A liberdade através do Yoga

A prática milenar nos ensina que a completude faz parte do caminho do autoconhecimento

É preciso coragem e comprometimento: minha proposta é te incentivar a olhar para dentro, se apaixonar pela busca da sua verdadeira natureza e se sentir mais livre. Tudo isso com o auxílio do Yoga, sistema que integra mente, espírito, corpo, respiração e sabedoria.

A arte sempre foi essencial pra mim, mas precisei ir além para tentar me sentir mais completa, confortável e satisfeita. Há três anos me envolvi com a prática diária do Hatha Yoga e mudei a forma de me relacionar comigo e com o mundo. O Yoga me prendeu através da investigação do meu corpo, mas logo se expandiu para minha consciência.

Se você acha isso um papo ‘harebo’ se liga: cada vez mais pessoas, de crianças a CEO’s, vêm despertando para a meditação, o Yoga e a atitude ‘Mindfulness’, práticas que incentivam a concentração plena e o foco no presente. Ainda bem!

O DESPERTAR

Você pode buscar o Yoga pra aliviar uma dor nas costas, desestressar ou emagrecer. Pode até se animar a praticar por ver a foto de uma postura invertida no Instagram. Mas olha que legal: Yoga não é sobre fazer os ásanas perfeitos. É sobre fé, força, foco, confiança e energia — e não tem nada a ver com dogma ou religião.

Seja qual for a intenção, com a ajuda de um professor você será introduzido às ferramentas da prática física, respiratória, mental e espiritual, e na medida que for fazendo sentido para você, seu despertar irá começar — você vai ficar mais consciente das oscilações da sua mente, como pensamentos e sentimentos interferem na postura e nas atitudes, e como você é capaz de controlar isso.

A primeira vez que pratiquei Yoga foi há dez anos. Via pessoas incríveis fazendo posturas fodonas nas capas das revistas e queria ser como elas. Mas o estúdio em que me meti quis fazer de mim alguém que eu (ainda) não era: recém-chegada na faculdade não ia largar as festas pra fazer retiros de limpeza digestiva. Deixei pra lá e achei que Yoga não era pra mim. Sete anos depois, com a prática mais disseminada e virando desejo graças às redes sociais, redescobri o Hatha Yoga como forma de alongar o corpo, minimizar dores na coluna e acalmar a mente. Estava em um ritmo de trabalho frenético, e aí sim desacelar começou a fazer sentido pra mim. Fui sentindo um bem tão grande que quis ir mais fundo, praticando diariamente.

Num estúdio novo descobri o estilo Vinyasa, mais dinâmico que o Hatha, e vi que desafiando minha força, coragem e fôlego o Yoga também podia ser um exercício físico pra substituir as horas que passava entediada na academia. Confesso que nessa época o meu ego inflou no tapete e eu quis ser a yogi ‘fit’ com braço e abdômen sarados, rainha das investidas e alma zen. Até que um curso de aprofundamento me mostrou o que o Yoga realmente é.

A IMERSÃO

Morando em Nova Iorque num período sabático e de reinvenção, aproveitei para estudar Yoga no estúdio onde adorava fazer aulas. Me inscrevi meio sem saber o que iria fazer com o certificado de professora de Yoga — será que ia largar tudo e passar a dar aulas? Levar um estilo de vida menos acelerado e mais conectado em espalhar o bem para as pessoas era sim uma vontade. Mas comecei a ver o Yoga para além do estúdio.

No primeiro dia do curso, logo percebi que essa é uma estrada muito longa, e eu estava apenas começando. Antes de conseguir levar esses ensinamentos para alguém, eu ainda tinha muito a aprender comigo mesma, queimar meus padrões negativos, encarar as dificuldades que estava vivendo na vida pessoal e exercitar minha flexibilidade, força e foco muito mais profundamente do que vinha fazendo.

Quando você apenas pratica uma aula de Yoga num estúdio, talvez nem aprenda a pronunciar um mantra ou escute falar sobre os Yoga Sutras de Patanjali. Mas quando começa a estudar a sabedoria yogui acaba conhecendo esse que é o lado mais importante de todos. Através dos escritos antigos sobre Yoga aprendemos, entre inúmeras outras coisas, sobre os Yamas (Não-violência, Verdade, Não roubar, Desapego e Controle do impulso sexual) e Niyamas (Pureza, Disciplina, Contentamento, Auto-estudo e Entrega), fundamentos da prática que nos ajudam a examinar nossos hábitos, comportamentos e suas consequências. Estudar cada um deles e se auto-observar passar a ser fundamental, até mesmo após a formação.

O curso intensivo de 200 horas em um mês, me apresentou a diversos textos e conversas com os professores e alunos sobre atitudes, experiências e funcionamentos da nossa mente. Essa troca deixava a leitura mais acessível, prática e trazia diversos insights sobre tudo que vivia. E eu que comecei achando que ia sair de lá dando aulas e criando retiros pelos lugares mais lindos do mundo; descobri que ainda tinha muito a praticar, aprender e transformar. Me tornei uma yogi mais humilde. :)

A PLENITUDE

O Yoga é muito mais do que aquilo que a gente pratica sobre o tapete: é uma complexa e poderosa ferramenta de autoconhecimento que altera a maneira como lidamos com corpo, mente, espírito e com o mundo. As posturas são um meio de aprender a filosofia: seu ego rapidamente criará rótulos sobre as que você gosta ou não. Você pode ter facilidade para fazer outras posturas, e se sentir o máximo por isso. Ou você pode não conseguir de jeito nenhum fazer uma postura desafiadora, como uma invertida, e seu ego dirá que você é um fracassado. Uma boa auto-investigação, no entanto, te mostrará que toda essa prática não passa de uma experiência para explorar seu corpo e te fazer entender como lidar com situações parecidas no dia a dia.

Isso tudo desperta uma visão mais integrada do seu ser e te faz olhar seus hábitos e as consequências das suas atitudes de forma totalmente diferente. Você muda a forma como encara os problemas e os resultados. Vê as coisas acontecendo, mas mantém seu eixo no lugar, observando e apreciando. É claro certas coisas ainda vão te desequilibrar — até o mais zen yogi pode balançar na postura da árvore! — mas com a auto-observação fica mais raro perder a cabeça com qualquer coisa. A ambição continua existindo, mas conforme a vida vai acontecendo, a gente lembra que felicidade não depende mais de algo dar certo ou não. Assim como conquistar a invertida não vira o seu objetivo na aula.

A liberdade vem através do Yoga quando descobrimos nosso próprio jeito de lidar com nossas dores físicas e emocionais, a enfrentar nossos pensamentos negativos, a dominar nosso medo, a não perder de vista o foco e o equilíbrio. Uma longa jornada de autoconhecimento e amor-próprio: atitudes que são atos de rebeldia na sociedade acelerada e opressora em que vivemos vivíamos. E tudo bem: que sejamos rebeldes, livres e mais conectados com nós mesmos.