Além de preto, é viado

Por Leandro de Carvalho Nascimento, Analista de Projetos e membro do Coletivo Negro da TODXS

“Além de preto, é viado”.

Nem me lembro quantos anos eu tinha quando escutei essa frase pela primeira vez. Só sei que era criança demais para entender com exatidão o que essas palavras significavam, mas grande o suficiente para saber que, daquele momento em diante, a sociedade me carimbaria essas duas marcas — preto e viado!

E foi assim que eu cresci — preto e viado — tentando me esquivar de reconhecer o que estas duas identidades representavam. E olha que eu tentei muito negar estas identidades. E não me julgue por isso: me diz, quem não tentaria não ser algo que a sociedade diz que não presta? Como me deixar ser preto e viado, se tudo o que eu escutava era que ser assim era errado? Porque foi isso o que eu escutei desde cedo.

Desde o maternal escuto que eu era “todo errado”, que eu andava errado (rebolando demais), que eu falava errado (fino e esganiçado demais), que eu brincava com os brinquedos errados (brincadeiras femininas demais). E eu não queria ser errado. A gente não nasce pra ser errado!

E foi assim, fugindo de ser errado, que desde cedo fui me negando. E tudo o que era errado fui tentando manter camuflado. E, nesse processo, de tentar não ser errado, fui me perdendo de mim, me perdendo daquele lindo menino pretinho e viado.

E, essa é a parte mais triste, porque a gente aguenta tudo, o xingamento, a ofensa, a cusparada. Mas, a gente não aguenta o buraco do não ser aquilo que se é. E de tanto tentar não ser, sem conseguir, cheguei ao ponto de não querer ser nada, nem vivo.

O tempo foi passando e as opressões foram aumentando. Quando a exclusão não era por ser preto, era por ser viado. Era isso o que o mundo me mostrava, que preto e viado não serve nem pra ser amado. Serve para ser objetificado, usado, usurpado, mamado, gozado, mas não é digno de ser amado. E foi por muito tempo assim.

Se eu estava entre os pretos era diminuído por ser viado. Se estava entre os viados, era preterido por ser preto.

E dentro da cabeça a coisa não ajudava. Volta e meia me pegava pensando: sou um preto viado ou um viado preto? Sou mais preto ou mais viado? Como se fosse possível separar uma coisa da outra, se tudo é parte de uma coisa só. Mas, no fundo no fundo, acho que me perguntava isso na esperança de poder ser menos preto ou menos viado. Assim, passei pela infância e pela adolescência visto e tratado como o errado, o preto viado.

Não sei se por sorte, pelo DNA, pelo amor de Orixá, de Buda, de Jesus ou de Alah, depois de anos de diminuição, isolamento, exclusão e negação, algo dentro de mim começou a mudar. Aquele menino acovardado cedeu lugar a um homão preto e viado.

Essa reviravolta veio de dentro, porque no mundo ainda há muita gente que me vê como errado, ainda há preto que me xingue por ser viado e ainda há gay que me olhe torto por ser preto. Só que agora eu tô nem aí para quem me vê desse jeito. Quero mais é viver e ser feliz sendo esse maravilhoso viado preto!