(Retirada de Deviantart.com)

A Taverna

O sol ainda raiava forte às cinco da tarde. A luz, porém, era ofuscada pela vasta quantidade de folhas sobre nossas cabeças.

Ursos caminhavam lentamente, reclusos em sua própria individualidade. Indiferentes sobre os forasteiros que por ali passavam. Corujas descabeladas observavam de longe, ao topo das longas e robustas árvores que compunham o cenário natural e aconchegante de Pinewood.

Caminhava com cuidado, não queria chamar a atenção. Embora os anões de Dwarfhold tivessem um acordo com os outros povos de Lore e se mostrassem receptivos quanto aos visitantes, nem sempre meu povo era bem-vindo. Os últimos que por aqui passaram levaram fama de arruaceiros.

É fato conhecido de todos aqueles que frequentam a taverna que um clã de cinco soldados do condado de Stonehand tinham se metido em uma briga feia — muito feia — após encherem a cara de raspadinha de framboesa. Reza a lenda que precisaram de dois orcs e um trasgo para amenizar o estrago do dia seguinte.

Em meio de todo aquele verde, uma ampla construção de dois andares se dispunha dentro de uma árvore. Tratava-se da morada de Otix, um humano foragido após o grande ataque do Chaos em Swordhaven, onde morava com sua esposa e filhas. Tinha um comércio de frutas próximo ao castelo, mas ao ver a segurança de sua família ameaçada, meteu-lhe o pé de Oaklore.

(Art concept retirada do Deviantart.com)

Galopando para o Norte em busca de abrigo, Otix e sua família pararam na floresta de Pinewood, que embora não fosse muito longe, estava livre dos ataques. Eis que esta vinha a ser reconhecida como território de anões, localizada na divisa entre Oaklore e Dwarfhold. Como Oaklore era território humano (onde o castelo do rei Alteon se encontrava) sofria ataques constantes, mas a partir do momento que se passava àquela divisa, era como se um novo mundo fosse descoberto.

(Mapas retirados de AdventureQuest Worlds)

Snowbeard, anão refugiado e — caia de costas — conhecido patriarca da região, cedeu a Otix e sua família o segundo andar de sua grande morada. Otix prometeu que Snowbeard não se arrependeria de acolhê-lo ali, e transformou o primeiro andar em uma taverna. Mais tarde o comércio se tornou point de distração e entretenimento tanto para os anões que ali habitam como para os viajantes que por ali passam.

- Carsen, você acha que Snowbeard se lembra de mim? — perguntei.

Carsen continuava exatamente do mesmo jeito que há trinta minutos atrás, sem responder. Entretido com seu mundano dispositivo móvel, com o lightsaber desativado em uma das mãos.

- Carsen?

Ele ergueu ambas as sobrancelhas e inclinou suavemente sua cabeça em minha direção, sem desgrudar os olhos da pequena tela emissora de luz azul.

- Carsen você está me ouvindo?

- Você já viu esse clipe novo da Taylor Swift que loucura?

- Mas que diabos é Taylor Swift? — franzi o rosto.

Um guerreiro alto e definido surgiu logo à frente. Observei-o assustada. Reconhecia aquelas cores de algum lugar.

- Artix von Krieger! — exclamei.

Sua aparição foi súbita. Surgiu entre as árvores do oeste e sumiu logo em seguida, em meio aos vastos arbustos. Devia estar ocupado.

Adentramos a Taverna sem dificuldade. Embora a morada fosse originalmente feita apenas para anões, completavam dez anos desde que Otix tinha inaugurado o comércio. A altura da maçaneta, porém, jamais havia sido mudada. Carsen chutou a porta — com um metro e noventa (e dois!) ele não se daria ao trabalho de soltar sua invenção humana para agachar e abrir a porta, faria um sinal grosseiro com as pernas e com o som do estrondo esperaria algum funcionário de estatura propícia abrir para ele. Ou no caso, para nós. Revirei os olhos.

Hartok abriu a porta.

- Bem vindos! — sorriu ao receber-nos, logo indicando altos bancos ao redor do balcão de bebidas principal. — Por favor, sentem-se.

Sorri largamente. Embora nunca tivesse trocado muitas ideias com Hartok, gostava dele. Quando mais nova costumava ouvir histórias sobre épicas expedições nas minas de Keep. Boatos de que ele estava lá na grande queda de Drakath. Ironfist foi quem viveu para contar, porém este não estava presente para me confirmar. Hartok se acomodava em um banco ao lado, drasticamente alto para ele. Subia com dificuldade. Carsen estava logo ao lado, mas ignorava seu esforço. Nem havia notado. Retirava agora um taco mexicano de dentro do bolso das vestes.

