O assessor de autógrafos

Como criei um serviço de prestação de consultoria de autógrafos in loco

Na sexta-feira passada, meu amigo íntimo, Ricardo Coimbra, lançou o seu primeiro livro, Vida de Prástico — uma coletânea com o melhor de seu trabalho como quadrinista. Digo que somos amigos íntimos, mas nos conhecemos há apenas quatro meses e só nos encontramos pessoalmente umas três. Em um destes encontros Coimbra quis me levar a seu habitat natural: o bar e lanchonete Espetinho do Biro, localizado na Praça Roosevelt. Nesse cantinho da capital de São Paulo tudo tem um aroma familiar de fracasso, e parece mesmo que ali se encontram todas as pessoas que não conseguiram nem nunca vão conseguir completar a prova de triathlon da vida. Na zona da praça encontramos o pior da arte teatral, gangues e mais gangues de skatistas brancos tentando dar o seu primeiro ollie, um grupo que se reúne semanalmente para travar sofríveis batalhas de rap e dezenas de bares e lanchonetes onde jovens e adultos se reúnem para encher o cu de cerveja enquanto discutem projetos e planos de vida que já nascem sob o signo do fracasso. Sentado numa mesa localizada na calçada eu não poderia me sentir mais vulnerável, desconfortável e deslocado — no meu colo, guardava com minha vida uma mochila com meu notebook dentro que, apesar de não ser um MacBook Pro, era o bem material mais valioso que eu possuía. Como tudo pode melhorar, em poucos minutos percebi que as mesas naquela calçada eram uma fonte de renda para uma infinidade de mendigos. A cada cinco ou dez minutos um mendigo diferente interrompia a nossa conversa para pedir um dinheirinho e, como eu carregava em minha linguagem corporal todos os indícios de ser a pessoa mais vulnerável de toda aquela região, os pedintes passaram a me abordar e a me adular diretamente, vendo em mim um alvo fácil para conseguir um trocado.

Tendo tudo isso em conta, e sabendo que Coimbra e amigos eram assíduos frequentadores daquele bar, passei a me questionar sobre o que levaria esses jovens, ainda carregando um fio de talento e potência vital em suas almas, a se aventurarem em um ambiente tão hostil, tão pútrido, tão carregado de péssimas energias. Mal fiz a pergunta a mim mesmo e já tinha a resposta na ponta da língua: sem dúvida, era o preço da cerveja. Em São Paulo, jovens de boas famílias e homens de talento arriscam suas dignidades e integridades físicas para tomar uma lata de Skol a três reais ou uma garrafa de Brahma a sete e cinqüenta. Perguntei à mesa só para tirar a prova: — Quanto custa uma garrafa de cerveja aqui? — e quase caí para trás com a resposta: — nove reais. Eles pagavam um valor mais alto do que a cerveja da Vila Madalena ou de Pinheiros só pela fita de se embebedarem tendo como pano de fundo a imagem da decadência.

O excêntrico compositor Richard Wagner tinha um tapete rosa feito de penas de flamingo em sua sala. Quero acreditar que Wagner sucumbiria em uma série de AVCs ao se deparar com o ambiente do Espetinho do Biro.

Como tinha acabado de chegar e me faltava aquela eloquência argumentativa que se segue à quinta latinha de cerveja, me pus a questioná-los em um tom um tanto histriônico, que desagradou a todos: — Por que vocês frequentam esse lugar? O que vocês enxergam aqui? Olhem em volta. Tudo aqui cheira a derrota. — mirei a fachada do Espetinho do Biro e o simpático mascote da lanchonete me encarou de volta — Vocês acham que Wagner frequentaria esse boteco? — Todos riram e, para evitar um constrangimento maior, fingiram que eu brincava. Ninguém ali estava interessado em ser Wagner, a não ser eu.

