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Coronavírus: Por que você deve agir agora

Políticos, Líderes da comunidade e lideranças empresariais: O que você deve fazer, e quando.

Ana Balbachevsky
Mar 14 · 25 min read

Esta é uma tradução do artigo original de Tomás Pueyo. O link para a Matéria original em inglês: “Coronavirus: Why you must act now” está no fim da página. Tomei a liberdade de alterar certas comparações e de falar diretamente sobre minha experiência.

Última atualização no dia 17 de Março de 2020.


NOTA: Gostaria de adicionar uma nota sobre as políticas de distanciamento social: no Brasil, poder “trabalhar remoto” é algo que uma pequena parcela da população tem o luxo de fazer. É perigoso individualizar a responsabilidade pois podemos cair em um discurso autoritário.

Como este artigo tem atinigido um público grande, gostaria de chamar a atenção para o fato de que o Estado e o mercado precisam tomar liderança e criar incentivo para que mais pessoas possam ficar em casa e não sofrer um impacto tão grande em suas economias. Devemos cobrar do governo ações que ajudem não apenas as empresas, mas indivíduos também, prinicipalmente no mercado informal.

Não devemos esquecer que o mercado informal no Brasil é gigantesco e muitas pessoas não tem seus direitos básicos trabalhistas garantidos. Abaixo você pode ver uma discussão sobre as medidas tomadas até o momento:


O que esperamos que você entenda com este artigo:

O Coronavírus chegará até você.
Ele vem chegando a uma velocidade exponencial: gradualmente e de repente.
É uma questão de dias. Talvez uma semana ou duas.
Quando ele chegar, seu sistema de saúde ficará sobrecarregado.
Seus cidadãos serão tratados nos corredores de hospitais.
Trabalhadores da área de saúde vão se esgotar. Alguns vão morrer.
Eles terão que decidir quais pacientes receberão o oxigênio disponível, e quais vão morrer sem acesso ao medicamento.
A única maneira de prevenir este cenário é agir agora. Não amanhã, hoje.
Isso significa manter o maior número de pessoas em casa, a partir de já.

Como um político, um líder da comunidade ou empresarial, você tem o poder de agir e a responsabilidade de ajudar a prevenir que a pandemia tenha um efeito pior que o necessário.

É compreensivo que tenha medo de agir agora. E se você estiver exagerando?As pessoas vão rir das minhas medidas e me chamar de dramática? E se esperarmos os outros para tomar as primeiras medidas? Será que a economia não vai sofrer demais?

Porém, em 2–4 semanas, quando o mundo inteiro estiver trancado em suas casas, cidades, vilas, quando as fronteiras estiverem fechadas, as pessoas não vão mais te criticar e sim agradecer por ter tomado a decisão correta.

Okay, vamos lá.

1. Quantos casos existirão na sua região?

Crescimento por país

O número total de casos cresceu exponencialmente até que a China decidiu tomar medidas de contenção. Porém, já era tarde, e o virus já tinha se alastrado para além de suas fronteiras. Agora é uma pandemia, e ninguém consegue parar sua disseminação

Hoje, isso é devido a Itália, Irã e Coréia do Sul:

São tantos casos provenientes da Coreia, Itália e Irã que fica difícil ver os outros países. Mas vamos dar um zoom:

Existem dezenas de países com um crescimento exponencial de casos. Hoje, a maioria deles é ocidental.

Se continuarmos nesse ritmo por uma semana, essa é a predição:

Se você quer entender o que vai acontecer, ou como prevenir a agravação dessa situação, você precisa olhar para lugares onde isso já aconteceu: China, países do leste que passaram pela epidemia SARS e para a Itália.

China

Esse é um dos gráficos mais importantes deste artigo. Ele mostra (em laranja) os números oficiais na província de Hubei, na China: Quantas pessoas foram diagnosticadas por dia.

Já a barra cinza mostra os casos reais de coronavírus. Os médicos chineses da CDC descobriram estes casos ao perguntar para as pessoas quando seus sintomas tinham começado.

Estes casos não eram conhecidos na época. Só podemos entender a magnitude da epidemia ao olhar para trás. As autoriades não sabem que alguém começou a ter sintomas, elas só saberão se essa pessoa for ao médico e for diagnosticada.

