The Force of Nature, por Lorenzo Quinn

B Corps e Impacto — o poder dos negócios na sustentabilidade e inovação social

Victor Hugo Barreto
Jul 31 · 12 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

É possível um modelo de negócio que impacte positivamente tanto a sociedade quanto o planeta e que vá além do “romantismo”? Esse é o desafio que o movimento global de B Corps (Empresas B) vem enfrentando e com crescente sucesso. A expansão dessas iniciativas e seus resultados prova que é possível usar o poder dos negócios como aliado na sustentabilidade e na inovação social.

Neste Sandglass recebemos o empreendedor social Vinicius De Paula Machado. Co-fundador de associações como a GOMA e de empresas B como a Decah, as quais têm como propósito fomentar o comportamento colaborativo e estimular uma cultura de inovação. Vinicius nos apresentar um pouco mais sobre a relação entre B Corps e impacto a partir de sua trajetória de experimentações dentro desses ambientes de rede e ecossistemas de impacto até chegar no sistema B.

Sandglass ⧖ Torus : B Corps / Vinicius de Paula Machado

Impacto e mudança

Impacto e mudança são palavras-chave quando Vinicius descreve seu trabalho:

“Basicamente o que a gente faz é entregar os nossos skills, técnicas, metodologias ou frameworks para construção de ou resolução de problemas complexos ou para geração de valor de impacto socioambiental positivo para empresas, iniciativas e redes que temos contato. Como facilitadores de processos temos background variados: de abordagens mais holísticas humanizadas até metodologias mais mentais ágeis e um equilíbrio com novas práticas, novos processos e novas culturas, enfim, um hibridismo metodológico”

O objetivo, dessa forma, é na busca de novos modelos mentais que impactam mudanças. Essa mudança de modelo mental é extremamente profunda e altera nossa consciência, cultura e sistemas empresariais nos convidando a colaborar de novas maneiras.

Inteligência e criação coletiva

Tal projeto não consegue ser posto em prática por apenas uma pessoa, precisa ser um trabalho coletivo e em diferentes frentes de conhecimento e áreas.

“Esse olhar mais holístico me fez ser devoto da inteligência coletiva. Toda vez que a gente une pessoas com backgrounds e abordagens diferentes, com experiências e formas de sentir e de interpretar o mundo também diferentes, permite que a gente possa chegar a algo diverso da mesmice, um lugar distante da ‘normose’”.

Vini chama de “normose” um sintoma que ainda temos na sociedade de ter como padrão de normalidade um ideal normativo de família de comercial, de segurança financeira, de signos de sucesso e mesmo de trajetórias de felicidade.

“Quando eu falo de inteligência coletiva não estou falando de ‘pedir pizza de mussarela’. Sabe quando se está em grupo e sempre tem a opção básica da pizza de mussarela? Significa a falta de ousadia de mistura de ingredientes inusitados e o medo de experimentar sabores, cores e texturas diferentes. Majoritariamente o que vemos é que culturas organizacionais mais tradicionais tendem a jogar sempre nesse campo seguro da pizza de mussarela”

Esses processos de co-criação coletivos e mais híbridos, dessa forma, permitem a oportunidade de um aprendizado que se abre para diferentes pontos de vista. Não há inovação se as jornadas de criação, por exemplo, correspondem à repetição do ponto de vista de homens brancos héteros de classe média alta com a mesma formação educacional e mesmos interesses ou formas de interpretar a vida. Como lembra Einstein, fazer a mesma coisa sempre não gera resultados diferentes.

Inteligência coletiva também não significa apenas reconhecer pontos de vista, talentos, experiências e formas de interpretar o mundo que favoreçam uma sociedade mais justa e empática. Significa também a busca de uma construção coletiva. Cada vez mais ativar a inteligência coletiva para construir conjuntamente novas formas e oportunidades de sobreviver como espécie, principalmente nos termos de uma vida em um planeta continuamente ameaçado pelas mudanças climáticas que causamos.

O tempo da aprendizagem

Fonte: apresentação Vinicius de Paula Machado / Decah

O ato de se colocar à disposição para criar o campo da colaboração e da co-criação sempre respeitam um tempo e espaço para que essa colaboração possa se manifestar. A junção de áreas de formação diferentes demandam uma respiração de tempos de divergência e emergência. E são esses tempos de emergência que criam zonas de desconforto responsáveis pela potencialização da criação.

Portanto, toda jornada de conhecimento colaborativo deve respeitar esses tempos de divergência e convergência diferentes para conseguir, de fato, criar algo novo.

