias de escrita que te dão exercícios (a serem corrigidos por quem?), que te dizem coisas estúpidas como “não use outros verbos de marcação além de ‘disse”, que insistem que você precisa fazer uma ficha de personagem bem completinha para saber de tudo que você precisa na hora certa, que você precisa pensar nos tipos de plantas que existem no seu mundo. Não é sem motivo que vejo tantos guias escritos por gente que 1) não escreve ficção ou 2) escreve ficção não tão boa assim. Num mundo onde a enorme maioria da ficção comercial segue uma fórmula — e não venham me dizer que romance e YA não seguem fórmulas — , o que realmente queremos passar com “olha, seu livro PRECISA seguir a Jornada do Herói” ou “olha, você começou com diálogo, isso está errado”?

Photo credit: Chris Makarsky via Visualhunt / CC BY-NC-SAIsso não é “estudo”, é internalizar regras desnecessárias, especialmente numa arte tão mais pessoal e imaginativa como a literatura — ao contrário de um Botticelli que todo mundo concorda que é bonito, ou de um Bosch que todo mundo concorda que no mínimo é intrigante, as opiniões sobre livros variam tanto que é impossível criar uma linha-guia criar algo ao mesmo tempo bom, amado pelo público e amado pela crítica. E aí vem outra discussão sobre o propósito da arte, mas aí já estamos nos desviando demais do assunto então é melhor voltar. Sou partidário que, além de algumas pequenas obviedades (“conflito é necessário”, “personagens precisam querer algo”, “se é chato de escrever, provavelmente será chato de ler — verifique se é necessário que isso continue no texto”), o resto você aprende organicamente: pensando, lendo e vivendo, se questionando e questionando o resto. Por isso não consigo pensar em outra dica maior além de “leia, leia muito, leia de tudo, leia o que gosta e o que não gosta, leia para saber o que você quer fazer um dia e o que você não quer fazer” — logo logo você notará padrões e repetições que se entrelaçam, se misturam e pulam por gêneros, por autores, por mensagens. Jane Teller é um pouco parecida com V. C. Andrews no quesito melodrama e surrealidade e crueldade, mas os personagens da Jane Teller são mais frios como os do Mishima; sim, ela parece mais com Mishima que com a Andrews, mas, mesmo sendo escandinava, não tem o humor de Arto Paassilinna — que, aliás, escreveu algo muito parecido com as coisas do Patrick Modiano por personagens e sentimento, mas o Modiano tem um quê de autobiográfico, que parece muito com, de novo, o Mishima — o que eu quero escrever, afinal? Por que cacetes O ano da lebre não é feito em três atos, nem O marinheiro que perdeu as graças do mar? Por que o segundo ato de O jardim dos esquecidos é tão longo? “Damn you to hell, Corrine Foxworth!” — essa é a exclamação que eu mais amei na litertura, podemos repeti-la mais vezes ou…?
O que você quer escrever, pelo amor de Deus? O que te atrai, o que te repele?
