Amazônia Ocupada

Victor Hugo Barreto
Sep 18 · 12 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

A Amazônia possui um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade, além de ser refúgio de povos originários que ainda resistem e de toda uma população local que busca manter a sua cultura e sobrevivência para além da disputa de terras, interesses extrativistas, descaso governamental e ameaça de destruição ambiental.

Hoje, as notícias são alarmantes: estamos vendo um dos biomas mais importantes do planeta em ameaça. Porém, sabemos realmente quais são as histórias e as perspectivas de quem, de fato, vive na Amazônia? Como podemos nos aproximar das vivências nesse território para entender o que acontece lá?

É para compartilhar a sua experiência com essas questões que a cineasta Priscilla Brasil vem para o centro do nosso Sandglass dessa semana. Priscilla é uma das fundadoras da Greenvision, uma produtora de cinema que retrata muito da cultura e vivências nos interiores da Amazônia. Atualmente está lançando a série documental “Amazônia Ocupada” e vem nos contar sobre a experiência de filmar e conviver nos interiores da região.

Informação e Visibilidade

A importância de um debate sobre a Amazônia nesse momento toma uma proporção maior se percebemos o quanto a questão da desinformação é sintomática no Brasil e no mundo. Nas últimas semanas temos visto pessoas de todo o mundo, até mesmo líderes globais, compartilhando informações sem a preocupação de que elas fossem apuradas, que dados fossem checados, que um mínimo de atenção para com os reais fatos fossem buscados.

A Amazônia, que sempre foi tida como um território distante e exótico para a maioria das pessoas, se tornou um campo de disputa de narrativas (e de interesses) que, justamente pela estratégia da desinformação, em nada contribui para um real entendimento da questão e de como pensar formas de ação para preservá-la.

Ela não se esgota quando conseguimos resolver algo. Nem quando conseguimos apagar um incêndio. E é sobre essa experiência do dia-a-dia e do cotidiano da Amazônia que buscamos trazer com as aprendizagens da Priscilla.

Priscilla Brasil é belenense, formada em Arquitetura e Comunicação e com uma série de pós-graduações em Audiovisual. É diretora de documentários que trazem um olhar mais próximo para realidades normalmente deixadas de lado. “As Filhas de Chiquita” (2006), por exemplo, aborda o conflito entre o sagrado e o profano no Círio de Nazaré e “Serra Pelada — Esperança não é Sonho” (2007) retrata a expectativa de reabertura do garimpo de Serra Pelada pela população garimpeira remanescente.

Buscando atuar de uma forma mais efetiva na representação da região amazônica foi uma das fundadoras da Greenvision, uma produtora independente brasileira com atuação no mercado audiovisual do Brasil e do exterior. Incorporando como fundamento a missão de retratar a Amazônia, a Greenvision tornou-se a produtora do Norte do país mais atuante nos segmentos de cinema, TV, videoclipes e publicidade. O foco é no desenvolvimento de projetos e na viabilização de iniciativas que incorporem a região Norte como parte do riquíssimo espectro cultural brasileiro.

“A gente sempre viveu em um apagão de informação e isso faz com que nunca compreendêssemos de verdade esse lugar. Estamos num processo de compreensão desse lugar.”

Amazônia(s)

Um dos pontos para os quais Priscilla chama atenção para a dificuldade desse processo é que a Amazônia são muitas. Entendê-la como uma coisa só não dá conta da pluralidade de lugares, culturas, povos e outros elementos que habitam na região.

“Eu digo que se a gente tentasse compreender a região pelos rios seria uma visão melhor do que tentar entender pela floresta como um todo. Porque cada rio ali é uma cultura que é muito diferente da outra. A cultura do Rio Amazonas é uma, a do Tapajós é outra, a do Xingu também, Tocantins, Madeira e por aí vai”

O que Priscilla nos ensina, dessa forma, é que cada rio, por conta da sua riqueza determina modos de viver diferentes, em ecossistemas próprios e com suas características específicas. Enquanto não houver um conhecimento mais aprofundado dessa pluralidade e riqueza de cada cultura, nossa visão do que seja a Amazônia sempre será fragmentada e distanciada.

É da necessidade de se aproximar dessa pluralidade que Priscilla iniciou o projeto de sua série documental sobre a região que busca dar conta dessas singularidades. Uma série que pudesse oferecer um panorama para além do fragmento em 13 filmes de 52 minutos.

“É muita coisa. Minha intenção foi que ao juntar todos esses fragmentos nós conseguíssemos chegar à uma compreensão geral do processo de ocupação desse lugar ao longo do século XX até agora. Entendendo quais são os pontos de conflito desses espaços”

O trabalho de Priscilla joga luz principalmente para os efeitos do movimento migratório desenfreado e mal realizado devido ao projeto desenvolvimentista criado no período da ditadura militar. Discurso esse que vemos retornar em 2019 e que desemboca nos conflitos que atualmente passaram a chamar atenção.

