Dinheiro é coisa da sua cabeça

Você saberia explicar em 140 caracteres o que é dinheiro? Ok, essa é uma pergunta muito difícil, vamos para uma mais fácil. Qual é realmente o papel do dinheiro na sua vida? Essa é uma relação saudável?

A segunda pergunta também não facilitou muito, imagino. Quando se trata de dinheiro, não interessa se estamos mais perto do quase trilhardário Bill Gates ou do endividado Eike Batista, todos temos pontos a melhorar. Quanto aos fatores psicológicos que afetam nossa relação com as finanças, poderíamos enumerar uma quantidade de vieses tão grande quanto notícias louvando as habilidades do Eike em 2009.

Sarah Newcomb, Ph. D. em economia comportamental, tem três dicas de como podemos colocar o dinheiro em uma área mais saudável de nossas vidas: mudar nossas histórias, definir estratégias e cultivar nosso valor.

Nossa relação com o dinheiro se trata muito pouco de um valor exato, nominal, de números frios. Ela vem muito mais das histórias que criamos ao redor desses números.

Sem mudar essas histórias, nunca vamos transformar o modo como lidamos com nossos ativos financeiros. Essas narrativas começam a ser criadas desde nossa infância, enquanto ainda nem conseguimos nos dar conta de sua existência, vão se articulando com as crenças daqueles que estão à nossa volta, da realidade que nos cerca, sedimentando camada por camada em uma massa informe que parece impossível de transformar. Como mudá-las?

Dan Ariely, outro importante pesquisador da economia comportamental e Ph. D. em psicologia cognitiva, traz alguns exemplos que podem começar a abrir um pouco os horizontes de como lidar com esse lado menos consciente — ou previsivelmente irracional — de nossas atitudes.

Um dos pontos mais abordados pelo pesquisador é: tudo é relativo. Receber um salário de 70 mil em uma empresa em que você é o menos bem pago de todos os funcionários leva a um grau maior insatisfação do que ganhar 65 mil sendo o mais bem pago; duas porções de comida iguais em pratos de tamanhos diferentes levam a sensações de saciedade diferentes, etc. Isso se deve à nossa capacidade gigantesca de adaptação. A realidade ao nosso redor se transforma em norma muito rapidamente, portanto, a felicidade de trocar um emprego anterior por um que dá 5 mil a mais por ano logo se dissipa na relativização com seus pares. O que isso quer dizer? Que precisamos sempre estar melhores que os outros? Que o ser humano é um ser desprezivelmente egoísta e invejoso?

Não, mas sim que estabelecemos como parâmetro aquilo que está facilmente ao alcance de nossa memória e percepção. Assim, nossa vida quando ganhávamos 65 mil ao ano rapidamente deixa de ter o papel central na memória para estabelecer comparações mais fáceis com a de nossos colegas de empresa.

Uma alternativa para isso é criar parâmetros facilmente verificáveis e acessíveis. Como no exemplo do prato, se queremos comer menos e fazer uma dieta, uma alternativa é usar pratos menores para enganar nossa percepção, consequentemente, a fome. No caso das finanças, manter uma planilha com a anotação dos gastos faz parte do processo de tomada de consciência.

Dan Ariely fala sobre o princípio de ancoragem: uma vez que estabelecemos um novo comportamento, em termos psíquicos é como se abríssemos uma via para repetí-lo mais e mais vezes. Ao experimentar um café mais caro na cafeteria da esquina uma só vez, estamos reconfigurando toda uma rede de crenças que vai desde o quanto gostamos da nossa cafeteria usual, o quanto estamos dispostos a investir em equipamentos e insumos para fazer um café em casa, até o quanto acreditamos entender sobre o café em si.

Os comportamentos reiterados reforçam nossas identidades em relação a eles. Nunca tomamos uma decisão diretamente de um espaço vazio. Nossas decisões partem de uma sequência de decisões e comparações que levam em conta todas as decisões que já tomamos até ali.

Assim, a próxima vez que formos confrontados com a mesma situação vamos querer repetir o comportamento que nos deu mais prazer.

