Um bate-papo com Vinícius Perez

Psiquiatras

Um tutorial para os dodói da cabeça

— Tô desempregado, solteiro e sem casa. Resolvi marcar um psiquiatra, vai saber. Fui receoso, achando que ia tomar esporro — “Já passou antes no analista ou psicólogo? Não? Nossa, se acha o dodói da cabeça pra vir direto no psiquiatra, né?”. Daí tô lá, sento, respiro fundo e penso em começar a falar. Vou falar em voz alta tudo que tinha ensaiado, minhas vulnerabilidades, minhas fobias mais inconfessáveis, mas sou interrompido por um estouro — num estampido a chuva da rua começou a invadir o consultório e alagar tudo. O nível da água foi subindo muito rápido e, em poucos segundos, molhou minhas meias.

— Aproveite a maré de má sorte, a maldição e o ostracismo para se consagrar como grande artista marginal. Hoje também fui ao psiquiatra. Dr. Giverny, R$450 paus a consulta. Ele tem um metro e meio.

— O meu custa R$250. Tive de remarcar.

— Inundou a porra da sala do cara?

— Isso. Molharam as minhas meias.


— Acho que vou largar meu psi.

— Por quê? Você voltou lá?

— Fui! A segunda consulta foi pior ainda. Ele tá obcecado pela Regina Casé.

— Sério?

— Eu citei bem por cima que tinha sido demitido do meu emprego, só pra pontuar minha postura kamikaze, e ele: “Trabalhavas pra Regina, é?”; “Aquela mulher tem muito dinheiro”; “É uma pessoa de muita visibilidade”.

— Você comentou que trabalhava pra ela daí o cara vidrou?

— Ok, seguimos, falei de outras coisas. Lá pelas tantas falava da minha mãe. E ele: “Tu não sente saudade da tua mãe? Querer ver mais?” — E eu: “não, gosto de ficar longe”. “E da Regina, sentes saudades?”.

— HAHAHA. Que puto. Putudo. Cu podre. Carniça. Por aí se vê que não é um homem sério.

— Uma hora eu tava falando sobre minha falta de ambição e ele perguntou o que eu gostava de fazer, o que me dava prazer: “sou bem calminho: gosto de ver os amigos, tomar cerveja, ver um filminho. Ambição profissional não tenho muita, gosto de escrever.” — E ele falou:

— Queres ser um Saramago, talvez?
— Como assim?
— Ganhar, quem sabe, um Nobel da literatura?

Eu não sei, eu nunca fui em psiquiatra-psicanalista antes. É assim ou esse cara é péssimo?

— Cara eu acho que todas as suas histórias e diálogos são inventados ou mentira.

— Por quê?

— Esse cara é uma fantasia da sua imaginação.

— Ele tem uma coleção de corujas atrás da mesa dele.

— Porque não é possível, entende?

— Umas trezentas.

— Te receitou algum remédio? Acho que não tem remédio que dê jeito. Você inventa tudo. Talvez seja doente mesmo, tipo Bruno Tolentino. Mitômano. Vai escrevendo isso tudo, enganando o pessoal, construindo sua obra sobre esse arcabouço de pequenas e grandes mentiras. Continue dando vazão aos seus devaneios, não guarde nada para si.

— Hahaha.

— Um floreador da realidade.

— Eu minto um pouco, mas isso do psi é tudo verdade.

— Estou mal. Não achei que fosse chegar até aqui. Todo dia uma crise de ansiedade, um suadouro que brota no rego.

— Me fale de verdade, como é uma consulta sua? De verdade. Eu não sei se o psiquiatra tá dando essas respostas escrotas porque eu tô fazendo errado.

— São conversas normais, que vão depender muito da qualidade e formação do médico.

Meu médico é fantástico. Cumprimenta-me, senta-se e me ouve. Resumo tudo de relevante que aconteceu em minha vida desde nossa última consulta. Ele ouve e anota. Às vezes, raramente, me interrompe para esclarecer ou explicar algo, direcionar melhor minha narrativa. A consulta dura em média uma hora e meia. É como uma sessão de análise. Ao fim, ele larga o caderno e tenta elucidar o que se passa comigo. Revela os meus conflitos, dizendo, por exemplo:

“Você é um cara muito ambivalente. Ao mesmo tempo que é corajoso, é covarde. É despirocado, “livre”, mas precisa de estabilidade, conforto e segurança etc.”

Geralmente ele recorre a analogias para explicar as coisas de maneira mais didática. Ele fala durante meia hora, por aí. Sinto que se identifica um pouco comigo e tem pena de mim. Gostaria que eu deslanchasse.

