Global Illumination, Felipe Meres

Artivismo curatorial — Como descolonizar museus?

Victor Hugo Barreto
Jun 21 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Na intersecção entre arte e antropologia, mergulharemos essa semana sobre como o espírito do nosso tempo desafia cada vez mais a representação artística enquanto um instrumento de ação social. Corpos impossíveis e matérias em fuga; A linguagem da definição; A representação e seus limites; A potência das novas tecnologias; a partir desses desafios Felipe Meres nos convida a repensar os padrões que costumamos construir para tornar inteligíveis os objetos, corpos e comportamentos ao nosso redor.

Sandglass ⧖ Torus : Artivismo / Felipe Meres

Felipe Meres é artista e antropólogo, que atualmente reside em Nova York e vem desenvolvendo pesquisa em museus de antropologia no centro do debate sobre arte, colonialismo e descolonização.

Global Illumination, Felipe Meres

Em 2018, Felipe produziu um vídeo de 8 minutos sobre a instalação chamada “Global Illumination”, que trata de uma seleção de objetos pré-colombianos atribuídos pelo Museu Pumapungo a nove culturas diferentes e que são considerados como tendo qualidades antropomórficas ou zoomórficas, e características relacionadas à sexualidade. Esses objetos passaram por uma série de intervenções tecnológicas como 3D-scan e digitalização para que pudessem se criar réplicas e animações.

O vídeo medita sobre os efeitos de tais esforços e sobre as possibilidades de representações de artefatos etnográficos no presente. Ao implantar as mais avançadas tecnologias e reproduzir convenções estéticas de museus e anúncios de leilões, o filme analisa o conhecimento científico e o desejo colonial de medir objetivamente a diferença que guiou a maioria dos esforços para representar artefatos etnográficos desde os primórdios da antropologia.

Do gabinete de curiosidades aos museus

lAntropólogo em trabalho de campo. Malinowski e os trobriandeses no início do século XX.

Ciência nascida dentro dos projetos iluministas e colonialistas da Europa Ocidental dos séculos XVIII e XIX, a Antropologia se caracterizou em seu início pela criação de museus que pudessem representar o mundo em todas as suas “curiosidades” culturais.

As coleções eram pensadas como forma de representação evolucionista. Ou seja, as exposições esperavam demonstrar os supostos estágios de evolução das culturas e dos povos. Obviamente que a Europa se colocava como aquela cultura que atingiu o estágio máximo de civilização e as coleções do museu mostravam um “gabinete de curiosidades” de estágios tidos como ainda selvagens, bárbaros ou não-civilizados. O que queria dizer, tudo o que não fosse branco ou europeu. Criaram ali uma narrativa única para a humanidade. E, não custa lembrar, uma narrativa branca, masculina, eurocentrada e heteronormativa.

Ainda que posteriormente a ciência etnográfica tenha desacreditado a teoria evolucionista e que a crítica pós-colonial ainda lute por uma visão menos euro e etnocêntrica, os desafios com os museus e a representação ainda permanecem. É a própria instituição museu e sua relação com o colonialismo que precisa ser desconstruída.

A própria ideia do título “Iluminação Global”, que é também o nome do algoritmo do sistema tecnológico que permitiu o scaneamento dos objetos a partir do comportamento da luz, ecoa o projeto Iluminista do século XVIII. Em sua exposição valoriza apenas o sentido da visão, dogma da ciência ocidental moderna, a crença naquilo que só pode ser visto e capturado pelo olhar.

Projeto esse que alcança novos patamares com o que as novas tecnologias possibilitam.

“Ou seja, através de uma posição ocidental você desenvolve todo um aparato tecnológico, histórico e discursivo para você conseguir capturar e iluminar o mundo inteiro, fazer o sentido desse mundo inteiro e construir diversas enciclopédias, que são as nossas disciplinas. Isso é entendido como nossa sabedoria ocidental. É uma coisa muito ambiciosa você querer iluminar o mundo inteiro, não?”

A questão complexa que se coloca aqui é:

Como representar o Outro?