Em relação às finanças se, por exemplo, desejamos nos tornar investidores mais arrojados, compradores de risco, podemos começar fazendo uma pequena compra de ações. Essa compra não vai ter resultados práticos em nossa carteira, mas vai estabelecer novas crenças. Vai ajudar a criar a auto-imagem de um “comprador de ações”. A mesma coisa em relação a poupança. "Não consigo poupar o quanto deveria" é a reclamação mais comum de se ouvir ao começar qualquer planejamento financeiro. Poupe qualquer quantia, mesmo que seja irrisória em relação ao seu patrimônio. A partir dessa primeira iniciativa, nosso cérebro vai ter subsídios para estabelecer lembranças — "mês passado eu poupei 10 reais "— até você conseguir atingir seus objetivos de forma incremental.

Esses pequenos passos são importantes não só pela reconfiguração mental que eles possibilitam, como também por uma característica à qual damos pouca atenção: o dinheiro é uma faca de dois gumes, por um lado é um fator de motivação, por outro é um causador de estresse.

À medida que os valores que estamos lidando aumentam, mais atenção, ansiedade e estresse eles trazem consigo. O pesquisador fez um teste oferecendo bônus para pessoas ao executarem certas tarefas, variando os valores e a natureza delas. O resultado foi o seguinte:

Quando uma tarefa era puramente mecânica, mais bônus igual a melhor performance. Porém, quanto mais uma tarefa é intelectual, a partir de certo incremento de valor, menos o bônus impacta positivamente e passa a causar dificuldades. Existe uma explicação aí: quando a bonificação era tão grande a ponto do pesquisado passar a pensar mais nele do que na tarefa em si, a qualidade da sua resposta baixava.

Pense em como isso impacta na sua vida financeira. Se o tamanho do ganho for tal que você pense mais nele do que no que você está fazendo, grandes são as chances que você tome decisão errada. Por isso é sempre recomendável tomar as decisões financeiras em baby-steps, de forma incremental.

Nossas necessidades são muito difíceis de mudar, não interessa o quão básica e indispensável ela seja, ou o quão frívola e descartável. O dinheiro costuma ser a válvula de escape mais rápida para lidar com os problemas da vida. Qualquer insatisfação profissional, amorosa, ansiedade, e lá vamos nós de novo usar o dinheiro para proporcionar algum tipo de conforto, algum alívio de tensão. Por isso, Sarah argumenta que um bom planejamento financeiro é muito mais como um mapa do que como uma dieta. Pensar no planejamento financeiro como uma dieta é receita pronta para dar aquela escapadinha e roubar o pudim da geladeira na calada da noite enquanto todos dormem. Ao contrário, um mapa oferece rotas, desvios, alternativas. Valendo-nos delas, podemos escapar de adversidades quando elas surgirem, mantendo nosso destino em mente.

Como aumentar seu bem-estar em relação ao dinheiro? A pesquisadora e sua equipe fizeram uma pesquisa para tentar estabelecer correlações entre renda e crenças, e como elas impactam na relação emocional com o dinheiro. Identificaram como fator principal para a satisfação, não o tamanho da renda, mas o quanto as pessoas sentem que estão no poder de suas decisões financeiras. Pessoas com renda anual abaixo de US$ 10 mil que diziam estar no controle de sua vida financeira relataram melhores experiências com as finanças do que as que ganhavam mais de US$ 200 mil e diziam ter menos controle de suas escolhas.

A solução para melhorar a sua relação com o dinheiro não passa em primeiro lugar por ganhar mais, mas sim ter mais controle sobre o que você faz com seu patrimônio. Como? Investindo em conhecimento. Entendendo melhor suas necessidades, suas atitudes, o papel que o dinheiro tem na sua vida.

Em outra pesquisa, chegaram a conclusão que idade, gênero e mesmo a renda pouco têm a ver com a taxa de poupança. O fator determinante para saber quanto alguém vai poupar é sua capacidade de pensar no futuro. Indivíduos que ganham mais de US$ 200 mil por ano, que têm foco no curto prazo poupam menos — percentualmente falando — do que os que têm renda mais baixa mas são pensadores de longo prazo.

O que isso tudo quer dizer: cultive seu próprio valor, ou em outras palavras, invista em si mesmo. É o primeiro movimento para começar a ter retorno. Invista em conhecimento e educação. Assim, você vai começar a identificar as histórias que conta para si e que estão impedindo sua vida de melhorar, vai repensar as suas estratégias e colocar o dinheiro em um espaço mais saudável de sua vida.


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