Se apenas eu tivesse a mesma chance que você, Gabriel

Arrumei o jornalismo e o futebol com os amigos como formas de lidar com a grande frustração da minha vida: não ter me tornado jogador profissional. Não cheguei nem perto disso, deveria ter tentado mais, mas essencialmente sou um frustrado que já passou do ponto. Se ainda não ficou claro em todos os meus outros textos, sim, sou palmeirense. E estou um tanto quanto confuso a respeito de Gabriel Jesus saindo aos 19 anos para o futebol europeu.

Sobre a transferência, não penso nada além do óbvio que já foi dito por aí, por grandes amigos meus. É muito cedo para ele dar esse pulo, poderia ter dado mais, aquelas coisas, blablablabla. O que me incomoda profundamente nessa história não é nem a venda pura e simples de Gabriel, em mais uma cagada federal da diretoria. É o fato de eu nunca poder ter uma chance dessas. Não é sobre dinheiro, nem sobre fama, é sobre realizar um grande sonho.

Veja bem: até os 15 anos eu ainda me via minimamente esperançoso de chegar a algum lugar. As aulas na escolinha do São Caetano nem sequer me prometiam um futuro bom. Mas por mim, seria uma honra escalar equipes pequenas até um dia chegar ao Palmeiras. Não planejava ser nada além disso. Era jogar no Palmeiras e ponto final. O resto seria lucro.

Convivi com muito moleque que antes mesmo de colocar um uniforme completo já estava com a cabeça no exterior. No começo da década de 2000, com a aproximação de clubes europeus ao mercado brasileiro, a meninada toda queria ir para o estrangeiro, ganhar milhões, aparecer na TV, jogar pela Seleção, pegar mulher. Não me considero tão antiquado e conservador assim, mas diferente deles, meu objetivo de vida era um dia jogar pelo Palmeiras, uma partida que fosse. Se a carreira desse certo, um dia, talvez, em uma possibilidade remota, gostaria de ter jogado pela Roma. Mas se por um acaso este texto está sendo escrito, é porque nada disso aconteceu.

O que é o futebol para você? Quer dizer, o que ele te causa, o que ele muda na sua vida? Como você reage se ficar uma semana afastado de tudo a respeito do futebol? Bem, eu não consigo. Desde menino vivo essa obsessão e eu tenho acumulados alguns dias ou meses de sonhos perdidos em torno disso. Quantas vezes eu não acordei com um sorriso no rosto por ter me imaginado entrando pelo túnel do antigo Palestra Itália, sentando no banco ao lado do Felipão, tomando uma bronca do Murtosa, me aquecendo para entrar? Em algumas pinturas mais malucas, o Palmeiras ganhava o Brasileirão, a Libertadores, a Copa do Brasil comigo no elenco, eu corria feito maluco atrás da taça e reparava no brilho dos olhos e no barulho que cada torcedor fazia ali do outro lado. Era como andar na lua, era como se meu corpo não pesasse.

Gabriel Jesus tem a chance que eu sempre quis ter: de ser talentosíssimo no que faz, de surgir com a camisa do Palmeiras e efetivamente conquistar algo, de se transformar em um ídolo, em um exemplo. Disso tudo que Gabriel é ou vai ser, eu ficaria satisfeito apenas de defender essas cores. Digo isso do fundo do meu coração como alguém que tinha como prêmio máximo de vida ter o nome chamado no sistema de som em uma tarde ensolarada de domingo no Parque Antárctica.

Entendo que esses meninos novos tenham outra cabeça, outros planos, outras prioridades de vida. Só não consigo engolir o fato de que eles não estão dispostos a construir nada por onde passam. Sinto como se o clube se apequenasse diante das pretensões de um menino que até ontem não tinha nem idade para tirar carta de motorista. Porque parece que não somos grandes o suficiente para oferecer um plano consistente de carreira e assim estes meninos se deem por realizados só de atuarem no time titular.

Sinto um aperto enorme no peito ao ver que a relação ficou tão cretina que a única serventia do nosso time é lançar esse neném ao profissional, e quando ele estiver impressionando o bastante, vem alguém com um caminhão de dinheiro, encosta na calçada e vai embora com uma promessa. Não me leve a mal, Jesus, minha revolta não é com você. Minha revolta é com a vida. É com a forma como os negócios são conduzidos no esporte. Se eu tivesse vindo a este mundo com o dom que você veio, provavelmente teria assinado um contrato em branco para ficar o tempo que o clube me quisesse. E eu não ficaria completo enquanto não conquistasse todos os troféus com o Palmeiras. A questão-chave aqui é que a honra maior para mim seria estar no seu lugar como um menino novo de quem se espera muito e chega com gana de se transformar em um craque.

Esse talento hipotético que eu teria para entortar defesas, fazer gols bonitos e ganhar aplausos seria usado unicamente para o bem do Palmeiras, porque eu teria sonhado tanto com isso que a única realidade possível seria começar e terminar minha carreira no mesmo lugar, com a gratidão de quem só chegou longe porque se dedicou e suou sangue vestindo verde e branco. É claro que não posso exigir de ninguém um amor tão grande e incondicional que resista aos tempos, ao assédio do exterior e às voltas que a vida dá. Da minha posição, só posso mesmo chutar pedrinhas na rua e deitar a cabeça no travesseiro para tentar me reencontrar com aquela ilusão de que eu faço parte do time.

Porque o Palmeiras sou eu. O Palmeiras é aquele pessoal que faz festa nas ruas quando ganha e continua lá quando perde, o Palmeiras é o velhinho que não tem mais saúde para suportar as emoções de uma disputa de pênaltis, mas não se importa em desafiar a morte na frente da TV enquanto o Prass se consagra. O Palmeiras é a menina que ouve absurdos a caminho do estádio e perde a fé na humanidade no meio da arquibancada, mas não desiste porque esse escudo e essa irmandade fazem parte dela. O Palmeiras é o adulto de 30 e poucos anos que superou toda a chacota da infância e desabafou na explosão do gol de pênalti do Evair em 1993.

Agora, Gabriel, você vai lá continuar a sua carreira na Inglaterra, espero que tenha êxito. Você vai lá e deixa um sonho quebrado, mais um entre milhões. Você vai lá e não faz ideia do quanto eu gostaria de ter a mesma chance. Mas eu faria diferente. Eu só iria embora se não me quisessem ou não houvesse mais nada a conquistar. Eu daria tudo para fardar esse uniforme, tudo para entrar pelo túnel do antigo Palestra Itália em uma tarde ensolarada de domingo, com o caldeirão fervendo e as bandeiras tremulando. E não vai ser assim. Não vai ser eu, não vai ser mais naquele Palestra Itália, pelo menos não nesta vida.

E aí, Gabriel, você quem sabe entenda o tamanho do arrependimento que eu sinto por você.

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