Apropriação e exotização

Afinal, essas peças são objetos de uma determinada cultura (que podem ser desde artefatos rituais, quanto ferramentas do cotidiano) e que ao fazerem parte da coleção de algum museu, precisam ser traduzidos da sua categoria nativa para a categoria ocidentalizada do museu. Para se tornar um objeto etnográfico, portanto, essas peças precisam ser transformadas em tal, serem transformadas em objeto de arte, mesmo que em seu contexto nativo não sejam entendidas dessa forma. Um processo de apropriação e exotização, colocando o Homem Branco como salvador e mesmo autor dessas obras.

“Era um racismo tão perverso que eles não podiam considerar que pessoas africanas poderiam ser artistas.”

As categorias usadas como classificação pelos museus acabam por pouco revelar do seu significado de origem e que não levam em consideração a manutenção original dele. Por exemplo, alguns desses objetos necessitam de um ritual de cuidado nativo (como orações, incensos e outros recursos que o fazem se “manter vivos”) e que morrem nesse processo de apropriação.

As inovações tecnológicas também adentram esse debate como ferramenta que possibilitaria uma apreensão maior desses objetos.

Com o discurso da conservação e maior acesso do público pela reprodução em cópias, acabam sendo agenciadas na decodificação classificatória dos museus e no debate da complexa questão sobre a posse. Afinal, a quem pertence os objetos etnográficos? Devem eles permanecer nos museus e/ou terem um acesso o mais democrático possível? Devem eles serem devolvidos a seus contextos de origem? O que seria mais democrático?

“Esse assunto não deixa de estar permeado por questões éticas e de apropriação colonial. Eu entendo que a devolução, essa repatriação dos objetos, é um caminho sem volta. Cada vez mais haverá pressão para que isso aconteça. Será que esse uso da tecnologia não é uma forma de manter o poder sobre esses objetos, uma vez que se sabe que eles não estarão mais ali? Por outro lado, vejo como positiva essa questão da conservação. Imagina se um projeto desse tivesse sido possível antes do incêndio do Museu Nacional, por exemplo.” — Sarah Brito

“Eu vejo um paralelo muito grande do desenvolvimento das tecnologias e do desenvolvimento do colonialismo. E é muito difícil você conseguir criar um espaço de completa separação. Me parece que a gente vai ter que usar a tecnologia para conseguir desconstruir o colonialismo, mesmo que essas tecnologias sejam coloniais. Ao mesmo tempo que descrevo esse uso tecnológico como a última fronteira do colonialismo, uma apropriação mais profunda dos materiais, percebo também aberturas, essas tecnologias podem ser usadas contra esse projeto colonial”.

O debate sobre a repatriação vem desde os anos 1980 e ganhou mais força recentemente com a decisão da França de devolver os objetos africanos de seus museus. E as novas tecnologias vêm sendo usadas como estratégias nesses esforços de repatriação de diversas formas. Desde mais justas como a produção de réplicas e a devolução dos originais até mais absurdas como a não devolução e apenas disponibilização de arquivos digitalizados.

“Mesmo a devolução pura e simples do objeto também não é a grande solução. Como devolver esses objetos para populações que foram exploradas nesse processo colonial e que, por conta disso, não tem as condições de manter esse acervo? Para além da devolução é preciso pensar um investimento em infraestrutura de manutenção do que está sendo devolvido” — Gustavo Nogueira

O esforço para o qual precisamos direcionar forças nesse campo, portanto, é o de pensar: “Como podemos descolonizar os museus?”

Entendendo museu aqui também como a sua história, suas estruturas e todo o aparato colonialista que a instituição museu alimentou e dispersou pelo mundo. Um esforço que envolve, dessa forma, um novo vocabulário, novas estéticas e novas formas de se fazer políticas anti-colonialistas e anti-racistas.

Uma das aprendizagens nesse sentido é a de finalmente “dar” voz e presença ao Outro.

“Temos que entender que essa mudança não vai acontecer se não trouxermos outros atores para diálogo. Esses processos de questionar a branquitude, a luta anti-racista e a descolonização dos museus, dos corpos e das sociedades se dá, por exemplo, trazendo a mulher para participar do debate, os negros, o asiático e etc” — Sarah Brito

Você já parou para pensar como a presença da mulher nos museus se restringe muito mais ao corpo representado do que nas obras de artistas mulheres efetivamente?

