Desculpa #148

Tinha uma mania desnecessária de pedir desculpa por tudo. Por esbarrar sem querer. Por não suprir suficientemente a necessidade de alguém. Por não corresponder às expectativas. Por não conseguir ser outra pessoa. Por não sentir a mesma coisa. Por talvez fazer algo que vá o contra fluxo das coisas. Por ter desapontado.

Passei um bom tempo remoendo e nutrindo esse sentimento de dever desculpa. Era uma palavra que, apesar de usar com frequência, era meio que sagrada. Tinha o poder de curar ressentimentos, deletar o passado e continuar vivendo o presente como se nada tivesse acontecido. Ao passo que também me encontrei em situações que achava que não precisava pedir desculpa, mesmo sabendo que estava errado. Ou pior, fazer um pedido de desculpas sem pedir desculpa. Vai entender.

Interiorizei no meu ser que pedir desculpas não é uma vergonha. Admitir que estava errado é uma qualidade feliz de gente que se vulnerabiliza. Pedir desculpas conforta, mas não conserta. E pedir desculpa em excesso só traz uma estima cada vez mais baixa e o peso constante de uma culpa fantasma. Consegui finalmente conceber a ideia de que simplesmente existe uma bifurcação nas coisas que a gente faz: as que podem ser mudadas, controladas e estão ao nosso alcance, e aquelas que não estão. Claro que somos mais plurais, elásticos e sensíveis que uma simples bifurcação. Mas foi a maneira que eu encontrei de simplificar as coisas. Meu crivo para pedir desculpas ou não.

Eu, minhas divagações e meus eus do passado-presente-e-talvez-do-futuro. Desculpa qualquer coisa.