Voz e corpo periféricos: a diversidade como ponto alto da SPFW N42

A estreia da LAB, marca do rapper Emicida, fez história na semana de moda brasileira, mas ainda há muito a se falar.

O segundo dia da São Paulo Fashion Week N42 terminou agitado com o desfile de estreia da LAB, marca do rapper Emicida junto com seu irmão, o produtor Evandro Fióti. O tema dessa edição, ‘Trans’, uma evocação às transformações do nosso tempo, veio à tona do casting — diversificado em cores, gêneros e corpos — à maneira como a coleção foi desfilada — com Emicida cantando ao vivo e os modelos saindo da passarela direto para o hall do evento no melhor estilo ‘o show tem que continuar’.

A expectativa era grande, a plateia se emocionou e a crítica não poupou elogios: a marca colocou sob os holofotes muito do que estava engasgado na garganta há tempos. Estamos falando de um mix de representatividade, coletividade, moda sem gênero, beleza real e variada, além de modelos plus size. Emicida resumiu com força toda essa inspiração ao fim do desfile: “fiz com a passarela o que eles fizeram com a favela e a cadeia: enchi de preto”.

Em entrevista exclusiva para NOO Mag, Emicida falou sobre o processo de criação junto com o estilista João Pimenta. Em apenas 4 meses, eles criaram a coleção pensando em resgatar a riqueza de histórias da cultura negra. Para o rapper, na ausência de referência positiva sobre a África e suas origens, o movimento negro no Brasil foi se emponderando ao criar a sua própria África.

“A gente foi buscar dado histórico e achou muita coisa que antecedeu a colonização; descobrimos muito sobre beleza, elegância e até uma espécie de aristocracia da cultura negra em São Paulo.”, contou Emicida.

A partir de longas conversas junto com João Pimenta, diretor criativo da LAB, eles montaram um quebra-cabeça que virou a coleção inspirada em Yasuke, escravo africano que se tornou um samurai no Japão do século XVI, para onde foi levado por um padre jesuíta. Assim, a coleção traz uma mistura de Angola e Japão, com branco, preto e vermelho, peças unissex como quimonos, bermudas e saias, além de t-shirts com escritos como ‘Ubuntu’ (termo sul africano que significa algo como ‘a humanidade que conecta todos nós’) e ‘I love Quebrada’.

É claro que tamanha história não podia ter um casting ‘padrão’. A vontade era mostrar a diversidade de beleza, atitude, história e representatividade, um desfile com cara de Brasil, e não de Suécia, como falou Emicida, indo mais além: “Enquanto a gente não inserir o Brasil de verdade em todos os espaços a gente não vai conseguir avançar muito mais do que a gente avançou. Temos condição humana, ambiental e tecnológica pra construir um projeto de nação, mas o povo precisa se enxergar”, declarou.

Isso tudo para quê? “Queria que as pessoas sentissem que o que está nas passarelas pode estar na rua. A gente vive um momento da história onde as pessoas refletem muito sobre o certo: a maneira correta de se portar sobre vários tipos de opressão como machismo, racismo, homofobia, e isso é muito valioso pros tempos que a gente tá vivendo. Mas, acima de tudo, tenho refletido como posso ser um ser humano melhor, e isso pode ser criando um tipo de atmosfera onde todas as pessoas se sintam convidadas a participar e a ter voz”, declarou Emicida.

Quem assistiu sentiu a emoção contagiar a todos porque foi verdadeiro, levantou uma causa e trouxe um Brasil geralmente excluído da roda da moda e das passarelas. Mas a conversa ainda precisa ir além da beleza e da representatividade: é necessário questionar também as oportunidades e representações nos campos da educação, da justiça, do mercado de trabalho, da arte, da política e por aí vai. Queremos quebrar mais e mais padrões, incluir mais e mais. Na esfera da moda, a LAB foi um ponto alto na história e, esperamos, serve de inspiração também para que outras marcas comecem a defender causas e pensar novos formatos de desfiles, coleções e campanhas, seja qual for a luta.