- Famoso Chronolord… — disse esmurrando “amigavelmente” as costas de Carsen, agora que estavam finalmente da mesma altura. — Não está em exercício, está?

- Nhapfm! — Carsen engasgara com um pedaço da tortilha. — Não! — tossiu.

Segurava arduamente minha risada, embora o garoto merecesse o tranco não quis ceder ao riso.

- Estou sossegado no momento…

- Pois não deveria. O senhor sabe que está a perder tempo! — bradou esmurrando a mesa.

Os braços de Carsen se encolheram um bocado.

- Senhor Hagnarok

- Hartok… — o corrigi.

- Hartok — apressou-se na correção — o senhor talvez não se recorda do fato de que eu sou o tempo — , disse gabando-se.

- Balela! — bradou enquanto arrancava a grande caneca de suco de framboesa gelada das firmes mãos de Otix, cujas sobrancelhas arqueavam-se surpresas ao nos ver e ao mesmo tempo estarrecidas por tamanho escândalo partindo de Hartok, embora este ainda estivesse na segunda canecada de suco — e em seu horário mais contido, é claro.

- Meninos! — exclamou finalmente enquanto limpava suas mãos ligeiramente sujas de suco de framboesa no avental preso às vestes. — Grande surpresa em vê-los. Sky, como está?

- Feliz em reencontrá-lo, Otix. — sorri enquanto este beijava gentilmente uma de minhas mãos.

Carsen acenou com a cabeça. Mascava um pedaço de framboesa que arrancara da cesta na parte interna do balcão.

- O que os traz a Dwarfhold? Temos ataques em Greenguard agora? — perguntava apressadamente, com os olhos arregalados. Não havia motivo para esconder a curiosidade.

- Viemos em busca de Snowbeard, senhor. Rumores em Greenguard West que há um poderoso Dragonlord chamado Vath escravizando anões em troca de Chaos Gemeralds. Boatos que esse é ainda pior que Drakath. Viemos investigar, talvez… Você sabe, talvez possamos ajudar.

O sorriso de Otix desaparecera do rosto.

- Snowbeard tem contato com muitos dos anões que ainda se arriscam nas minas, Sky. É possível que ele tenha mais detalhes. — antes que pudesse virar completamente seu tronco para chamar àquele que buscávamos, voltou-se para mim, sussurrando — Já lhes adianto que adquirir informações vindas de Snowbeard anda sendo um desafio até mesmo para aqueles de extrema confiança. Os eventos com Drakath moldaram sua postura e a forma como este enxerga o mundo.

(Imagem retirada de DeviantArt.com)

Enquanto aguardávamos no grande salão era possível ver a taverna se enchendo a medida que o sol ia se pondo. O expediente das grandes minas e dos caçadores de recompensa já havia se acabado. O estabelecimento era composto majoritariamente por anões de regiões próximas. Existiam porém, mais ao fundo, nas áreas menos iluminadas da Taverna, alguns humanos, halflings e mestiços. Carsen me cutucara. Lancei um olhar interrogativo. Ele fez sinal à minha touca.

- Cubra isso direito… — ele disse ajeitando-a cuidadosamente. — As pontas da orelha estavam saindo para fora… — posicionou a mão em meu ombro.

Carsen era uma das criaturas com maior potencial em se tornar um grande herói que já havia conhecido em Lore. Conheci-o quando era apenas um garotinho. Costumávamos brincar pela cidade de Battleon e nos arredores da cidade, próximo à Greenguard. Frequentamos a escola de Trolls de Bloodtusk Ravine, antes da primeira grande guerra de raças. Aprendemos a língua dos Trolls e dos Orcs, e dei-lhe uma força com Elfo básico.

Á medida que fomos crescendo, ele foi ficando desleixado. Com a abertura do grande portal do Chaos as criações humanas de outras dimensões vieram à tona. O rei de Oaklore, Alteon, costumava ter as dimensões sob controle junto de sua legião de heróis da primeira geração. Infelizmente em certo momento ele acabou perdendo o controle. O Chaos seduziu alguns deles, e eis que acabaram cedendo aos novos costumes advindos do portal.

Carsen era mestiço, filho de um meio humano com troll e uma elfa da floresta de Neverglades, área próxima à Oaklore. Fora criado para ser um Chronolord, e havia estudado comigo tempo suficiente para tal.

