I’m Still Here
Os nossos alter egos
“Estranho é aquele que expõe a própria vida e fotos na internet”. Esse era o pensamento na era da internet discada, pré-orkut/facebook. Curioso que a regra se inverteu de tal forma que o desajustado é aquele que em um ato de rebeldia digital (quão absurdo seria falar isso anos atrás?) resolve não fazer parte do básico do que é a internet hoje. Me pergunto se o ato de recusar utilizar o próprio facebook literalmente como ele deveria, me faz de fato mais fake do que alguém que cuidadosamente seleciona uma versão (nem sempre verdadeira) de si mesma para demonstrar aos outros. Não que seja um crime, da mesma forma que não é escolher ser uma pessoa reservada em um ambiente que faz de tudo para lhe convencer do contrário, mas se existe alguma certeza nesse tempo todo é que eu me sinto mais livre para ser quem eu realmente sou, trazendo à tona o que as máscaras que usamos todos os dias para conviver com outras pessoas, escondem.
Por mais que alguém tente me convencer o quão íntegro e verdadeiro é, nada é mais óbvio do que a nossa mudança de acordo com o lugar e com as pessoas que estamos, não dá pra se comportar exatamente igual diante de amigos, pais, professores, chefes, etc. Acredito que a internet talvez tenha acrescentado mais um lado de cada um de nós, se nos ponderamos através de likes ou compartilhamentos (RT’s ou seja lá qual for a forma de interação) o que nos sobra é o fato que tudo isso serve como uma vitrine do que queremos mostrar de nós mesmos. Como se fosse possível assumir diversos alter egos, o artista, o político, o depressivo, o piadista, até mesmo o troll, escolhi não ser um só, acredito que ninguém consiga ser também, na verdade a própria ideia de “ser” o tempo todo me soa cansativa, pode parecer tão mecânico para nós que mal notamos, assim como é andar na rua com o celular na mão olhando para baixo porém não enxergando o chão, e sim a tela para monólogos contínuos do que curtimos, escutamos, vimos, aonde estamos, pra onde vamos. Existem momentos de prazer, é claro, mas cada vez mais a vida me prova que pode ser mais do que isso, ela precisa ser mais do que isso.
No meio de tanto devaneio, volto ao que me fez escrever esse texto, o fato de que as pessoas no final se abrem mais com uma pessoa cujo rosto não podem ver. Isso me leva ao tempo pré redes sociais, quando era um crime se expor, mas os blogs e fóruns aos poucos trazia uma certa segurança, protegida por algum nick ou avatar, e por não saber também quem ia ler ou saber que a pessoa não poderia saber quem você era. Considerando que faz parte de mim ouvir e me interessar pelo o que os outros tem a dizer, isso talvez explique o motivo de não ter voltado ainda, quando isso acontecer, sei que isso vai ser perder, que boa parte de mim vai embora em prol do que apenas eu quero mostrar, ironia ou não, talvez eu nunca tenha sido tão verdadeiro como agora, sendo na visão de muitos, um fake.