“É preciso ter cuidado com isso. Por mais que o cenário corporativo esteja ávido por comprar metodologias, abordagens e soluções mais ágeis ou adotem inovações digitais, a cultura só pode se manifestar de forma autêntica para inovar na medida que temos esse tempo e essa mistura entre processos ágeis e exercícios de colaboração profunda. Um sem o outro não tende a alcançar o mesmo resultado.”

Efeitos estruturais

Fonte: Apresentação Vinicius de Paula Machado

A mudança como propósito aqui tem efeitos na estrutura das culturas organizacionais. Busca criar não só um entendimento para que estruturas verticalizadas e departamentalizadas possam, de fato, se abrir um pouco mais para culturas criativas ou movimentos de inovação bottom-up, mas também é promover a união de dois mundos: dentro de instituições que já funcionam e que tem suas próprias lógicas criar tempos, espaços e ferramentas para que bolsões de inovação possam acontecer.

“Eu não acredito em design sprint que não tenha engajamento e comprometimento político. Não é um evento, uma experiência ou um workshop que promove uma revolução, mas sim uma jornada de entender e integralizar aqueles valores, aquela abertura e, de fato, aquilo que está sendo ideado para dentro da rotina da empresa, da instituição e da iniciativa que faz com que possamos avançar”

Da mesma forma, os modelos de negócios que se buscam acabam por ser aqueles que funcionam de forma distribuída, em rede, fugindo de um modelo centralizado que pouco dá conta efetivamente de lidar com as mudanças necessárias.

Fonte: aula Zeitgeist Navigators, módulo relógio.

Contato com conceitos fundamentais

Uma virada na trajetória de Vini foi ser convidado para participar de uma reunião de iniciativa para trazer uma franquia do Impact Hub para o Rio de Janeiro. Surgindo daí o Hub Rio que reuniu pessoas com o objetivo de construir experiências profissionais coletivas, coworking, de empreender em conjunto e de trabalho em rede.

Esse projeto surgiu a partir do cenário sociopolítico de mudanças no cenário urbano devido à recepção dos mega eventos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 e o processo de reurbanização da zona portuária da cidade carioca. Foi dessa experiência que Vini diz ter descoberto uma vocação profissional nova.

Acupuntura Urbana

Uma das principais referências usadas como inspiração para esse trabalho foi o conceito criado pelo urbanista de Curitiba, Jaime Lerner, de acupuntura urbana:

“Entendendo que o tecido social se manifesta dentro de territórios nas cidades, na medida que conseguimos gerar a ignição de negócios, de conhecimento e de outras possibilidades ali, a vida por si só ou o enxameamento de pessoas começa a gerar reflexos positivos dentro desses territórios. Ou seja, se você traz um espaço de coworking ou atrai novas startups e modelos de negócio para uma região isso vai gerar uma abundância e atrair mais pessoas e investimento para aquela região e a possibilidade de conexões para outros lados. Isso é um ponto, tal qual uma agulha faz na acupuntura no corpo físico ao ativar energias ou ignições de rede para aquele processo”.

Ficção Social

A segunda referência importante citada por Vini foi aquela elaborada pelo economista indiano ganhador do Nobel da Paz, Muhammad Yunus, a de ficção social. O conceito de social fiction é próximo também aquilo que defendemos aqui no Sandglass: a construção de um futuro desejado e a possibilidade disso ser pautado pelo poder que os negócios sociais têm de mudanças tanto econômicas quanto sociais. Negócios que tem a intenção e o propósito de resolver questões socioambientais podem nos ajudar a desenhar uma sociedade mais justa e, consequentemente, engatar outras cadeias de geração de valor mais inclusivas.

Reciprocidade Assíncrona

A terceira referência é o modelo de negócio disruptivo criado pelo Ronald Van Den Hoff, presidente e co-fundador do Seats2Meet e autor do livro “Society 3.0”, no qual cunhou o conceito de reciprocidade assíncrona:

“Ou seja, se o Vini compartilha conhecimentos, frameworks ou abordagens colaborativas para rede é bem provável que eu nem saiba quem vai estar usando, mas simplesmente pelo fato de ter colocado esse ativo disponível para uma rede, isso faz com que a reputação desse ponto da rede se torne visível e, a partir daí esse cara pode ser chamado para fazer outras coisas. É a oferta daquilo que você sabe fazer”

Modelo caórdico

Vini também nos apresenta um modelo de organização e uma forma de entender sistemas, seja um ser vivo, a psique humana ou uma estrutura social (empresa, comunidade ou sociedade), e também como a variação ao longo do espectro do caos e da ordem influenciam os acontecimentos e os resultados, o modelo caórdico.