A barra laranja mostra o que as autoridades sabiam, a cinza mostra o que estava realmente acontecendo. A realidade é que no dia 21 de janeiro, quando os casos oficiais chegaram a 100, eles eram na verdade 1500. Porém as autoridades não sabiam disso.

Dois dias depois, autoridades fecharam Wuhan. Naquele ponto, o número de casos diagnosticados era de mais ou menos 400. Anote este número: eles fecharam a cidade com 400 casos conhecidos. Na realidade eles já tinham 2500 casos. Porém eles não sabiam disso.

Um dia depois, outras 15 cidades fecharam em Hubei.

No dia 21 de janeiro, quando a cidade de Wuhan é fechada, é possível ver no gráfico cinza que a epidemia estava crescendo exponencialmente. Casos confirmados estavam aumentando em número. Assim que Wuhan é fechada os números de novos casos começa a cair. Quando, no dia 24, outras 15 cidades são fechadas, o número de casos reais (cinza), estaciona. Dois dias depois, os números começam a decair, e isso vem acontecendo desde então.

É importante notar que os casos oficiais estavam crescendo ainda, porém na verdade, os sintomas estavam ficando mais evidentes e fortes, forçando as pessoas a irem ao médico, além do sistema de detecção estar mais bem preparado e ser mais eficaz.

Vamos manter o conceito de casos reais e oficiais em mente. Isso será importante mais a frente.

O restante da China estava bem organizado junto ao governo central. Isso significa que tomaram atitutes mais drásticas mais cedo. Esse é o cenário para a China (excluindo Hubei):

Todas as linhas retas são províncias chinesas que poderiam ter tido o mesmo destino de Hubei. Porém, graças medidas drásticas mais cedo, elas conseguiram freiar a epidemia de maneira mais eficiente.

No meio tempo, Itália, Coreia do Sul e Irã não fizeram o mesmo. Hoje esses países estão com um quadro muito pior que o restante da China, onde a pandemia começou.

Países do leste

Coreia do sul teve uma explosão de casos. Porém, você já se perguntou por que no Japão, em Taiwan, em Singapura, Thailandia e Hong Kong isso não aconteceu?

Todos esses países foram afetados pelo SARS em 2003 e aprenderam com isso. Eles sabem o quão letal uma infecção viral pode ser, e por isso eles levaram isso a sério desde o princípio.Por isso que seus gráficos, apesar de terem começado a crescer muito mais cedo, ainda não estão em uma situação pendêmica aguda.

Antes de seguirmos, é importante lembrar que a Coreia do Sul na verdade conseguiu conter os primeiros 30 casos. Porém, o caso de número 31 foi um “super-espalhador” que contaminou milhares de pessoas. Hoje vemos que a itália já superou os número da Coreia do Sul, assim como o Irã.

Washington

Você provavelmente já viu casos em cidades onde o número de casos cresceu exponencialmente em apenas uma semana (aqui na Holanda por exemplo em 15 dias são mais de 800 casos confirmados). Agora imagine quando os esforços de contenção não acontecem. A epidemia se torna colossal.

Vamos olhar para alguns casos como Washington, Baía de São Francisco, Paris e Madrid:

O estado de Washington é a Wuhan dos Estados Unidos. Na época em que este artigo foi escrito originalmente, já eram 140 casos. Hoje são 568.

O mais curioso é que no começo, a mortalidade em Washington era de 33%! Isso era completamente diferente do restante do mundo, onde a taxa de mortalidade era de apenas 0,5%. Como isso era possível?

A verdade é que a epidemia já estava acontecendo a algumas semanas, porém apenas os casos mais sérios começaram a ser diagnosticados e tratados. Muito parecido com o padrão que vimos no primeigo gráfico de Hubei: gráfico laranja vs. gráfico ciniza.

Esse é um problema real. Você só ouve falar dos casos oficiais. Os casos reais são muito maiores. Como podemos estimar os casos reais? Clique aqui para fazer uma cópia do modelo feito pelo autor do artigo original. Aqui ele mostra como o modelo funciona. Você pode aplicar este modelo a sua instuição, cidade e região.

