Perspectiva dos homens negros da periferia e sua influência

Victor Hugo Barreto
Aug 14 · 9 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

A desconstrução começa com uma mudança de perspectiva. Quando você percebe que o seu olhar é só mais um olhar dentro de várias outros olhares possíveis. Outras falas, tempos e narrativas. É preciso prestar atenção no que esses outros pontos de observação podem nos ensinar.

Um movimento observador criativo é como o convidado do Sandglass dessa semana, Levi Souza Novaes, define o trabalho no coletivo do MOOC. O propósito é o de trazer a realidade da periferia para o centro de inovação do mercado, de buscar soluções sob o olhar do jovem negro. Levi vem compartilhar conosco como ressignificar, conectar e revolucionar podem ampliar acessos e dar voz de protagonismo a novos contextos.

Sandglass ⧖ Torus : Perspectiva / Levi Novaes

Levi Novaes é Knowledge Leader, faz parte do MOOC, coletivo criativo que nasceu em São Paulo, também é um dos responsáveis pelo CLAN, uma das unidades da FLAGCX, além de fazer parte de vários outros projetos. A conexão entre essas múltiplas frentes foi um dos pontos do nosso encontro.

Percurso

Levi nos conta que veio do universo da dança e que sua primeira profissão de fato foi a de dançarino. Começa nos contando isso, porque vê justamente nessa paixão aquilo que o impulsiona para outras coisas do mundo e para percebê-lo de uma forma diferente.

“A dança move o mundo para mim. Não só enquanto conexão com o corpo ou como profissão, mas como um todo, com as pessoas e com o meio ao meu redor. O hip hop, por exemplo, faz parte da construção de uma identidade, é algo para além dos estilos musicais ou de dança. Ali você vê que tem pessoas parecidas com você, dentro de um contexto e que essa identificação pode evoluir para outros assuntos”

E depois da experiência em uma série de trabalhos, de funcionário público a modelo, sempre procurou aliar atividades em áreas diferentes. Acredita que múltiplas atividades são mais estimulantes e ampliam a sua habilidade de comunicação.

Ao terminar os estudos passou por um período de desconforto na qual tinha dificuldade de se ver em alguma posição, já que pouco via de pessoas negras ocupando lugares que desejava ocupar. Buscava também uma forma de inserção profissional muito mais pautada pela troca do que por uma cadeia de ordem e comando.

“Eu prefiro muito mais que as pessoas possam aprender umas com as outras. Eu tento pegar um ponto de cada uma dessas relações para ampliar meu repertório e o quanto de conhecimento que eu consigo expandir para a minha vida e o quanto eu consigo replicar”

Um dos trabalhos icônicos do MOOC para o Black History Month, junto da Nike

O MOOC

Essa situação de incômodo da falta de representatividade e a necessidade de se expressar criativamente de alguma forma a partir desse lugar de jovem negro compartilhada com outros amigos foi o que levou ao surgimento do coletivo MOOC em 2015. Aquilo que começou com o objetivo de fazer uma festa que promovesse criativos negros e periféricos se tornou um agente de transformação na publicidade e comunicação ao trabalhar com grandes marcas como Nike e Budweiser e empresas como Conspiração Filmes.

O significado do nome já aponta seu propósito:

Movimento= Movimentar as pessoas a novos olhares, diferentes pontos de vista através da estética do nosso trabalho, influenciar.

Observador= Absorver atualidades do mercado e do contexto social, e transformar isso em produto e material, se afiliar e apadrinhar pessoas talentosas que abracem a visão do projeto.

Criativo= Por si só já diz o efeito. Alavancar todo e qualquer cenário criativo seja ele na arte, na moda, no Design, no Digital, na fotografia e no audiovisual, seja através de um conceito ou produto nosso, ou de algo já existente, mas dentro do nosso olhar). Sendo assim, nos tornamos o MO.O.C.

Levi destaca que o coletivo Papel & Caneta, com o conector André Chaves, foi fundamental na tarefa de reformular o MOOC, formado atualmente por oito jovens negros e brasileiros, cada qual com sua área de expertise, para que pudesse apresentar-se às agências e parceiros em potencial. Durante 48 horas, estrategistas e criativos reconstruíram a comunicação social do grupo e deram um workshop sobre propósito e de que maneira poderiam entrar em contato com o mercado a partir do que eles tinham potencial. O resultado foi positivo: pouco tempo depois do “treinamento”, MOOC fez trabalhos para Africa, R/GA e F/Nazca.

“Esse processo serviu para a gente se enxergar novamente, só que dessa vez dentro de outro contexto, o do mercado. O MOOC é muito sobre conexões, então eu me coloco como conector e estrategista ali, porque a partir das conexões, geramos coisas maiores. Meu nome é Levi e Levi significa união. Minha mãe sem saber tinha me destinado a alguma coisa.”

Campanha da Avon feito em parceria com a MOOC

A potência da conexão

Conexão aqui é uma forma de criação. De se aproximar e relacionar pontas e realidades que de outra forma não teriam contato. Para estabelecer essa comunicação é preciso decodificar e ter a capacidade de utilizar códigos dentro da linguagem que se queira impactar, de uma maneira que os dois lados entendam aquilo que se quer dizer.

