Gohan, que rei é você?

Dragon Ball, sem nenhuma letra a seguir
Como falamos no primeiro texto, Dragon Ball funcionava como um road movie, onde seus personagens percorriam o mundo, conhecendo novas culturas, personagens, políticas, com o intuito de reunir as sete esferas do dragão.
Papo vai, papo vem, novos perigos vão aparecendo. Imperadores megalomaníacos, como o Pilaf. Facções perigosas, como a Red Ribbon. Seres demoníacos, como os dois Piccolos.
Aliás, foi contra o Picolo que o Goku teve o seu maior embate até então, levado ao extremo e sendo coroado, finalmente, o Campeão de Artes Marciais.
O que viria a seguir, se todo o arco do Goku, dentro da proposta do estilo do desenho, foi terminado (e olha, até para ser o Deus da Terra ele foi convidado, mas preferiu passar o tempo com a Chichi, onde deve ter sido por aí que seu filho nasceu.
O que fazer, o que fazer? Que tal um reboot, um recomeço, com novos personagens, dinâmicas, preservando a essência da história? E se tal a gente colocasse um “Z” no nome, para iniciar a nova fase?
Ele era o “Z” da história
Chegamos no Z, que seria, literalmente, o final da história e por isso da brincadeira com a última letra do alfabeto.
A ideia aqui era trabalhar mais ou menos com a mesma dinâmica que a fase anterior, cuja mesma foi relembrada na fase GT (me perdoem por despertar tal lembrança): uma criança ingênua, um mentor, a noção de perigo real e as buscas pelas esferas.
Porém, havia algo por aí a ser considerado: Goku ainda estava lá e a sua própria dinâmica também mudou. Se ele não seria o protagonista, como dar o status a seu filho, Gohan?
Defindo ele, desde o início de Z, como O protagonista, o mais forte de todos, aquele que superaria até mesmo seu pai, e grande guerreiro, Goku.
Arco do Herói e o Akira preparando o terreno

A parte mais interessante do desfecho da primeira grande luta em DBZ é o que vem a seguir: inversão nos papeis. O que dá um bom fôlego para o desenho.
Goku pede para que Piccolo treine Gohan até a vinda dos novos Sayajins. Veja bem, Goku está morto, então não temos ninguém tão importante e carismático quanto ele na terra.
E é exatamente aí que a coisa fica interessante.
A gente observa a transformação do Gohan de uma maneira totalmente nova e inesperada: pela tutela do, até então, maior inimigo que a Terra já teve. E essa dinâmica não poderia ter sido melhor.
Temos em Piccolo aquele personagem renegado, típico anti-herói, o durão de coração mole. Uma faceta nova para o espectador até então acostumado com um demônio sedento por vingança e destruição, tendo que treinar um garoto exatamente oposto ao que ele foi e é.
Já Gohan…bem, o Akira começa a preparar o terreno, dos dizendo de maneira sutil que a pequena criança seria “diferente”. Temos surtos de poder permeando por toda fase dos Sayajins até o Freeza.
Seja ele juntando Ki para não colidir com uma árvore. Seja aumentando a força na tentativa de salvar o pai do seu tio, Raditz. Durante o próprio treinamento com o Piccolo, até o ataque ao Freeza quando Namek estava para explodir.
Tudo isso era Akira nos falando “calma, que o melhor está por vir”.
E veio, sob a alcunha de Cell.
Goku entendeu primeiro que todo mundo

Uma das melhores coisas da saga dos Androides e do Torneio do Cell é em como o Goku entende, e aceita, o fato do Gohan ser o mais poderoso de todos, com a mesma idade de quando ele era criança.
Nesse momento, ele toma para si o posto de pai e mestre, não só por treiná-lo durante todo o período, mas sim por explicar, com sua serenidade ímpar, a importância da luta contra o Cell, trazendo a paz para que seu filho possa trilhar o caminho que sempre sonhou, o de ser cientista.
Aqui a gente tem uma exposição maior da relação de pai e filho. Destaca-se quando Goku propõe que eles cessassem o treinamento combativo para se acostumarem e regularem o ki na forma de Supersayajin.
Essa tomada de decisão leva com que os dois se relacionem como nunca mostrado, tendo alguns bons momentos, como o encontro com um velho conhecido dos tempos de Goku, um tal de Tal Pai Pai. Nada melhor para que um filho compreenda o pai estando ligado diretamente com o seu passado. Tanto no “clima mais leve” que Dragon Ball carregava, quanto nos inimigos que seu pai combatia.
Era um laço que foi formado e que estava se fortalecendo.
Pulamos para a última ação que Goku faz pelo filho. Ao propor que lute primeiro com o Cell, ele nos revela algo interessante. Sua intenção nunca foi vence-lo, e sim mostrar para o Gohan que o mesmo poderia derrota-lo.
A confiança e confirmação do escolhido

O principal mote no embate entre Gohan e Cell é a confiança e confirmação proposta por Akira Toriyama lá no início de Dragon Ball Z.
A começar pelo Cell e sua alcunha de ser o Guerreiro Perfeito, e se orgulha disso por toda a sua jornada. A perfeição se dá, justamente, por ser constituído das células e técnicas de todos os guerreiros mais poderosos da Terra. Para que o Gohan pudesse confirmar sua força, era necessário um guerreiro que tirasse o máximo de ti.
O segundo ponto era o poder oculto do Gohan. Todas as pistas deixadas por Akira ao longo de toda a sua jornada, é percebida por Goku e compreendida por Picolo. Gohan não era um garoto comum. Não por ser meio sayajin e meio humano. E sim por ser o maior guerreiro dentre eles.
Com isso, chegamos ao ápice da história preterida por Akira ao colocar a letra “Z” ao final do nome do desenho. Goku se sacrifica e todos voltam a sua esperança para Gohan, este, aceitando o lado sayajin do seu sangue e travando uma batalha pela paz. Paz essa que possibilitaria de seguir seu sonho.
E é aí que o bicho pega, pelo menos para os fãs.
O sonho de Gohan era ser um cientista
Esse é o choque de realidade.
Talvez por isso não farei muito rodeio por aqui. Bora lá: O sonho do Gohan nunca foi conquistar as esferas do dragão ou salvar o mundo contra ameaças.
Gohan queria ser um cientista.
A batalha travada contra o Cell foi para que nunca mais tivesse que travar batalha alguma e poder seguir em paz com seus objetivos. Mesmo que, aos olhos dos orgulhosos sayajins, ele tenha “amolecido”.
Talvez aquele Gohan que você almejava na Saga do Majin Boo não fosse aquele personagem que o próprio Gohan sonhava em ser. E seria de um egoísmo tamanho culpa-lo por não ser quem você quer, e não quem ele almeja ser.
Akira Toriyama preparou o Gohan para ser o maior guerreiro da Terra.
Gohan, por sua vez, decidiu ser um cientista.
Taí uma força maior do que qualquer transformação Sayajin.
Abraços,
Rafael Moreno
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