Primeiro você deve olhar para o número de mortes. Se você tem casos de mortes decorridas do coronavírus, você consegue usar isso para ter uma ideia real do número de casos reais. O tempo para que o virus leve uma pessoa a falecer é de aproximadamente 17 dias, isso significa que se uma pessoa morreu no dia 29 de fevereiro em Washington, ela foi infectada perto do dia 12.

O autor utiliza a taxa de mortalidade a 1% (entraremos em detalhes depois). Isso significa que mais ou menos no dia 12/2 você tinha cerca de 100 casos, dos quais 1 foi fatal.

Agora vamos usar a média que o coronavírus se multiplica: 6,2. Isso significa que durante dos 17 dias em que a pessoa infectada adoeceu e faleceu, o casos se multiplicaram por mais ou menos 8 (=2^(17/6)). Isso significa que, se você não está diagnosticando oficialmente todos os casos, uma morte significa 800 casos hoje.

O estado de Washington teve 22 mortes até o momento deste atigo. Isso nos leva a um total de mais ou menos 16 mil casos reais — igual ao número de casos hoje (14 de março) na itália.

Para não nos alarmarmos, é importante olhar com mais detalhes para cada caso. Em washington, 19 das mortes vieram do mesmo foco. Isso significa que a doença não se espalhou tanto assim. Ou seja podemos considerar essas 19 como 1. Isso diminui o total de casos para mais ou menos 3 mil.

Travis Bedford olha para os virus e suas mutações para fazer esse cálculo. Sua conclusão é que na verdade teríamos 1,100 casos em Washington no momento das 22 mortes. Nenhuma dessas predições são perfeitas, mas a mensagem é a mesma: Não são dezenas, nem centenas de casos, e sim milhares.

Baía de São Francisco

Até dia 8, não havia nenhuma morte nesta região do globo. O grande problema dos Estados Unidos é que eles não possuem um sistema universal de saúde (como é o caso do Brasil, por exemplo). Isso significa que não existem kits o suficiente para confirmar os casos. Além disso, os kits existentes chegam a custar em torno de 1000 dólares para pessoas que não tem plano de saúde:

Jornalista Michal Hobbes declara que foi ao Hospital em Seatle e os valores para os testes do coronavírus são entre 100 USD se você tem seguro saúde e podem chegar a 1600 USD caso você não tenha seguro.

Até o dia 3 de março um número de teste foi feito em diversos países:

Na turquia, hoje com 5 casos confirmados, cerca de 10 vezes mais pessoas foram testadas em comparação com os Estados Unidos.

No caso de São Francisco, os testes eram feitos em pessoas que tinham viajado. Isso nos ajuda a saber dos casos que foram “importados”. Porém, e quanto as pessoas que foram contaminadas dentro da comunidade? É importante termos uma noção do número de pessoas que são contaminadas intra-comunidade vs. aquelas que importam a contaminação para que possamos ter uma ideia de quantas pessoas estão realmente infectadas.

Se usarmos o exemplo da Coreia, no momento em que eles tinham 86 casos, 86% destes (esses números são apenas uma coincidência) eram derivados de um contágio intra-comunitário, ou seja, as pessoas não tinham viajado nem estado em contato direto com alguém que viajou. Com isso é possível calcularmos aproximadamente o número de casos reais. Se o total de casos é 86 hoje, o número real deve ser próximo a 600.


Falar sobre como o sistema de saúde de cada país esta preparado para esse tipo de situação daria um artigo inteiro por si só.

No Brasil, o teste é gratuito graças ao SUS (sistema de saúde único). Você também pode acompanhar seus sintomas e utiizar este App: Coronavírus — SUS

Ele te ajuda a identificar sintomas e a fazer uma triagem de casa para que você saiba se deve ir ao hospital ou não.


França

A frança na época deste artigo tinha 1.400 casos oficiais, ou seja: entre 24 e 140 mil casos reais.

Para entender esse quadro, volte para o gráfico original sobre a linha do tempo em Hubei:

Se você juntar as barras laranjas até o dia 22 de janeiro, você tem 44 casos reais. Agora adicione as barras cinzas. Isso te dá o número de mais ou menos 12 mil casos. Ou seja, quando Wuhan pensou que tinha apenas algumas centenas, na verdade tinha em torno de 27 vzes mais. Se a frança diz que tem oficialmente 1,400 casos, provavelmente ela tem muito mais.