Já ao fim sempre recomenda que eu busque uma terapia, porque isso só se dá jeito com terapia. Em seguida, vê como estão as doses dos meus remédios e se vale a pena tentar mudar algo. Depois, transcreve as receitas. Já na porta, cumprimenta-me, com um olhar de piedade e se despede: “você é inteligente, mas usa sua inteligência contra si”.

— Tu não romantiza tua posição de alma perturbada com esse tipo de elogio? Porque é meio que um elogio, no fundo.

— Ele sempre parece demonstrar alguma esperança em me ver melhor, mais bem resolvido. Apertamos as mãos e vou embora. Volto dali cinco ou seis meses. […] É um elogio — o da inteligência, você diz?

— Isso.

— É um elogio ambivalente, como eu. Sinto-me orgulhoso e triste, ao mesmo tempo.

— As minhas foram assim — foram duas — a primeira durou vinte minutos. O médico, um senhor, me ouviu falar e perguntou o que eu queria. Eu falei que não sabia, falei sobre as coisas que aconteceram recentemente: meu despejamento, a mudança para um apartamento novo, minha falta de ambição. Ele não falou nada de volta. O interfone apitou no meio de uma frase minha e ele interrompeu-me: “Vamos nos ver, pra continuar nos conhecendo, quarta-feira?

— Mas isso é psiquiatra ou psicólogo?

— Na porta dele diz: “Psiquiatra — Psicanalista”.

— É meio ruim quando mistura as duas coisas.

— Na quarta-feira eu meio que repeti algumas coisas que disse da primeira vez, insisti, falei que estava me sentindo bem por causa da mudança, pelo emprego novo. Falei que me sentia bem por ter conseguido o emprego novo, mas que nunca senti nenhum tipo de satisfação profissional, que era só satisfação por ter dinheiro. Falei da namorada, falei sobre mulheres. Ele novamente não falou nada e perguntou se podíamos nos ver de novo, na segunda.

— Certo. Você parece ter contado direito os seus dilemas…

— Essa falta de comentário… e ele faz umas perguntas meio burras, focando nas coisas erradas.

— Sei. Pra funcionar você precisa sentir uma certa empatia com a pessoa. Se você percebe que o cara não te entendeu ou não valorizou os seus conflitos, fica difícil mesmo confiar.

— Sim. Eu me sinto afetado reclamando, falando com ele, me sinto culpado por estar ali, me acho fútil.

— Essa empatia entre médico e paciente existe, é só procurar.

— Acho que tudo que falo é futilidade e afetação.

— Já fui em bastante médico assim, de convênio, mais frio. Achava tudo uma loucura, porque o prognóstico não se baseia em uma coisa exata, em um exame. Você senta lá e desce a bronca, aí o médico olha pra tua cara e te receita uma dose qualquer de um ansiolítico qualquer. E se eu estivesse mentindo? Eu se eu quiser mentir, fantasiar sintomas? Sentia-me assim até ter a experiência de uma boa consulta. Faz muita diferença.

E o único jeito pro cara ser bom é ele te ouvir, te entender e sofrer com você. O médico realmente sente empatia e piedade do paciente. Ele se comove com a dor do outro. Por mais que seja um guri, com conflitos de guri. Você percebe que o cara quer te ajudar — e ele sabe que não vai salvar todo mundo, ele vai perder vários. Mas ele continua, sofre, e continua.

— Que bonito isso. E como você tá com o remédio novo?

— Fiquei doente de domingo pra segunda. Febre, dores no corpo, inflamação na garganta. Tô tomando muito remédio. Comecei a fazer um DIÁRIO DA REBOXETINA por e-mail pro meu psiquiatra. Fiquei com medo de acontecer alguma interação medicamentosa com o monte de merda que eu tô tomando. Entrei na Nimesulida, no Tylenol Sinus e nas pastilhas Benalet. Todos os dias estou tomando: Cloridrato de Paroxetina, Clonazepam, Mesilato de Reboxetina, Esomeprazol Magnésico Tri-Hidratado, Budesonida, Paracetamol, Cloridrato de Pseudoefedrina, Cloridrato de Difenidramina, Cloreto de Amônio, Citrato de Sódio e Fumarato de Formoterol Di-Hidratado, quando ataca a asma.

— Você não parece muito bem. Mas tenho uma sugestão.

— Não estou. Qual é?

— E se você trocasse tudo isso por um livro do Osho?


Show your support

Clapping shows how much you appreciated Thiago Capanema’s story.