Fonte: Apresentação Vinicius de Paula Machado

“Não existe processo criativo coletivo que já saia ou com uma abordagem pré-definida de solução ou que já saiba qual resultado final que se tem. Então, à medida que navegamos no caos e na ordem, criamos o respiro para que abordagens divergentes possam acontecer, mas permitem que também possamos convergir em algo que possa ser tracionável e entendido”.

GOMA

A Goma surgiu como resultado dessas influências e jornadas e da vontade de criar um ecossistema empreendedor em rede com pessoas que tinham afinidades temáticas relacionadas a economia colaborativa, design sustentável e inovação social. Tem esse nome por ser amórfica, expansiva e aderente. Com o modelo de uma associação sem fins lucrativos, modelo de governança e participação horizontal e circular, se instalaram em um casarão antigo na zona portuária do Rio, primeira região de ocupação na cidade, área de recepção de pessoas escravizadas e posteriormente berço de várias tradições culturais como o samba e mesmo a economia criativa.

Pioneira no modelo de casa colaborativa no país e primeira em assumir o exercício de mínima institucionalização, no caso a formatação da associação, visando a construção de um legado, justamente para ajudar outras iniciativas que queiram construir e se organizar de forma colaborativa. Uma experiência de sucesso como agente transformador e multiplicador de impactos socioambientais positivos nas mais variadas redes distribuídas.

Dica de processo de tomada de decisão: Loomio

Sistema B

O conceito das “B Corps” ou Benefit Corporations foi criado pelo B-Lab nos EUA em 2006, com a proposta de redefinir o sucesso para os negócios. Hoje, mais de 60.000 empresas do mundo todo utilizam as ferramentas de mensuração do movimento B, 120 no Brasil. A mudança de regras do jogo se baseia em três fatores principais:

Propósito: impacto ambiental e social positivo

Responsabilidade: consideração de stakeholders na decisão

Transparência: mensuração e reporte do seu triplo impacto

A união de inovação com o viés de colaboração. É assim que Vini explica como a Decah foi formada. Basicamente a dividindo em três verticais de ação:

1- negócio: desenvolver negócios com preocupações e resoluções socioambientais

2- cultura de inovação: misturar abordagens ágeis com exercícios de colaboração profunda para gerar culturas de inovação autênticas

3- alinhamento de causa e coerência institucional: entender causa e propósito a partir de um trabalho coerente

O sistema B é um movimento que pretende disseminar um desenvolvimento sustentável e equitativo através da certificação de empresas no âmbito global. A certificação é concedida após ampla análise das práticas empresariais, em todos os âmbitos, como a relação com trabalhadores, comunidade, meio ambiente, fornecedores, governo, além de práticas de transparência.

Os passos para alcançar esse certificado envolve processos de Avaliação, Comparação e Indicação de Melhoras. O certificado não é definitivo e precisa ser revalidado. Vini destaca o fato de que a certificação não é o fim de um resultado, mas sim o início de uma jornada de aprimoramento.

O crescimento pelo compartilhamento

A troca de aprendizagens trazida pelo Vini na narrativa de sua trajetória faz parte de um projeto maior de crescimento em rede com o objetivo de potencializar impacto positivo por meio de comunidades de prática /aprendizagem com foco no compartilhamento de conhecimentos, ferramentas e abordagens. Promovendo ignição de parcerias e oportunidades para empresas e indivíduos inovadores sociais com intenção de aplicação real da experiência e conhecimento adquiridos.

“No cenário sociopolitico e cultural atual e com os impactos sistêmicos que queremos promover, precisamos entender que vamos ter que navegar entre disciplina e um desejo quase incontrolável de querer desistir no meio do caminho. Os mapas não são mais os mesmos, não tem como antever as coisas, muito vai ser pautado pelo feeling e pela nossa generosidade em compartilhar oportunidades, ferramentas e conhecimento”.

Impacto, portanto, é uma confluência de dados que gera informação e consequente conhecimento ao se clusterizar gerando novos insights e que traz para nós a sabedoria e a medida com que navegamos nessa jornada compartilhando o processo e criando novas possibilidades.

“Por último, por mais caótico que seja, não esqueçam do amor e de se cuidar. É muito bonito se colocar a serviço de nossas próprias comunidades, mas se a gente não se cuida manifestamos os mesmos padrões tóxicos do qual tentamos nos afastar. Tudo o que a gente coloca no mundo e que a gente semeia, mesmo não criando expectativa volta quando menos esperamos”.

Fernanda Sigilião, Gustavo Nogueira (Gust), Barbara Machado, Victor Hugo Barreto, Vinicius De Paula Machado, Luciana Glasner, Mirella Payola, Rodrigo Turra, Francisco Estivallet, Morena Mariah

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

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Torus

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