Essa matéria foi publicada no dia 10 de março: hoje (dia 14 de março), a frança tem mais de 3 mil casos confirmados: o dobro em menos de 5 dias.

Espanha

A espanha tem hoje em torno de 2 mil casos oficiais a mais que a França. Isso significa que a Espanha tem 20 vezes mais casos do que é oficialmente sabido.

Se você for fazer uma comparação com Wuhan: A cidade entrou em estado de quarentena com algumas centenas de casos confirmados. O que está impedindo a Europa de agir da mesma forma?

É importante lembrar que apesar de Wuhan ser uma província, ela abriga certa de 60 milhões de pessoas, isso é um quarto da população no Brasil!

2. O que vai acontecer quando o os casos de coronavírus se materializarem?

O coronavírus já se materializou. O Brasil hoje tem cerca de 100 casos confirmados. Isso significa que o virus já está se espalhando a semanas.

Vamos lembrar que a maioria dos casos não é sequer contada.

originalmente publicado pela BBC

(In)Felizmente podemos olhar para Wuhan e para a Itália. para entender um pouco do que podemos esperar.

Taxa de mortalidade

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a taxa de mortalidade do coronavírus é de 3,4%. Vamos contextualizar:

Realmente depende do país. Na Coreia do Sul por exemplo temos uma taxa de mortalidade de 0,6%. Já no Irã a taxa chega a 4,4%. Esse calculo é feito de duas formas:

A primeira pode subestimar — já que mais casos podem levar a morte do que os considerados. Já a segunda opção é uma hiperestimativa, já que mais casos vão fechar sem levar a morte. O que acontece é que no tempo, ambas as estimativas vão se cruzar em dado ponto em que todos os casos forem fechados.

Olhar para a China nos dá uma boa ideia dos dados reais. Hoje a mortalidade está entre 3,6% e 6,1 % dos casos. Isso se converge para mais ou menos 3,8%: é o dobro da estimativa atual, e 30 vezes pior do que a gripe sazonal.

Porém é importante levar em consideração que a realidade em Hubei e no restante de China é completamente distinta.

A Taxa de Mortalidade em Hubei vai provavelmente converger para 4,8%. No meio tempo, o resto da China será em torno de 0,9%.

O autor também analizou os dados para Irã, Itália e Coreia do Sul. Os únicos países que, até o momento de sua análise, tinham números o suficiente e relevantes.

Irã e Itália estão convergendo para 3% e 4%. Podemos entender que seus números vão também ficar em torno deste número.

O exemplo mais interessante até aqui é o da Coreia do Sul. Se você aplicar as duas fórmulas para calcular a taxa de mortalidade, você tem 0,6% (mortes/casos gerais) vs. 48% (mortes/casos fechados). O autor supõe que isso se deva ao fato de que todos estão sendo testados, o que ou subestima ou hiperestima demais a taxa de mortalidade. Além disso, a Coreia tem muitos leitos disponíveis (veja gráfico acima). A chance é que a taxa fique em torno de 0,5% dada a situação do sistema de saúde e sua capacidade de lidar com uma crise.

Também é interessante olhar para o caso da embarcação Diamond Princess: 107 casos, 6 mortes e 100 recuperações bem suscedidas. Isso nos dará a taxa de motalidade entre 1 e 6,5%.

A distribuição da variável “idade” em cada país também afeta esse quadro. Como a mortalidade é muito maior entre pessoas mais idosas, países com uma população mais velha, terão uma taxa maior do que outros e vice-versa. Além disso é importante levar em conta a umidade e temperatura — apesar do impacto desses fatores ainda não terem sido comprovados.

O que podemos concluir?

Em outras palavras: Países que agirem de forma rápida e ágil podem reduzir em até 10 vezes o número de mortes. Agir rápido e antes que seja tarde pode ajudar a conter a epidemia, evitando que ela chegue a áreas do planeta onde recursos são escassos e os sistemas de saúde são precários.

E o que os países podem fazer para se preparar?