“Isso é comunicação: pegar dois pontos e entender como eu consigo trabalhar eles para que todo mundo se compreenda dentro de suas particularidades e diferenças. Essas diferenças é que fazem essas aproximações serem muito ricas”

Foi de entender o potencial criativo da conexão que Levi também se aproximou da proposta de rede em disrupção da FLAGCX e começou a atuar como líder de conhecimento. Seu papel é entender como utilizar todas as suas habilidades para passar conhecimento aos outros, dentro de sua história de jovem negro da periferia no meio de pessoas brancas e sua trajetória em constante aprendizagem.

Ao apontar que é preciso estar aberto para os questionamentos que as trocas e diferentes perspectivas promovem, Levi afirma que hoje a vanguarda da comunicação busca humanizar processos através de um “pensar diferente”. É aí que surge a estratégia de cocriação, que permite ressignificar conceitos engessados a partir da escuta ativa (abertura para com o outro, atenção plena sobre o que a outra pessoa deseja expressar) que dá espaço ao “lugar de fala”. Não é se apropriar da vivência das outras pessoas, mas chamá-las para estarem junto na criação daquilo que se quer entender. Usar o potencial de conhecimento e habilidade de cada um.

“O mundo que a gente quer construir é sobre pessoas incríveis conectadas”

Mudança de perspectiva para mudanças efetivas

Levi destaca que seu objetivo já está um passo adiante ao de levar o debate sobre a diversidade e da representatividade de raça e classe para marcas e empresas. O interesse é também nas mudanças efetivas. Em construir acessos, fazer com que esse trabalho volte para a periferia em forma de oportunidades.

“Eu já comecei a entender de negócios e de publicidade e agora é meu papel replicar isso em acesso. Quanto mais próximo o MOOC se vê desse mundo dos negócios, mais percebemos a importância de voltar e se reconectar com a periferia. Não pode esquecer e não pode perder esse ponto de realidade, porque é isso que faz sentido para o nosso trabalho: utilizar o que aprendemos para acelerar esse processo de quem está lá na perifa produzindo, empreendendo e etc.”

“Utilize os seus acessos para impulsionar novas realidades do futuro”

A mudança de perspectiva pode ser radical. O que hackers, piratas, o senso de negociação de pessoas que passaram antes por atividades como o tráfico podem nos ensinar sobre economia e aprender a aplicar esses conhecimentos em formas de empreendedorismo social?

Uma dica de referência que aprofunda essa ideia sobre o que podemos aprender das economias informais é a pesquisa “A economia dos desajustados” realizada por Alexa Clay e Kyra Phillips.

O poder das microrevoluções

Para Levi, as conexões geram as microrevoluções. E isso tem uma relação com o mercado de influência, na medida em que não é o número de seguidores que fazem com que você seja efetivamente ouvido e compreendido. Não em termos de impacto e engajamento.

O que vai fazer a diferença não depende da quantidade nem de uma fórmula única, mas sim da qualidade da mudança ainda que no nível micro. São essas microrevoluções que desencadeiam um impacto positivo efetivo.

Sarah Brito: “Eu concordo muito com a potência dessas microrevoluções. Nós somos o maior país em diáspora africana do mundo e existem diferentes experiências do que é ser negro no Brasil. Na periferia de São Paulo é uma coisa e no interior da Bahia é outra. Acho que ainda temos não só muito a aprender e diferentes pontos de vista que precisam ser conhecidos, como também vejo esse movimento do MOOC servindo de inspiração para outros movimentos no Brasil profundo”

Levi Novaes: “Mais do que inspirar eu venho pensando muito num formato no qual se tenha células de pessoas em diferentes lugares. Um desses desafios é: Como eu faço para ter uma célula que vai replicar a identidade, o movimento e um método Mooc? Ainda não tenho respostas, mas acho importante essa movimentação o quanto antes.”

A representação negra

Levi aponta o quanto o debate sobre a representatividade se deu a partir de um engajamento e feedback maior das populações minorizadas, fruto de um processo de conscientização e ascensão. Se as pessoas (de um comercial ou propaganda) falam algo e a marca não entrega aquilo que está sendo dito, surge uma série de problemas no que se refere à estratégia de comunicação. E, quanto mais engessada uma marca, mais fadada a quebrar ela está — à medida que erra e pede desculpas, mas começa a insistir no erro, vai perdendo crédito junto ao consumidor, mesmo que acerte no futuro, porque tem a reputação afetada.

Celebração da Consciência Negra com Instagram, MOOC e Mynd8

Apenas no Brasil, a população negra (54% da população total do país) em 2018 movimentou 1,7 trilhões de reais em consumo, enquanto que a sua presença em propagandas, campanhas e outras obras de divulgação permanecem sub representadas. Em números sobre o empreendedorismo, a população negra também é maioria.

“Está acontecendo uma inversão de mercado real e não só de valores. Daqui a um tempo não vai se sustentar nenhum tipo de discurso que não faça sentido ou que não represente essa população”

No encontro desta semana aprendemos a importância de desenvolver processos diferentes do padrão que se apresenta no meio das marcas e empresas em sua comunicação há muitos anos. Vivemos um momento crucial para gestores e empreendedores no Brasil. Sabemos que os velhos modelos não funcionam mais, no entanto é difícil encontrar novos caminhos em um ambiente em constante transformação. Aprendemos que uma das possibilidades é a conexão como forma de cocriação.

Levi Souza Novaes, Gustavo Nogueira (Gust), Andréia Rocha, Victor Hugo Barreto, Felipe Meres, Vinicius De Paula Machado, Fernanda Sigilião, Fabiano Carvalho, Rodrigo Turra, Sarah Brito, Carolina Coroa

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)