Um projeto monumental que levou anos para ser feito e que dificilmente seria possível nos dias de hoje. Essa impossibilidade é apontada por Priscilla por dois motivos: o primeiro pela falta de financiamento que assola o cinema nacional sob o novo governo e, segundo, porque muitas das áreas retratadas na série estão sendo devastadas hoje.

Mesmo com a série já filmada Priscilla encontra também diversos empecilhos para seu lançamento, como a recusa em sua exibição na TV pública.

“O incômodo de se publicizar uma série dessas é óbvio. Como o governo vai explicar 13 episódios de 52 minutos falando sobre ocupação de terra, regularização fundiária, MST, conflitos fundiários e todas as confusões que não querem que sejam ditas. Como se explica isso na TV pública brasileira?”

Jogar luz sobre informações que são desconhecidas da maioria das pessoas, de fato, traz um desconforto na qual organizações e instituições precisam responder de alguma forma. É como nos damos conta da realidade em que vivemos.

Crise atual

O que Priscilla nos mostra é que as questões daquela região estão para além dos incêndios. As queimadas são sintomas de conflitos muito mais profundos e de um intencional desencontro de informações. Listamos ao final do texto alguns pontos e referências, compartilhados conosco pela Luísa Fedrizzi, e que possam jogar uma luz no entendimento da atual crise da região.

A tradução de diferentes realidades

“Vemos mais uma vez essa distância entre uma imagem lúdica da Amazônia e a sua realidade. Precisamos ver a região para além dessa coisa de uma floresta selvagem, nativa, intocada, que precisa ser preservada, fruto de uma perspectiva colonialista e não esquecer que existem lá cidades, comunidades, povos, migrantes, muitos sem contar com uma infra-estrutura necessária. E que mesmo assim esses povos não estão aguardando uma salvação branca, eles já sobrevivem dentro de um cenário possível com os desafios que não vem de hoje.” — Gustavo Nogueira (Gust)

O desafio de uma tradução, de aproximar a realidade de uma região específica para outras pessoas é a base para uma ação conjunta. Como traduzir aprendizados em narrativas que façam sentido para além da região?

“A única forma de fazer isso é tendo muito respeito por quem você está traduzindo. A tradução é uma das coisas mais difíceis, porque é uma prerrogativa do colonizador. Numa perspectiva pós-colonial nós traduzimos para quem tem poder. O que eu busco fazer é a tradução dos dois lados, trazer para a comunidade também o outro lado. Meus filmes precisam funcionar tanto para pessoas de fora do país, mas principalmente para as pessoas da comunidade.”

Para Priscilla é importante que as comunidades representadas alcancem os seus objetivos também através de seus filmes. Alguns de seus documentários já foram utilizados como documentação em processos de análise de posse de terras, por exemplo, o que ajudou na resolução de certos conflitos. Esse seria um dos efeitos positivos desejados no processo de tradução e representação de comunidades em situação vulnerável.

Lembramos recentemente o esforço da cineasta Petra Costa em traduzir como chegamos ao cenário político atual com o documentário “Democracia em Vertigem”, ali adotando uma linguagem em primeira pessoa, justamente para apontar a dificuldade de se representar diversos pontos de vista.

Quando o Outro fala

Priscilla também nos conta de importantes iniciativas nas quais os próprios indivíduos são responsáveis por sua tradução ou na qual ela não se perca. Nos conta de um atual projeto colaborativo em duas partes: de um primeiro filme todo falado em língua kayapó e feito pela população local de mulheres kayapós com tecnologias como VR e de um segundo filme (de sua autoria) sobre o processo de realização do primeiro.

“É hora de pensarmos nas vozes que estão dentro da floresta. A questão das populações nativas é prioritária. É hora de ouvir as populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e tradicionais. E colocar essas pessoas para gerar as próprias narrativas sem tradução”

Um lugar do meio, dessa forma, que permite não só a experimentação na tradução, mas também nos recursos de multilinguagem e de ferramentas tecnológicas que possibilitem que essas vozes alcancem outros lugares. Um lugar do meio que não se trata de um intermediário, mas de um canalizador e colaborador, da oportunidade de uma plataforma para que essas histórias sejam contadas e que essas vozes sejam ouvidas.

“A gente precisa fazer os instrumentos chegarem nas mãos deles. Porque também são sociedades em transformação. Você tem todos esses fatores externos de pressão sobre essas sociedades e ao mesmo tempo você vê fatores internos fervilhando, como na questão de gênero, com caciques mulheres, por exemplo. É importante entender as contradições e complexidades que passam por toda e qualquer sociedade sem interferir e pensando maneiras conjuntas de ajudar.”