Qual será a pressão no sistema de saúde

Cerca de 20% dos casos necessitam de hospitalização e de cuidado mais adequado, 5% necessitam de primeiros socorros e Tratamento Intensivo (UTI), e 2,5% necessitam de cuidado extremamente intensivo como ventiladores e oxigenação extracorpórea.

Esses equipamentos não são de fácil acesso e produção. Por exemplo, a alguns anos nos Estados Unidos existiam apenas 250 máquinas de oxigenação extracorpórea. No Brasil, a instalação de ECMOs só foram iniciadas em 2010. Não consegui encontrar o número de máquinas disponíveis no Brasil, se alguém o fizer, me avise que atualizo aqui.

Imaginando que temos 100.000 pessoas infectadas, muitas vão querer fazer o teste. Mais ou menos 20 mil delas precisarão de hospitalização, 5 mil necessitarão de ir para a UTI e mais ou menos 1000 vão precisar de ECMOs. Isso com apenas 100 mil casos.

Isso sem contar o restante do material necessário como roupas especiais para médicas e emfermeiros, máscaras, seringas, bolsas de soro fisiológico e por aí vai. Mesmo o sistema de saúde do país mais rico do mundo vai sofrer com essa epidemia.

O que se esperar de um sistema de saúde sobrecarregado

Se olharmos para Hubei e para a Itália, podemos ver algumas semelhanças. Mesmo construindo 2 hospitais do zero, Hubei ainda estava sob estress e completamente sobrecarregado.

Pacientes desesperados inumdam os hospitais, e qualquer lugar era lugar para tratamento: corredores, chão, salas de espera…

Funcionário do hospital ficam horas sem conseguir utilizar a roupagem necessária para se proteger, pois não existe o suficiente. Como resultado, eles não conseguem sair das áreas infectadas por horas a fio. Quando finalmente conseguem, eles desmoronam… completamente esgotados e desidratados. Não existe mais turno de trabalho. As pessoas são chamadas de volta o tempo inteiro pois eles não tem gente o suficiente para cobrir a demanda. O plantão é eterno.

Essa é Francesca Magiatordi, uma enfermera italiana que desmoronou em meio ao caos.

Isso é até o momento em que eles mesmos adoecem. Isso acontece o tempo inteiro. Os profissionais dos hospitais são os que estão contato contínuo e direto com os pacientes e sem o equipamento necessário, eles são vítimas da mesma doença. Quando isso ocorre, eles devem ficar 14 dias de quarentena. Nos melhores dos casos, você perde um profissional por duas semanas, no pior dos casos, eles morrem.

A pior situacão é na UTI. Muitos pacientes terão de dividir ECMOs… o que é impossível. Isso quer dizer que em alguns casos os médicos tem que tomar a decisão de definir quem sobrevive e quem não.

É isso que leva a taxa de mortalidade a chegar a 5%. Se não agirmos agora, faremos todos parte dessa realidade.

3. O que devemos fazer?

Vamos achatar a curva

Hoje temos uma pandemia. Não é mais possível parar ou acabar com ela. Porém, é possível tomarmos medidas hoje para evitar o pior amanhã.

O melhor exemplo é Taiwan: apesar de estar extremamente conectado a China, o país até hoje tem apenas 53 casos confirmados, e apenas uma morte.

captura do mapa do centro de estudos John Hopkins

Taiwan tomou medidas mais drásticas antes do necessário, e conseguiu conter a epidemia. Se conseguirmos conter o número de contágios, vamos assim aliviar o sistema de saúde e fazer com que quem precise de tratamento crítico, tenha maiores chances de obtê-lo. Isso diminui a taxa de mortalidade, chegando a um ponto onde a sociedade consiga ser vacinada a tempo de evitar a propagação da doença. Quanto mais nós formos capazes de postergar o avanço do contágio, menos pessoas vão precisar de tratamento em um espaço de tempo maior. E é isso que precisamos fazer agora: ganhar tempo.

Como fazemos isso?

Isolamento Social

A parte mais simples é essa: menos pessoas na rua, menos pessoas circulando em locais públicos, menos multidões aglomeradas.

Volte novamente ao gráfico de Hubei:

Assim que a cidade de Wuhan entrou em quarentena, os casos começaram a cair. Isso é por que menos pessoas interagindo umas com as outras significa menos contágio. Isso ajuda a conter os casos, nos ajuda a identificar casos e tratar doentes.

