PolyThread Pavilion, 2016, by Jenny Sabin Studio, aplicação de biomimética na arquitetura

Biomimética — a natureza como mentora de projetos

Victor Hugo Barreto
Jun 12 · 8 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Sarah Brito e Rodrigo Turra;
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

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Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Cronos e Gaia. Tempo cíclico e natureza. O que nós podemos aprender sobre a relação da humanidade com o tempo a partir da observação de todas as outras espécies no mundo ao redor? Não estamos sozinhos. E em nosso espaço seguro de aprendizado e troca, conversamos a partir do vidro de nossa ampulheta com Giane Brocco, fundadora da Amazu.Bio, e especialista em biomimética.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Sandglass ⧖ Torus : Biomimética — Giane Brocco

Biomimética é uma ciência que estuda os princípios criativos e as estratégias da natureza, visando a criação de soluções para os problemas atuais da humanidade, unindo funcionalidade, estética e sustentabilidade. O nome vem da junção das palavras gregas bíos, que significa vida e mímesis que significa imitação. Dito de modo simples, a biomimética é a imitação da vida.

Na prática não se trata de uma imitação pura e simples, é utilizar a natureza como um exemplo e fonte de inspiração, e não de apropriação. Envolve, dessa forma, um papel educacional, já que se trata de um exercício de “aprender a aprender” com a natureza.

“Como trocar lentes antigas por novas, mais sustentáveis e adequadas ao espírito do nosso tempo? Vivemos um período de transição em que precisamos readequar e reavaliar nossas indústrias e serviços. Precisamos repensar nossa liderança e nosso impacto no mundo. Somos constantemente convidados a metamorfosear quem somos e o que fazemos. Por onde começar?”

A proposta é aprender com a visão sistêmica, mais orgânica e menos linear que a biomimética proporciona, que é a visão da natureza em si. Para isso a biomimética conta com um conjunto de instrumentos que auxiliam nesse processo, tais como:

1 — uma metodologia própria: biomimicry thinking

Um framework que ajuda as pessoas a praticarem a biomimética enquanto projetam qualquer coisa a partir de quatro etapas: definição de escopo, descoberta, criação e avaliação.

2 — ferramentas específicas: life principles

São as lições de design da natureza, ou seja, representam os padrões encontrados entre as espécies que sobrevivem e prosperam na Terra. Ao aprender com essas lições profundas de design, podemos modelar estratégias inovadoras, medir nossos projetos em relação a esses padrões de referência sustentáveis ​​e nos permitir sermos orientados pelos princípios da natureza.

3 — os três elementos essenciais da biomimética:

Ethos, reconectar e emular. Um exemplo de aplicação do ethos é refletir, ao realizar o projeto de um novo produto, sobre o porquê da criação, bem como sobre a importância e o impacto que esse produto vai ter no mundo. Reconectar é uma prática e uma mudança de pensamento que explora a relação entre os seres humanos e os outros seres da natureza. Emular diz respeito à resolução de problemas por meio da bioinspiração, que, consequentemente, minimiza os impactos negativos ao planeta.

A Biomimética, dessa forma, não é só uma ideia, uma forma de olhar para a natureza como mentora dos projetos, ela também traz ferramentas de como conduzir esses processos. A proposta é usar esses instrumentos e ferramentas para enxergar soluções inspiradas na natureza.

Algumas das inspirações que a biomimética proporcionou.

“Você já imaginou um benchmark de aproximadamente 3,8 bilhões de anos de experiência para encontrar soluções inovadoras? Estamos acostumados a benchmarks de 30, 40 ou 50 anos. Mas, ao mesmo tempo, temos à disposição a fonte de todas as criações — a natureza. E ela aprendeu, há bilhões de anos, o que funciona e o que é apropriado aqui na Terra. A natureza ensina lições poderosas de como as coisas devem ser construídas para durar. É aí que entra a Biomimética.”

Gif por Micaël Reynaud

Se pararmos para perceber a natureza funciona em um modelo de economia regenerativa, ela não esgota, ela regenera, ela cria mais vida, como se fosse a partir de um mindset de abundância. A ideia é que empresas, pessoas ou lideranças olhem para esse funcionamento, aprendam e possam também criar mais oportunidades e reproduzir isso em produtos, em sistemas, em formas de gestão:

“Se você fizer a pergunta certa para a natureza, ela com certeza vai te dar uma resposta que é inteligente e que vai te trazer algum tipo de resultado ou de solução para o seu desafio. Para você buscar os insights na natureza você precisa entender a função e não necessariamente o produto final. Um exemplo: uma empresa quer criar uma garrafa de água. Como a natureza te daria uma solução criativa para isso? Talvez se ao invés de perguntar sobre o produto garrafa, você perguntasse sobre a função de armazenamento de água e como a natureza tem inúmeras respostas para isso, até o produto garrafa pode virar uma outra coisa. Daí os desafios para o biomimicry thinking e o design”.

