Colagem por Khan Nova

Afrofuturismo: olhar o mundo de um ponto de vista afrocentrado

Victor Hugo Barreto
Apr 17 · 7 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Sarah Brito e Rodrigo Turra;
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

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Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Nossa primeira convidada foi a Morena Mariah. Morena, além de midióloga e estrategista de comunicação, atua em projetos sociais e participa ativamente na produção de conteúdos voltados para o debate da questão racial, principalmente na concepção do Afrofuturismo.

Já sentiamos que havia sincronia entre nossas ideias e ideais a favor de perspectivas mais empáticas, abertas e plurais. No melhor uso de nossa memória sobre o passado como de nossas projeções de futuro a favor de transformações no tecido da realidade aqui no presente . E, com esse encontro, oficializamos a parceria que torna o Afrofuturo uma iniciativa parte integrante da Torus. Aproveite a leitura.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Sandglass ⧖ Torus : Afrofuturism com Morena Mariah

O Afrofuturismo permite a possibilidade da experimentação de uma percepção temporal distinta. Uma lente “deseurocentralizadora”. Ao propor um deslocamento de perspectiva atravessado pela questão racial, ou seja, ao propor olhar o mundo de um ponto de vista afrocentrado nos proporciona uma lente para um passado até então invisibilizado, para entender as questões do presente e para futuros possíveis.

“Em diálogo com uma metáfora trazida pelo intelectual brasileiro Hamilton Borges: a gente tem que escolher olhar os eventos históricos ou de dentro da caravela ou com o pé firmado no chão. A afroperspectiva é quando a gente sai de dentro da caravela e nosso olhar vai para o chão, observar quem está chegando. Perceber que antes dessa caravela chegar tem outra história: do que que veio antes desse processo colonial, no que ele impactou e quais são as respostas possíveis. Que tipos de atividade, engajamento ou ação são importantes nesse momento histórico agora para que esse futuro seja diferente.”

Com qual lente você vai olhar para a História?

O Afrofuturismo foi um conceito criado nos anos 1960 nos EUA e que só foi retomado enquanto movimento nos anos 1990 atravessando as mais diferentes áreas científicas e sociais: filosóficas, estéticas, históricas, dentre outras. Os pensadores e criadores do afrofuturismo procuram estabelecer uma crítica à História que sempre foi contada para todos nós. Ou seja, uma história que tomou o ponto de vista branco hegemônico como central. Para isso, interrogam, reexaminam e provocam a partir de um lugar afrocentrado e de uma população que sofreu contínuas diásporas.

Afrofuturismo: a conexão entre ancestralidade africana e futurismo

Renascimento africano

Ainda que o afrofuturismo tenha alcançado um público maior a partir da sua produção e influência estética (o sucesso alcançado com o filme “Pantera Negra” cheio de referências afrofuturistas talvez seja o maior exemplo disso), nossa aprendizagem nesse encontro também abarcou uma potência maior que o movimento permite.

Pantera Negra (2018)

A lente afrofuturista permite uma visão singular sobre o tempo e sua potência de transformação. Não só porque aponta um novo olhar para o passado e seus efeitos no presente, mas também porque faz isso na construção de um discurso e uma estética voltada para o futuro, em um diálogo atravessado com a tecnologia e a ficção científica. Como afirma Morena, trata-se de um movimento de “Renascimento Africano”.

Morena Mariah

“O afrofuturismo que eu reivindico, que tem uma potência grande, não é uma visão só política, filosófica, cultural, um movimento estético ou artístico, mas é uma visão de mundo: se enxergar como povo negro e entender o estado de coisas em que a gente está inserido e como elas chegaram até aqui. Ou seja, conhecer o passado e como ele nos trouxe ao momento em que a gente está”.

Ações de empoderamento negro

Afrocentricidade

Em nosso encontro, Morena alertou para o quanto o processo de contato com o pensamento afrocentrado é doloroso e libertador ao mesmo tempo, já que envolve um mergulho em si mesmo e nas raízes de sua história, uma viagem de autoconhecimento com poder terapêutico e empoderador. A compreensão da questão racial, a importância de uma posição anti-racista, o esforço de pesquisa e conhecimento praticamente etnográfico sobre o que é fazer parte de uma população diaspórica.

A busca pelas referências de uma história que foi e continua sendo invisibilizada constantemente tem um caráter quase arqueológico. É preciso uma escavação cultural para que essa história, essas narrativas outras venham à tona. Ao mesmo tempo permite uma experimentação de metodologias, já que é um campo ainda em construção. Sarah comentou também sobre o projeto Outros Brasis, que buscam mapear e resgatar a diversidade no país para além do eixo das grandes capitais.

Para Mariah, o maior aprendizado com relação ao Afrofuturismo está na sua potência educacional e de modificação das vidas tanto de pessoas negro-africanas, quanto de não-negras, de antídoto à uma cegueira cultural:

“O Afrofuturo é um projeto essencialmente de educação. É educação, porque mesmo que eu queira criar conteúdos de entretenimento, o objetivo desse conteúdo é educar as pessoas. E educar tanto as pessoas negro-africanos, quanto as pessoas de outras etnias, porque eu percebi que o problema das pessoas não saberem a contribuição e o legado negro-africano no mundo impacta a vida das pessoas negras, mas também a cultura, a vida e o cotidiano das pessoas em geral. Essa cegueira cultural ainda é pior para as pessoas não-negras. A partir dessa cegueira a gente adoece enquanto indivíduo, mas também coletivamente.”

Ficção afrofuturista: à esquerda, a americana Octavia Butler; ao centro, o carioca Fabio Kabral; e à direita, a também carioca Lu Ain-Zalia.

Afroperspectiva

As frentes dentro do projeto Afrofuturo desenvolvidas por Morena abarcam três campos de ação e atuação:

Primeiro campo: atividade educativa. Abrir um campo de possibilidades com um diálogo forte nas atividades e incursões educativas seja dentro ou fora das escolas, mas também nas organizações e na educação corporativa. Essa proposta traz o desafio de conseguir dialogar com públicos completamente diferentes, mas mantendo uma perspectiva única.

Segundo campo: curadoria criativa. Curadoria de referências a partir da afro-perspectiva que propõe um deslocamento do olhar sobre o mundo ao nosso redor, a cultura e a posição histórica que ocupamos, a partir dos valores africanos.

Terceiro campo: entretenimento. A produção do conteúdo em si nas redes e em diversas plataformas de comunicação que valorize, questione, provoque, ou mesmo alimente o debate a partir da afro-perspectiva.

Nessa troca de aprendizados, objetivo do nosso Sandglass, destacamos esse propósito comum entre a Torus e Afrofuturo de compor uma frente de atuação educacional para pessoas, marcas/empresas e organizações. De propor ferramentas para a aceleração das transformações no mundo. Assim como a importância de uma perspectiva integral do tempo. Morena nos aponta como essa visão temporal também passa por um olhar para a questão racial, continuamente negligenciada.

Victor Hugo Barreto


Participantes (da esquerda para direita, do alto para baixo): Victor Hugo Barreto, Gustavo Nogueira, Rodrigo Turra, Sarah Brito e Morena Mariah.

Veja outros registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

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Torus

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