De acordo com o consenso científico atual, o virus viaja até 2 metros quando alguém tosse. Se huover uma distância maior, as particulas caem no chão e não infectam as pessoas.

A segunda forma de infeccão é por superfíces. O virus sobrevive até 9 dias dependendo da superfíce. Isso significa que portas, acentos, apoios nos ônibus e metrôs são vetores de alto contágio. A única maneira de impedir que o virus se propague é fazer com o maior número de pessoas fique em casa, pelo maior tempo possível, até que a situação melhore. O mesmo aconteceu em 1918, com a gripe espanhola.

Este gráfico mostra a relação entre número de mortes e o tempo que levou para que medidas de saúde públicas fossem tomadas:

Com a Itália atualmente não é diferente. Primeiro fecharam a região de Lombardia, mas finalmente descobriram que precisam fechar o país como um todo. A Itália está atualmente em total quarentena. Assim como em Wuhan, o tempo para que possamos ver real declínio no número de casos oficiais (laranja) é de mais ou menos 10 dias.

Como os políticos podem contribuir para o distanciamento e isolamento social?

A discussão política atual é: o que devemos fazer e quando?

Existem inúmeros estágios de contenção de uma epidemia, o importante é antecipar as necessidades para chegar mais rápido a mitigação. Hoje infelizmente já é tarde para muitas medidas serem tomadas, com o nível de casos no mundo: é preciso agir agora.

Contenção

A contenção é necessária para que se possa identificar, controlar e isolar os casos. É o que Singapura, Hong Kong, Japão e Taiwan fizeram e ainda estão fazendo. Rapidamente limitaram o número de pessoas entrando, identificaram os doentes e imediatamente os isolaram. Além disso, eles localizaram todos os possíveis contagiados e os colocaram em quarentena. Isso funciona extremamente bem quando você está preparado para isso, e consegue tomar as ações cedo. Isso evita que sua economia pare, evita pânico social.

Isso não é o que os países ocidentais estão fazendo. E agora é tarde. Os Estados Unidos fecharam suas fronteiras com a Europa a poucos dias. Porém, o país já tem 3 vezes mais casos do que Wuhan quando o as cidades foram fechadas na época do pico da epidemia. Será que é o suficiente?

Ambos os gráficos abaixo mostram que não. O prmeiro nos mostra uma estimativa de um quadro com restrições de viagem:

Os tamanhos das bolhas mostram o número de casos diários. A linha superior mostra os casos se nada for feito. As outras duas linhas mostram o impacto se 40% e 90% das viagens forem eliminadas.

O segundo gráfico mostra a redução de transmissão, ou seja, não apenas fechamento de fronteiras mas também isolamento e distanciamento social:

Como podemos ver, no primeiro gráfico não vemos uma diferença tão grande assim. Já no segundo, percebemos que o quadro fica outro.

No segunmdo gráfico, o bloco superior é o mesmo que você já viu antes. Os outros dois blocos mostram taxas de transmissão decrescentes. Se a taxa de transmissão diminuir em 25% (através do Distanciamento social), ela nivelará a curva e atrasará o pico em 14 semanas inteiras. Reduza a taxa de transição em 50% e os resultados são incríveis.

O fechamento das fronteiras é necessário e bom. Infelizmente, somente isso não vai adiantar de muita coisa. Isso nos dá alguns dias. Uma vez que existem centenas ou milhares de casos crescendo na população, impedir que mais ocorram, rastrear os existentes e isolar seus contatos não é mais suficiente. O próximo nível é a mitigação.

Mitigação

A mitigação requer grande distanciamento social. As pessoas precisam parar de sair para diminuir a taxa de transmissão (R), de R = ~ 2–3 que o vírus segue sem medidas, para abaixo de 1, para que eventualmente desapareça.

Essas medidas exigem o fechamento de empresas, lojas, transporte coletivo, escolas, imposição de bloqueios … Quanto pior a sua situação, pior o distanciamento social. Quanto mais cedo você impuser medidas pesadas, menos tempo precisa para mantê-las, mais fácil é identificar os casos de infusão e menos pessoas são infectadas.

Nossa, mas isso não é exagero?