Gaia e Cronos

A relação entre Gaia e Cronos é um dos pontos de inflexão desse debate. Como a natureza nos ensina sobre tempo e como nós, enquanto espécies, não temos como entender tempo ignorando a nossa própria natureza dentro do tempo. Pare para pensar: o tempo da humanidade não é o mesmo tempo que o da natureza.

Um filme que ajuda a entender isso é a animação alemã “Das rad”, na qual a passagem do tempo é mostrada a partir de um mesmo ponto de vista por personagens incomuns: dois montes de pedras. É a natureza observando as mudanças que ocorrem à sua volta.

Gustavo Nogueira: “Diferentes ciclos, ritmos, tempos. As coisas tem o seu próprio tempo. E só entenderemos isso quando compreendermos o tempo próprio da natureza.”

A perspectiva de tempo está presente na biomimética também quando, por exemplo, pensamos na questão de propósito e função. Para isso, podemos fazer uma conexão com as sementes, de se entender como elas.

Uma mudança de mindset para nos entender como natureza e entender os nossos ciclos de uma forma diferente. Cada semente é um potencial para determinada flor ou fruto, assim como nós seres humanos também somos sementes com diferentes potenciais e precisamos de ambientes propícios para nos desenvolver.

É importante entender e respeitar o tempo de jornada desse processo e do que ele precisa. A natureza respeita o tempo de cada ciclo e apresenta um sistema no qual todo mundo tem seu propósito e função: cada organismo desenvolve a sua função de uma forma perfeita. Com esse mindset podemos colaborar de uma forma melhor. Procurando entender a função dos organismos conectadas a nosso propósito.

Perspectiva integral

É importante destacar nessa jornada que apesar de gostarmos de nos imaginar auto suficientes, a natureza nos lembra do contrário. Estamos acostumados a nos ver como máquinas e não como organismos, deixando de ter esse ponto de vista da relação com o outro e com o mundo ao redor. Somos células vivas dentro de um organismo vivo, pulsando em conjunto.

“A gente esquece que somos natureza também”.

Viver em grandes cidades, em um ambiente que valoriza a cultura do urbano e tendo como base a inovação tecnológica por si só, faz com que essa visão mecanizada de nós mesmos se amplifique para um olhar distanciado sobre a natureza:

Felipe Meres: “É muito interessante como cada vez mais nas cidades ultra urbanas a natureza vira objeto de fetiche. É muito difícil você ter acesso por exemplo, a alimentos orgânicos (e cada vez mais caros também). Parece que as coisas se inverteram um pouco, porque as pessoas nem mais conseguem identificar certos alimentos. A natureza se tornou algo distante, exótico, que é difícil ter acesso. E como isso está virando um produto. Eu, por exemplo, fiz uma assinatura de plantas através do aplicativo The Sill, recebo em minha casa diferentes espécies de plantas com explicações sobre elas e de como cuidá-las”.

Fonte: imgur

Estamos vivendo um momento de transição para o qual há um retorno da importância de se entender os ciclos, os tempos necessários a eles e a maneira como se conectam com os sistemas da natureza. Um momento interessante para se estar, de possibilidade de troca de lentes e de escolher como vamos querer nos colocar diante da natureza e nos reconectar.

Estaríamos saindo de um século da economia (no sentido de administração da casa, ou seja, de nosso planeta) e começando o século da ecologia. De um momento de administração e uso dos recursos para um momento de conhecer a casa, o planeta Terra, não enquanto uma negação do que veio antes, mas um passo para se conhecer mais e se administrar melhor.

As ferramentas da biomimética, portanto, trazem novos mindsets tanto para marcas, empresas, inovação e tecnologia, quanto também para pessoas, gestão e liderança, tendo como lema: criar condições que permitam a vida prosperar, criar mais vida.

(R)Evolução em todos os sentidos.

Participantes do encontro (da esquerda para a direita, de cima para baixo): Giane Brocco, Gustavo Nogueira, Georgia Cunha, Victor Hugo Barreto, Felipe Meres e Rodrigo Turra.

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Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)