Mas devo dizer que minha intimidade com Coimbra nasceu antes desse evento e se deu de forma artificiosa. Coimbra é um mestre na arte de fazer o próximo se sentir bem ao achincalhar-se a si mesmo, sem moderação. Quando ele soube que eu era eu, ele veio até mim com os olhos marejados e declarou-se meu fã. Depois disse algo exagerado como: “Tu tem um ou dois textos que são maiores do que a minha obra inteira” e, daí em diante, o que se seguiu foi um espetáculo de autoflagelação como nunca vi antes. Gosto de me ver como um praticante da autocrítica masoquista, mas, em comparação com Coimbra, devo dar o braço a torcer: Ricardo é uma espécie de santo a se auto-chibatar, cego de sua própria grandeza. Essa nossa primeira interação fez brotar um tremendo constrangimento social entre nós — e sabemos que o constrangimento é o pai da intimidade. Para que nossa união íntima fosse selada foi preciso que Coimbra me rebatizasse. Sem nenhum anúncio prévio e sem ter feito o menor esforço, Ricardo passou a me chamar por Capana — um apelido que nunca tive. Desde então, considero-o como um irmão.

Acabei parando longe da história que gostaria de contar, mas precisava explicar a gênese de nossa intimidade para que ninguém achasse esquisito o que se deu na sexta-feira passada. O último dia útil da semana foi regado a muita chuva na capital de São Paulo, e resolvi tomar um táxi para ir ao lançamento do livro, que ocorreu na Rua Harmonia, 150. Eu temia que, devido a chuva, o evento fosse um fracasso de público. Ao chegar ao local o taxímetro batia em vinte e nove reais e paguei a conta meio puto. Depois notei que o valor do valet era de vinte e cinco reais (preço único) e me senti no lucro. Cheguei e encontrei rostos familiares. Cumprimentei a todos. Por fim, quando fui dar um abraço em Coimbra, avistei algo que deixou minha visão turva: era pistache.

Apontei para o copo e perguntei: — É grátis?

— Sim, pode comer.

Fui tomado pelo espírito do rodízio, possuído pela euforia do gratuito: lá estava o pistache, em farta quantidade e de boa procedência, junto a amendoins e porções temperadas de soja — e ainda havia chope de cortesia. Eu estava sendo recompensado por chegar cedo ao evento. Resolvi adquirir uma cópia do livro o mais rápido possível. No caixa, pergunto o preço: R$40,00. Acho caro, mas tenho uma idéia genial; rapidamente faço o cálculo do quanto devo consumir em chope e pistache para levar o livro de graça. Quatro copos de chope e 150g de pistache foram o suficiente. Eu estava, novamente, no lucro.

De estômago cheio, e de posse de uma cópia do livro, volto para cumprimentar o autor: — Escreva algo bonito. Algo que me emocione — disse-lhe, e fui embora, para não constrangê-lo, nem pressioná-lo com minha presença e para buscar mais um copo de chope. Quando voltei, o autógrafo estava pronto:

“Capana, obrigado pela força, amigão! Um abraço, Ricardo Coimbra”

Minha mãe me ensinou desde cedo que, mais importante do que o presente, era o cartão e, mais importante do que o cartão, era a mensagem. Graças a esse conselho pude presentear minhas namoradas com os souvenirs mais vagabundos. A mensagem de Coimbra me decepcionara porque nela faltava tudo: criatividade, sentimento, sinceridade e humor. Fiquei realmente preocupado com meu amigo. Fingi que gostei da dedicatória e guardei o livro, mas resolvi me posicionar atrás dele, para assessorá-lo nos próximos autógrafos. Lá vinha uma garota na fila. Ricardo parecia não conhecê-la e perguntou o seu nome — Carolina, ela disse. E, de caneta na mão, começou a escrever:

“Carolina, obrigado pela força! Um abraço,”

Não, não, não!

— O que foi, Capana?

— Cara, você tá copiando o autógrafo que deu pra mim?

— Ué, qual é o problema?

— Não, cara. — tomei o livro das mãos de Ricardo, avistei o Seixas, da editora, e disse: — Você me arruma outro livro?

— Por quê?

— Ele errou a dedicatória. Errou o nome. Você arruma outro livro? — e joguei o livro no lixo.

— Bom… tá bom…

Coimbra ficou imóvel: — O que você tá fazendo, cara?

— Não. O que você tá fazendo, cara?

Peguei um livro novo, abri na segunda capa e entreguei pra ele:

— Escreve o seguinte: “Carol, esse livro que você comprou vai me ajudar a comprar o meu maço de Derby. Obrigado por manter uma arte em decadência. Do seu, Coimbra”.