Isto é o que Wuhan teve que fazer. Isto é o que a Itália foi forçada a aceitar. Porque quando o vírus é galopante, a única medida é bloquear todas as áreas infectadas e parar de espalhá-lo de uma só vez.

Com milhares de casos oficiais — e dezenas de milhares de casos verdadeiros — é isso que países como Irã, França, Espanha, Alemanha, Suíça ou EUA precisam fazer. Isso é o que o Brasil deveria começar a fazer.

Todas essas medidas desacelerarão o vírus. Eles reduzirão a taxa de transmissão de 2,5 para 2,2, talvez 2. Mas não são suficientes para nos deixar abaixo de 1 por um período de tempo sustentado para interromper a epidemia. E se não podemos fazer isso, precisamos chegar o mais próximo de 1 pelo maior tempo possível, para nivelar a curva.

Portanto, a pergunta é: quais são as ações que poderíamos estar tomando para diminuir o R (taxa de transmissão)? Este é o menu que a Itália colocou na frente de todos nós:

Dois dias depois, eles acrescentaram:

“Não, de fato, você precisa fechar todos os negócios que não são cruciais. Então agora estamos fechando todas as atividades comerciais, escritórios, cafés e lojas. Somente transporte, farmácias e mantimentos permanecerão abertos. ”

Uma das possíveis abordagens é aumentar gradualmente as medidas, é o que estava acontecendo em São Paulo nessa sexta-feira. Infelizmente, isso dá um tempo precioso para a propagação do vírus. Se você quer estar seguro, faça-o no estilo Wuhan. As pessoas podem reclamar agora, mas agradecerão mais tarde.

Como os líderes empresariais podem contribuir para o distanciamento social?

Se você é um líder de negócios e deseja saber o que deve fazer, o melhor recurso para você é o Staying Home Club.

É uma lista de políticas de distanciamento social que foram promulgadas por empresas de tecnologia dos EUA — até agora, 493 no total.

Eles variam de permitido o Trabalho em Casa, até visitas, viagens ou eventos restritos.

Há mais coisas que toda empresa deve determinar, como o que fazer com trabalhadores horistas, manter ou não o escritório aberto, como realizar entrevistas, o que fazer com as lanchonetes … Enfim, isso vai ser determinado de acordo com a necessidade de cada empresa. Porém, tais medidas são necessárias.

No meu caso, a empresa escalonou suas decisões em questão de dias. Desde os primeiros casos na Ásia, quando implementamos as políticas de restrição de viagens a negócios para China, por exemplo, até mais recentemente quarentena de 14 dias para todas as pessoas que voltaram de países de categoria de risco 1 e 2, até que finalmente o trabalho de casa (home-office) foi recomendado e todos os funcionários dos nossos escritórios hoje podem trabalhar em casa pelo menos até o dia 31 de março.

4. Quando?

A pergunta agora é saber quando tais medidas devem ser tomadas. Qual o gatilho para cada ação. Em outras palavras quais os gatilhos para a implementação de cada medida?

Este modelo foi criado pelo autor para auxiliar nas decisões de implementação de tais medidas.

Ele permite avaliar o número provável de casos em sua área, a probabilidade de que seus funcionários já estejam infectados, como isso evolui com o tempo, e como isso deve indicar se você deve permanecer aberto ou não.

Ele nos dá respostas como:

O modelo usa rótulos como “empresa” e “funcionário”, mas o mesmo modelo pode ser usado para qualquer outra coisa: escolas, transporte coletivo…

Então, se você tem apenas 50 funcionários em Paris, mas todos vão pegar o trem, encontrando milhares de outras pessoas, de repente a probabilidade de que pelo menos uma delas seja infectada é muito maior e você deve fechar seu escritório imediatamente.

Se você ainda está hesitando porque ninguém está apresentando sintomas, saiba que 26% dos contágios acontecem antes que haja sintomas.

Você faz parte de um grupo de líderes?

Esses cálculos parecem ser individuais pois levam em conta apenas uma instituição específica. Parece egoísmo utilizar um algorítimo para determinar o seu risco de fechar seu negócio.

Porém, se você faz parte de uma liga empresarial, uma associação nacional de universidades, você deve olhar para o todo. A matemática é: qual a possibilidade de qualquer pessoa ser afetada? A hora de agir é agora.

