#45 — Passei a ser a lembrança do que nunca terminou

Acordei em uma manhã ensolarada de verão. Alonguei meu corpo sentado na cama. Deixei a luz que vinha da janela me encher de energia, depois de uma ou duas noites vazias. Havia um vazio em mim que não sabia onde havia perdido você. E de você, que não havia mais procurado uma forma de me encontrar.

Dei um nó no meu cabelo. Andei de cueca pela casa, evitando olhar para as paredes, os seus quadros, luminárias e as cores pastel. Olhei no armário, suas canecas ainda estão aqui. Vez ou outra tomo café nelas para lembrar se ainda ficou alguma coisa de você. E não ficou nada. Nem um gostinho, nem um cheiro, nem uma respiração presa no ar.

Tirei minha roupa. Entrei no banho. Deixei a água quente cair sobre mim. Lembro de você me abraçando nesse box que mal cabia nós dois. Que hoje cabe tanto de mim. E o tanto, hoje, é pouco. Passei a ser a lembrança do que nunca terminou. Me enrolo em uma toalha. Me olho no espelho. E dói.

Coloco uma roupa. Arrumo minha bolsa. Jogo fora algumas notas fiscais de supermercado. Encontro aqueles papéis que o seu advogado me entregou. Coloco sobre a mesa da sala. Coloco os meus óculos escuros. E mais um dia eu nego o nosso fim. E mais um dia eu te mantenho infeliz aqui.

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