Madri, 6 de março de 2002

Veja os capítulos anteriores da série:
1- Introdução à máquina do tempo
2- Guadalajara, 17 de junho de 1970
3- Roma, 30 de maio de 1984

Madri está ansiosa para a primeira decisão do grande centenário do Real. É de longe o maior clube da cidade, o que atrai mais paixões e reúne mais admiradores ao redor do mundo. Ainda mais agora, que montou um timaço para dominar o futebol internacional. Tantos craques valiosos no mesmo espaço, tantas promessas de glória. O clube investiu pesado para monopolizar os títulos nos próximos anos.

O Santiago Bernabéu está lotado, pois é dia de festa. Hoje é o aniversário de 100 anos do Real, que terá como presente o título da Copa do Rei desta temporada, se tudo der certo. E não tem como dar errado quando Zidane, Figo, Roberto Carlos, Raúl e Morientes estão em campo. O adversário é o Deportivo La Coruña, campeão espanhol de 2000 e que na década passada teve Bebeto e Rivaldo no elenco. A geração do Dépor também é muito boa. Mauro Silva, Valerón, Fran, Diego Tristán, Djalminha, Makaay, entre outros coadjuvantes de peso no esquema do técnico Javier Irureta.

Descendo a Avenida de Concha Espina, me deparo com muitos madridistas aos sorrisos. Alguns estão comendo seus lanches enquanto se encaminham ao estádio, outros olham as vitrines das lojas do outro lado da rua. A fila é grande para entrar, hoje a casa vai estar cheia, naturalmente. O ingresso dá direito a uma das fileiras da arquibancada central, que aliás me seria uma das mais caras da vida se não fosse um presente. É um privilégio testemunhar a história sendo feita e a coroa sendo posta na cabeça do grande time da atualidade.

O tempo é bom. A noite trouxe uma boa temperatura para a disputa, não é como se passássemos frio ou estivesse muito calor. É adequado o clima para uma final de campeonato, visto que todos nós vamos aquecer a atmosfera do Bernabéu conforme a bola rola. Me sento e vejo que muita gente aqui não possui uma ideia do que é sentir a tensão de uma decisão. Para eles, o Real vem para ganhar, não há outra hipótese que não a vitória diante dos galegos. A fala ligeira do espanhol médio me faz perceber que eles já estão combinando onde irão festejar a conquista da Copa do Rei, visto que vencerão no mínimo por 3–0.

Levantei as sobrancelhas e fiquei curioso. Será que eles realmente não contam com o fato de que o Dépor consiga uma surpresa? Começo a perceber que estou do lado errado. Preferia muito mais estar entre os visitantes, que provavelmente dão muito mais importância ao confronto por tudo que já viveram, bem mais do que os madridistas, que enxergam a ocasião como um bolo de aniversário especial. Afinal, não é todo dia que se faz 100 anos. Com o meu espanhol limitado e hesitante, pergunto a um garotinho da fileira de baixo qual é o palpite dele: “Dos a cero”, ouço. Tímido, não como os marmanjos fanfarrões que vislumbram um placar elástico.

A torcida do Dépor faz festa, para eles é um carnaval. Bonecos de vento dançam nos ares do Bernabéu, o azul e o branco marcam presença ali no canto esquerdo de onde estou. Aqui, sinto uma animação protocolar, como quem veio para comemorar mais um ano novo que chega. É só mais um título entre os vários que o Real já tem. Até tentaram fazer um mosaico no estádio, mas parece que não deu muito certo. Bonita mesmo é a bandeirona que rola na arquibancada atrás do gol direito, uma simples e gigante faixa comemorando o aniversário do clube merengue. Sobe então uma fumaça azul e branca do lado madridista. Parece que agora sim é que vai começar o espetáculo, após o hino.

O campo ainda está tomado por um nevoeiro feito pelos sinalizadores locais. Isso não atrapalha o andamento da partida. O pessoal começou a cantar forte. Todo barulho é pouco para intimidar o La Coruña, que provavelmente sentirá o tamanho do jogo. Curiosamente, a primeira grande chance é dos visitantes, um chute de Tristán na entrada da área. Era Pavón que deveria ter cortado um passe vindo da lateral, mas o grandalhão do Dépor consegue receber, pensar e arrematar. César, que surpreendeu ao ser escalado como titular, faz grande defesa.

Não temos nem sequer 10 minutos de primeiro tempo e já dá para ver quem é que está mais disposto: o La Coruña envolve o Real em uma troca de passes e parece que é o dono da casa. Eles tocam sem medo de errar e vão progredindo. É em uma destas tramas que Sergio recebe e só tem um defensor para bater. Com um drible rápido de corpo, ele manda Hierro para o outro lado e entra na área. Salgado não dá combate e Hierro obviamente está longe demais. Um toque rasteiro por entre as pernas de César, é gol do pequenino Deportivo, na baliza de frente para a sua fanática torcida. São os gritos deles que ecoam agora no Bernabéu, enquanto o resto do estádio segura o queixo para não se descolar do rosto, tamanho choque.