Mas parece que as tentações do portal haviam lhe pego novamente.

- Escuta, você já ouviu falar de Pabllo Vittar?

- Carsen, estamos aqui para outra coisa.

- Mas tá demorando… — ele olhava para todos os lados, impaciente.

Finalmente, de trás do balcão, surge uma penugem branca levemente amarelada, encardida. É o topo da cabeça de Snowbeard!

Debrucei-me no balcão.

- Senhor Snowbeard! — exclamei contente.

- Greenguardiana! — clamou animado, exibindo seus graúdos dentes angulados e espurcados, tendo alguns faltando.

- Saudades do senhor. Pensei que nem mesmo lembraria de mim!

- Haja saudade pra aguentar tamanha catinga dentária. — alfinetou Carson. Chutei-o por debaixo do balcão.

- Jamais me esqueceria da pequena caçadora de sapos. — sorriu abocanhando uma abundante porção de porco frito caramelizado que Otix acabara de dispor em cima do balcão.

Não demorou muito para que deixássemos as conversas introdutórias de lado e entrássemos de cabeça no objetivo da expedição à Pinewood.

- Sky, façamos o seguinte, tenho convidados esta noite. Fique com um dos quartos dispostos no segundo andar, desfrute desta noite sem grandes preocupações. Retomaremos nossas estratégias pela manhã.

Acenei com a cabeça. Snowbeard colocou-se de pé e levantou uma vasta jarra de suco de framboesa.

- Brindemos à noite! — bradou sorridente voltando-se à todo o salão.

- Brindeyogewaba!! — vociferou Hartok, já envolto das rastentes penumbras.

De repente a porta começou a ser espancada. Alguém ou alguma coisa esmurrava-a com agressivo fulgor. Todos olhavam em volta assustados — até mesmo Termett, guerreiro de Citadel, conhecido em todo condado, e tido como a mais forte das criaturas ali presentes se mostrava excepcionalmente aturdido.

Eis que a pesada porta de carvalho minuciosamente esculpido se dilacera em pedaços e envolto de uma densa fumaça quente e branca, são reveladas pesadas e compridas vestes escuras. Uma condensada camada de cabelos negros lhe caíam ao rosto, dificultando discernir sua identidade. Os convidados de Snowbeard levantaram-se prontamente, já empunhando suas espadas, machados e tochas. Otix empunhava agora um grande barril. Carsen ativara seu lightsaber.

“Seria este o mago de Shadow Realm?!” gritaram ao fundo.

“Pode ser de Shadow Fall!” sussurrava-lhe de volta uma anã ruiva de cabelos crespos.

“Fiquem quietos ou este se aborrecerá caso seja mais do Oeste!” — disse-lhes um halfling bardo.

“É um enviado de Nulgath!!” — exclamou Hartok fora de si.

Continuava sentada, com ambas as mãos posicionadas nos coldres, pronta para agir. Carsen se pusera em volta de mim em prévio amparo.

A fumaça continuava densa, e alastrava-se taverna adentro. A ordem era mantida por Snowbeard, cujas mãos permaneciam levantadas em sinal pacífico, em cima do balcão principal.

O mago levantou seu comprido e robusto cajado, destacando-o em meio a fumaça, vociferando:

- Direi apenas uma vez e desejo ser atendido!

Os olhos de todos se mantinham atentos no mago, curiosos em saber quais seriam seus próximos dizeres.

- Stéfanie!

A taverna inteira voltou-se para mim.

- Mas que raios é Stéf…?

- Venha!! — urrou em meio a fumaça.

Os anões aglomeravam-se em volta de mim, prontos para protegerem-me se fosse preciso, embora já estivesse pronta para um possível confronto.

- Esta é a última vez que vou te chamar!

Expressões de dúvida e estranhamento tomaram conta do ambiente, os anões questionavam-se, inquietos.

- O estrogonofe está na mesa. E esfriando.

(Imagem retirada de DeviantArt.com)

A história acima é inspirada em uma de minhas aventuras no jogo de RPG online, AdventureQuest Worlds, onde a partida fora abruptamente interrompida pela minha mãe me convocando para o jantar.

Alguns dos personagens foram retirados do jogo, assim como os respectivos locais e áreas/condados. A trama, porém, é de minha autoria.


Este é o primeiro capítulo da série The Greenguardians. Para checar o segundo capítulo, clique aqui:

Capítulo 2: A Lacuna do Tempo

Se você gostou do texto e quer ver a continuação da série deixe suas palmas.