#58 — A tentativa falha de ser pior por medo de deixar entrar

Estava sentado em um café bonitinho, desses que tem estilo francês, mas culinária brasileira. Andava meio desinteressado de conhecer novas pessoas. Bem fechado no meu casulo. Fazia programa com amigos e isso me bastava. E nisso eu ocupava meu tempo. Vez ou outra, como naquele momento, ia para lugares sozinho, tipo cinema, jantares e parques. Mas naquele dia foi diferente.

Do outro lado naquela sala bem decorada, entre pessoas falando alto e tomando seus cafés gourmet, tinha um olhar que me encontrava em todo o instante. Ele, com seus quarenta e poucos, procurava alguém. Não sabia se para sexo ou para algo mais sério, já tinha se desiludido bastante para esperar alguma coisa de gurizões como eu. Eu, que não me relaciono com pessoas 20 anos mais velhas do que eu, apenas entrei naquela brincadeira de olhares para alimentar o meu ego. Ele me olhava e escrevia. E escrevia.

Entre um gole e outro do meu suco. Um meio sorriso e outro. Mordida de lábios. Ele levantou e veio até a minha mesa. Respirei fundo. Vesti aquela versão sedutora, que deixo geralmente escondida atrás do guarda-roupa. Ele passou reto pela minha mesa. Parou alguns passos depois. Virou para mim.

“Estava reparando você. Você lembra muito o personagem do meu livro.”, disse ele empolgado.

Retribui com um sorriso, mesmo sem fazer ideia do porque de o personagem se parecer comigo. “O que podemos ter de parecido?”, perguntei.

“A tentativa falha de ser pior por medo de deixar entrar”, falou olhando nos meus olhos. “Prazer, Pedro!”, virou de costas e saiu.

Pedro, naquela tarde, me resumiu. Quis abraçar Pedro. Mas deixei ele ir, não fiz nenhum movimento da minha cadeira. Tem vezes que é melhor deixar ir quem tem alguma verdade sobre a gente. Daí a gente esquece quando quer esquecer. E não lida.

Mais tarde, no mesmo café, encontrei Pedro… e agradeci.

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