O Real se perde. Erra passes, erra lançamentos, erra até mesmo as poucas chances que consegue criar. Apavorado, o gigante começa a sentir a ferroada venenosa do Dépor, que por outro lado, esbanja confiança. Um gol que tirou o semblante de arrogância sorridente do rosto dos madridistas. Agora eles apostam em suas estrelas para a virada. Por dentro, dou gostosas gargalhadas por estar testemunhando este momento. Preciso esconder minha expressão atrás de minhas mãos para não ser descoberto como um intruso no meio da paixão deste pessoal. Quando pareço estar lamentando de forma desesperada, na verdade disfarço um riso que jamais pode ser ouvido, tamanho barulho que se faz nas imediações.

O caldeirão madridista ainda está frio, nada de cozinhar os galegos. É o Real que corre atrás, se desdobra, é feito de bobo a cada rodinha de passes do La Coruña. A ironia fina desta noite é que Davi está humilhando Golias em sua própria casa, em uma passagem que a história jamais irá esquecer por estes lados. Davi não quer só vencer Golias. Ele quer punir o gigante pelos seus anos de supremacia, por todo o caviar arrotado na cara dos pobres, por cada contratação astronômica que vale uma folha de pagamento de um pequeno. Essa vingança se faz visível a cada drible aplicado nos de branco, é como se agora eles fossem apenas bêbados cambaleantes apanhando de um boxeador experiente. A superioridade mudou de lado e veste azul e branco.

A defesa madridista é lenta demais e espera que os galegos definam o lance. Os espaços dados e o teste da linha de impedimento de Vicente Del Bosque falham miseravelmente em um contragolpe do Dépor: Valerón brinca de futebol ao driblar Salgado. Brinca novamente ao correr para a ponta direita, depois de perder a bola. O mesmo Valerón recebe um passe em posição legal, rola para Tristán, que empurra para as redes outra vez. Reclamam de impedimento, mas a verdade é que o centroavante está em boa condição, já que Salgado está na mesma linha. O lateral-direito errou as três vezes em que teve a chance de impedir o andamento da jogada. Atuação trágica.

O nervosismo podou o talento do Real, que vai murchando a cada minuto. O placar antes do intervalo era de 2–0, os visitantes ali na esquerda não cabiam em tanta celebração. Já os meus vizinhos, estão entre a depressão e a ira. Como pode o Real decepcionar tanto os seus fiéis em uma noite especial? Dois torcedores ao meu lado já estão cogitando ir embora para casa, não querem ficar para fazer parte de uma história triste de seu clube. A criança que me dizia “dos a cero” antes da partida estava certa, já que não me contou quem faria os dois gols.

Na segunda etapa, uma confusão na lateral-direita do Dépor origina uma jogada rápida em que Morientes aciona Raúl. O camisa 7 diminui o dano dos locais e o placar passa a ser um emocionante 2–1. Ainda dá. Quem estava quieto volta a cantar e apoiar, mas a maioria ainda prefere se restringir ao gesto de colocar o cachecol do Real na frente do rosto, como se pudessem se esconder do que está acontecendo dentro de campo. Para eles, fechar os olhos e despertar só com o empate é um sonho possível. Não vejo ninguém chorando, o que me estranha muito. Talvez eles não estejam mesmo acostumados a isso. Diante de tantas glórias, reviravoltas e craques inesquecíveis, uma derrota vai sendo escrita na pedra fundamental deste colosso do futebol espanhol.

No dia do centenário, o Deportivo La Coruña é que desfila com a taça no Santiago Bernabéu. O último gesto da partida é uma bicuda de Sergio para o alto, o juiz apita e encerra a agonia dos mandantes. Eles estão condenados a passar mais alguns minutos entre lamúrias e testemunhando uma grande mancha neste aniversário. Cancelem a festa, os balões, os rojões, todos os sinalizadores e a passeata do povo de Madri na Praça Cibeles. O dia é de lamento, o gigante foi derrotado. Agora a marcha não é para exaltar o clube, mas para voltar para casa com a cabeça baixa.

Talvez eu esteja sentindo uma pontinha de sofrimento por ver tanta gente infeliz, mas a verdade é que o desfecho foi muito melhor do que o roteiro óbvio do aniversariante assoprando velas e levantando a taça. Dinheiro nenhum compra essa alegria de quem veio para torcer pelo Dépor e terá para sempre uma história para contar. Como eles arruinaram o Centenário madridista dificilmente alguém vai fazer igual, não em uma data tão significativa.

Vou manter a seriedade e o ar de tristeza. Ninguém aqui pode saber que na verdade eu estou me contendo para entrar por outro portão e ver de perto a satisfação dos que usarão o salão de festas para consumar o inesperado título de campeão da Copa do Rei em um perplexo Santiago Bernabéu…