Coimbra olhou para os lados e sussurrou no meu ouvido: — Capana, cê tá brincando? — Não tô, não. Escreve aí.

A contragosto, Ricardo escreveu o que ditei. Sorrindo, entregou o livro de volta para Carolina. Quando a garota pôs seus olhos na mensagem, os músculos de suas pálpebras fisgaram. Segurando o livro com ambas as mãos, ela o levou até o peito e, com um sorriso, disse: — Obrigada!

Depois do resultado, Ricardo deu o braço a torcer: — Onde você aprendeu a fazer isso? Ao que respondi: — Se liga: minha mãe me ensinou.

Eu assessorando Ricardo Coimbra, gênio dos quadrinhos — já dos autógrafos, nem tanto…

O evento seguiu e a fila de fãs caminhava, sem dar trégua para Coimbra. Fiquei sempre ao seu lado. Depois de certo tempo, o menino pegou o jeito e eu só precisava dar alguns palpites e sugerir pequenas correções. Foi quando chegou uma figura que me pareceu estranhamente familiar…

— Ricardo? E aí, mestre? Sou teu fã demais, pô!

— Opa, valeu, cara!

Entrei na frente de Ricardo e encarei o figura. Puta que pariu. Era o Marvinho.

— Marvinho?

— Oi?

— Porra. Não lembra de mim?

— Não tô lembrado, não, cara.

— Marvinho? Da Praça Itália? Em Santo André?

— Sei. Você é de lá?

— Porra! Marvinho! Minha vó morava em frente à praça. Lembra que a gente jogava uma pelada lá durante as férias de julho?

— Porra, não tô acreditando: você é o Parasita?

— Eu mesmo, porra!

— Parasita? Caralho, muleque, você tá feio demais!

— Porra, Marvinho, seu filho da puta!

Ficamos nesse clima de confraternização durante uns cinco minutos, enquanto a fila para os autógrafos aumentava. Minha emoção era tremenda. Abraçado ao Marvinho, apontava-o para o Ricardo — que nunca o tinha visto na vida — e falava: — Cuíca, se liga, é o Marvinho da Praça Itália! O Marvinho, porra!

Não me aguentei e pedi a caneta ao Coimbra: — Posso?

Ele cedeu: — Manda bala, Capana.

E assinei:

“Marvinho,
Caralho, seu filho da puta!
Você continua com a mesma cara de verme!
Prazer demais aquelas peladas na Praça Itália, xará!
Vê se toma vergonha nessa cara, hein?
Porra, que saudade!
Abração do Capanema.
PS. Tua irmã ainda continua gostosa?
O autógrafo é o pior castigo do artista novato — é como escrever uma quantidade infinita de cartões de aniversário para gente do serviço que você odeia. Por isso, tenha sempre um assessor de autógrafos ao seu lado.

Vida de Prástico

Ricardo Coimbra nasceu em Recreio (MG), em 1978. Cursou jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Durante esse período, no final dos anos noventa, publica seus primeiros quadrinhos em pequenos jornais, zines e revistas alternativas do circuito universitário. Em 2009, passa a publicar seu material também no blog “Vida e Obra de Mim Mesmo”. Mora em São Paulo desde 2007, onde trabalha como redator e ilustrador.


Amostra grátis do livro. Não dá pra ler nenhum quadrinho, mas tem o prefácio do Bruno Maron.

O mundo de Ricardo Coimbra não é de pelúcia. É feio, sujo e malvado, povoado por seres desprezíveis e sub-celebridades. E tudo em preto e branco. Munido de um humor certeiro, o autor coloca uma lente de aumento neste mundo, evidenciando cada imperfeição e detalhe constrangedor em suas tiras e HQs. Com a coletânea Vida de Prástico, Ricardo Coimbra mostra porque vem conquistando seu lugar entre os principais quadrinistas do Brasil e prova que é um gigante em fase de crescimento.
“Coimbra pratica um niilismo ativo de alta voltagem, demolindo com prazer qualquer esboço de ideal ascético que porventura possa obliterar esse gosto pelo riso, o riso liberado de qualquer condicionamento moral. A ordem transcendente fica de calça arriada, com o cofrinho de fora.”

— Bruno Maron

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