O desejo por ser dono da própria representação, por poder contar as próprias histórias surge de forma múltipla e mesmo estratégica a depender de cada uma dessas populações. Afinal, não são todas que tem acesso a tecnologias específicas ou mesmo que passaram a ter acesso a internet recentemente. O encontro com essas ferramentas também é da ordem do imprevisível e será ressignificado a partir de seus interesses específicos, daquilo que importa para eles.

Lembramos do trabalho desenvolvido pela antropóloga americana Elizabeth Povinelli e sua colaboração com o povo Karrabing da Austrália na produção de filmes de ficção científica a partir da linguagem deles.

“O que eu tento fazer para diminuir a minha interferência: primeiro, é ser humilde para reconhecer a ignorância na cultura e na linguagem do outro e, segundo, organizar uma linguagem que seja de entendimento mútuo, não a minha imposta.”

Até porque o contato com o conhecimento e aprendizagem é mútuo, já que nessas regiões também estabeleceremos relações com tecnologias e ferramentas deles, com aquilo que também nos traz estranheza.

“Nós somos criados para acreditar que essas populações são primitivas e que não sabem nada e desconsideramos todo o conhecimento produzido por eles. Sendo que o que fazemos há séculos é nos apropriar do saber desses povos, não foram só os bens e recursos que retiramos deles, mas roubamos também aquilo que eles sabem sobre esses elementos”

Ainda estamos longe de chegar a um nível de respeito pela história dessas comunidades.

Posse x Pertencimento

Priscilla busca uma posição que vá além de ver a Amazônia como posse, tal como compartilhada pelos líderes nacionais e internacionais e pela maioria de nós brasileiros, como um lugar que desconhecemos, mas que reivindicamos como donos. Nessa visão as políticas de acesso sempre visam o benefício de outros (nosso) e nunca dos próprios amazônidas e a região. Priscilla busca a posição de quem faz parte da região, de quem a vive, em uma outra lógica de pertencer.

Aproveitem para assistir o filme nacional Bacurau sobre essa ideia de dois Brasis entrando em choque a partir dessas lógicas de posse e de pertencimento.

O esforço para o qual Priscilla está chamando a atenção é para a construção de uma memória e contra o apagamento da história dessas populações, elementos essenciais para uma reflexão sobre as questões que estão acontecendo agora.

“Não existe escapatória para as questões que estão acontecendo na Amazônia e no Brasil. Não viva mais a fantasia de achar que não seremos mais atingidos pelo que está acontecendo. São questões que reverberam no mundo e em cada um de nós como células de um mesmo organismo vivo” — Gustavo Nogueira

Alguns links e referências para entender o desencontro sobre o debate das queimadas na Amazônia:

‣ sobre a média dos dados de queimadas e desmatamento dos últimos 15 anos e de como ela realmente aumentou, aqui tem uma análise bem clara sobre a forma como o governo vem divulgando os dados de forma a distorcê-los em seu favor:

‣para complementar, caso queira ir direto na fonte dos dados, nesse vídeo aqui, tem uma análise em 2 partes de todos os números das queimadas e do desmatamento monitorados e analisados pela NASA — que ajudaram a dar a repercussão global do assunto — feitos por um biólogo e zoólogo e um dos produtores de conteúdo sobre ciência mais relevantes do Brasil hoje:

‣há um grande interesse do governo em acabar com atuação das ONGs (assim como de qualquer produção científica, vide cortes gigantes nas bolsas do CNPq, por exemplo), porque elas fazem pesquisas e trazem a maior parte dos dados da floresta. Isso fica bem claro na análise que o Philip Fearnside faz nessa entrevista. Pesquisador que vive e estuda a região da Amazônia brasileira desde a década de 1970, já ganhou um Nobel da Paz e faz parte há 40 anos do Inpa. Aqui ele fala dos efeitos climáticos, sociais e econômicos do aumento do desmatamento, incluindo o desenvolvimento da população da região. Também endereça os estímulos do governo à mineração, o controle sobre o Ibama e a decorrente queda na fiscalização e também o negacionismo do governo, do presidente e do responsável que ele nomeou para trabalhar no INPE sobre o aquecimento global:

‣um contraponto ao argumento em defesa do desmatamento como forma de aumento da produção econômica através da agropecuária é explicado nessa reportagem da IstoÉ:

‣ sobre o argumento da soberania nacional e dos interesses estrangeiros na região amazônica, um dado bem simples: foi justamente no período da ditadura militar, que Bolsonaro tanto defende e admira, que houve um aprofundamento da interferência estrangeira na Amazônia — ver aqui:

‣dados sobre desmatamento e destino dos recursos do Fundo Amazônia, pelo Nexo:


Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

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