Daí o importante papel que o ativismo curatorial pode alcançar.

O poder da representação da diversidade, como afirma o autor David Balzer em seu livro “Curationism”.

A importância desse ponto colocada na frase já clássica da advogada e proeminente ativista pelos direitos civis nos EUA, Marian Wright Edelman, e dita no documentário Miss Representation: “Você não pode querer ser o que você não vê”. A representação vazia ou ausente de certos grupos sociais na mídia ou na arte gera uma baixa presença desses mesmos grupos em posição de poder e influência.

Devemos procurar formas, tal como aponta a curadora Clementine Deliss, de intervir nesses espaços, de apontar esses dilemas éticos e de não reforçar o processo tóxico.

E esse debate dentro do campo artístico torna-se urgente, principalmente no cenário brasileiro.

“Percebemos o impacto disso no modo como faz parte do plano do atual governo o corte em massa dos investimentos em arte, em educação e em cultura. Porque são nesses espaços nos quais construímos nossas possíveis alternativas, nossas possíveis visões de outros mundos que podem ser construídos. Com isso, o objetivo desses cortes é muito claro” — Gustavo Nogueira

Levamos em consideração a aprendizagem de que todo processo de descolonização não acontece por si só. É um trabalho em camadas e atravessado por esforços paralelos de despatriarcalização, de diminuir a desigualdade entre as classes e de repensar as relações de gênero e raça, dentre outras. Não há processo efetivo nesse sentido, que não tome o problema em conjunto.

E que também não procure quebrar a cadeia de reprodução do colonialismo artístico ao não procurar entender e valorizar a produção de populações indígenas, periféricas e locais.

Exemplos locais

É o caso recente, por exemplo, da desvalorização de trabalhos como o do artista paraense Éder Oliveira que procura questionar a representação do contexto do qual faz parte e incomoda aquilo que os cânones dizem ser arte.

“Nesse sentido lembro também do trabalho do Alexandre Sequeira, um fotógrafo que conseguiu com que sua fotografia fosse um instrumento de relação com pessoas especialmente em novos ambientes. São fotos que não apenas enquadram as pessoas, mas buscam representar as relações sociais daquele contexto, até mesmo com o artista. Isso em comunidades que têm pouco ou nenhum contato com a técnica fotográfica, como no Pará ou na Amazônia” — Georgia Cunha

Alexandre Sequeira com trabalhos da série Nazaré do Mocajuba, parte da exposição “Meu mundo (fonte: O Globo)

Uma outra aprendizagem é a de entender a possibilidade de uma lógica que vai em sentido contrário àquela dos museus e seu desejo de eterna lembrança e memória. À medida em que as pessoas podem ser protagonistas na conservação de suas memórias até o direito ao esquecimento poderá ser levado em consideração e respeitado.

Quem disse que é desejo de toda criação cultural ser eterna e colocada à mostra?

As aprendizagens de nosso encontro foram no sentido, portanto, de perceber a complexidade envolvida na necessidade de descolonização dos museus e de pensar algumas alternativas. Contra a visão colonialista de um tempo único e global, que por isso teria uma história e uma arte única, nosso artivismo buscou mostrar a possibilidade de construção de outros tempos, outras identidades, outras artes. Tempos dentro do tempo.

Participantes do encontro (da esquerda para a direita, de cima para baixo): Georgia Cunha, Gustavo Nogueira, Sarah Brito, Thayná Lougue, Rodrigo Turra, Anne Fonseca, Felipe Meres e Victor Hugo Barreto.

Felipe compartilhou também algumas recomendações de leitura

  1. Para um pouco da história do colonialismo e seus efeitos no Brasil recomendamos a biografia do país escrita pela antropóloga Lilia Schwarcz e pela historiadora Heloisa Starling:

2 . Para uma abordagem didática sobre a eugenia enquanto política pública oficial e o embraquecimento como estratégia de sobrevivência da nação, ver da também Lilia Schwarcz:

3. Para pensar o relacionamento das artes com a descolonização, conferir o trabalho da Maria Inigo Clavo:

4. Para ampliar o debate de memória e esquecimento:

PDF: Etnografia da Duração: antropologia das memórias coletivas em coleções etnográficas


Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

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