Conclusão: O custo de se esperar

Pode dar medo tomar decisões hoje. Mas você não deveria pensar assim.

Esse modelo teórico mostra diferentes comunidades: uma não toma medidas de distanciamento social, uma toma no dia n de um surto, a outra no dia n + 1. Todos os números são completamente fictícios (o autor os escolheu para se parecer com o que aconteceu em Hubei, com ~ 6k novos casos diários na pior das hipóteses).

Eles estão lá apenas para ilustrar a importância de um único dia em algo que cresce exponencialmente. Você pode ver que o atraso de um dia atinge o pico mais tarde e mais alto, mas os casos diários convergem para zero.

Mas e os casos cumulativos?

Nesse modelo teórico que se parece com Hubei, esperar mais um dia cria 40% mais casos! Então, talvez, se as autoridades de Hubei tivessem declarado o bloqueio em 22 de janeiro em vez de 23 de janeiro, elas poderiam ter reduzido o número de casos em 20k.

E lembre-se, estes são apenas casos. A mortalidade seria muito maior, porque não apenas haveria diretamente 40% mais mortes, mas também haveria um colapso muito maior do sistema de saúde, levando a uma taxa de mortalidade até 10 vezes maior como vimos anteriormente. Portanto, uma diferença de um dia nas medidas de distanciamento social pode acabar explodindo o número de mortes em sua comunidade, multiplicando mais casos e maior taxa de mortalidade.

Esta é uma ameaça exponencial. Todo dia conta. Quando você está atrasando uma decisão por um único dia, talvez não esteja contribuindo para alguns casos. Provavelmente já existem centenas ou milhares de casos em sua comunidade. Todos os dias em que não há distanciamento social, esses casos crescem exponencialmente.

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Este artigo foi originalmente publicado por Tomas Pueyo em inglês. O mesmo artigo já foi traduzido para mais de 13 línguas, e eu achei que deveríamos ter uma versão em português.

Pessoalmente vi como as coisas se escalaram em questão de dias em Amsterdam, cidade onde moro e trabalho na Holanda. Dentro do meu próprio trabalho, onde lido com RH e Facilities, as políticas internas em relação ao coronavírus mudaram as vezes mais de uma vez por dia! Eu vi pessoalmente a liderança tendo dificuldade de entender não só o impacto que isso causa no negócio como um todo (trabalhadores horistas, produção, logística etc), mas também em descobrir qual a medida certa e quando agir.

Na quarta-feira estavámos discutindo a possibilidade de trabalhar de casa. Chegando do trabalho recebo essas fotos de uma amiga:

A Holanda esperou talvez demais para agir. Agora o que poderiam ter sido medidas de prevenção, geram caos e pânico, pois o escalonamento é gigantesco. De uma hora para a outra, medidas são tomadas e autordades voltam atrás em suas decisões.

Depois, conversando com meus familiares no Brasil eu vi acontecer com eles exatamente o que aconteceu comigo. Primeiro você acha tudo um exageiro: não vamos causar pânico. Porém, em questão de dias ficou claro que não é exagero. Precisamos agir agora. Fronteiras foram fechadas, escolas também e pessoas estão trabalhando em período integral por tempo indeterminado de suas casas.

Pessoas próximas chegaram a chamar de irresponsável a ação de certas organizações e instituições de fechar, cancelar eventos, cancelar aulas. Porém, espero que este artigo ajude-as a entender que não devemos ignorar esse problema, e quanto antes agirmos, melhor. Quanto mais ações de distanciamento social puderem ser implementadas agora, menos choque a economia vai sofrer, mais rápido vamos conseguir mitigar esta doença, e menos nosso sistema de saúde pública vai sofrer.

Para saber um pouco mais sobre a cronologia dos eventos e as reações governamentais brasileiras, clique aqui.

Até quando vamos esperar para tomar ações para prevenção do contágio?


Texto, modelagens e imagens originais de Tomás Pueyo. O artigo original foi publicado em inglês.

Tomas Pueyo

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Feminismo, política, e uma vida entre moinhos de vento, tulipas e bicicletas | Brazilian feminist living in Amsterdam

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