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Comprometimento Social no Pensamento Sistêmico

Victor Hugo Barreto
Aug 28 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Todos nós fazemos parte de diferentes sistemas simultaneamente, seja em nossa vida ou no trabalho. Quando um grupo interdependente de itens, pessoas ou processos, trabalha juntos em direção a um propósito ou objetivo comum dizemos que esse grupo forma um sistema. O pensamento sistêmico é uma forma de compreender as interações dos elementos desse conjunto e poder potencializá-las seja nas relações, negócios ou organizações.

Neste Sandglass, convidamos o Gerente de Inovação Social Gabriel Gomes para compartilhar conosco as aprendizagens e os desafios de uma “visão sistêmica” comprometida socialmente. Como esse pensamento ajuda a construir os futuros empreendedores sociais e acelerar a mudança e o impacto positivo no presente?

Gab Gomes é formado em Comunicação Social e foi diretor de projetos e de criação de duas empresas de comunicação criativas para projetos de impacto social, Shoot The Shit e Cosmonauta. Atualmente promove o desenvolvimento de dois programas que atuam como plataformas para o empreendedorismo social na Red Bull: Red Bull Amaphiko e Red Bull Basement. Também começou um mestrado em pensamento sistêmico na Open University (Reino Unido).

Sandglass ⧖ Torus : Pensamento Sistêmico / Gab Gomes

Pensamento sistêmico enquanto perspectiva

Pensamento sistêmico é a proposta de um olhar mais geral e interdisciplinar sobre o mundo ao redor. Todo sistema em si é delineado por seus limites espaciais e temporais, cercados e influenciados por seu ambiente, descritos por sua estrutura e propósito ou natureza e expressos em seu funcionamento.

Isto é, sistema é um conjunto de coisas inte-relacionadas com um objetivo. Separadas não conseguiriam cumpri-lo. Como um carro, por exemplo: nenhuma peça isolada é o carro; o carro é a relação entre todas as peças. Todos os elementos arranjados de uma determinada forma compõem esse sistema.

Pensamento institucionalizado apenas no século XX, a teoria sistêmica já aparecia na obra de diversos autores a partir da física e da biologia, mas também em diferentes áreas da ciência no passado. Toma força com o desenvolvimento tecnológico e cibernético ao se procurar entender o funcionamento homem/máquina.

É baseada em algumas idéias fundamentais. Primeiro, todos os fenômenos podem ser vistos como uma teia de relações entre elementos ou um sistema. Segundo, todos os sistemas, sejam eles elétricos, biológicos ou sociais, têm padrões, comportamentos e propriedades comuns que o observador pode analisar e usar para desenvolver uma percepção maior do comportamento de fenômenos complexos.

O que Gabriel defende é que para além de toda a elaboração teórica que o pensamento sistêmico alcançou ao longo do tempo, há um potencial de aplicação nas nossas vidas, nos nossos trabalhos, nas relações familiares ou de amizade e mesmo na forma como a sociedade se comporta.

“Pensamento sistêmico é mais do que um campo de estudos, é uma forma de enxergar o mundo, assim como as soluções e os problemas que existem nele.”

Questões complexas X Soluções simples

Gabriel destaca que muitas das tomadas de decisão hoje em dia são feitas sem pensar sistemicamente nos efeitos e nas consequências que essas decisões podem causar. Isso acontece pelo fato de que nosso pensamento está acostumado ao raciocínio linear e um pouco imediatista de causa e efeito. Uma forma de pensar construída sobre uma certa “preguiça”, já que a maioria dos problemas e dúvidas que temos que lidar são questões complexas e que demandam tempo, análise e comprometimento.

“O pensamento sistêmico não é um pensamento que serve para tudo, você não precisa responder todas as questões da sua vida com ele. Mas na maioria das vezes entender as questões pelo sistema e resolvê-las dessa forma é o melhor para todos. Principalmente se estamos falando de questões de grande impacto como mobilidade urbana, na condução da política, na forma como os negócios tomam decisões de expansão e etc.”

A solução simples para problemas complexos nada mais é do que resolver a questão em parte e jogar o restante do problema para o próximo elemento do sistema. Existem uma infinidade de metodologias, ferramentas e frameworks que procuram nos dar respostas fáceis e ágeis sobre nossas questões. É como se terceirizássemos a responsabilidade do pensar para essas metodologias.

“É preciso se perguntar: afinal, a quem atende essa frameworkização?” — Vinicius De Paula Machado

“Metodologias são tecnologias. Tecnologias são ferramentas. Qualquer ferramenta carrega em si a potência do impacto positivo ou negativo, de acordo com quem, como e por que a usa” — Gustavo Nogueira (Gust)

Existem questões, dessa forma, que merecem ser analisadas de uma perspectiva mais ampla. Principalmente àquelas que são objeto da corrente Systems Dynamics, ou seja, aqueles sistemas que estão em mudança constante ao longo do tempo, como a maioria dos sistemas sociais, por exemplo.

Roberto Martini lembra a frase de Voltaire:

“Não há uma verdade que resista a todos os homens e a todos os tempos”

Imprevisibilidade e temporalidade

Pensamento sistêmico é o nome dado a um tipo de mindset que leva em consideração a probabilidade de que uma consequência não é causada simplesmente por um evento. São vários os movimentos e os eventos que levam a uma consequência. É o oposto do pensamento simplista ou reducionista.

“Claro que há causa e efeito, se eu deixar meu celular cair provavelmente vai quebrar a tela. Não preciso de um pensamento sistêmico para imaginar isso. Mas para outras questões sim: o que acontece, por exemplo, se eu bloquear a principal avenida de uma cidade? Os efeitos disso não só serão múltiplos como a maioria deles imprevisíveis”

O pensador sistêmico procura explorar as diferentes probabilidades, consequências e alternativas que um pequeno evento pode gerar dentro de um sistema. De certa forma o pensador sistêmico é como que um futurista, já que aplica raciocínio lógico na tentativa de descobrir, prever ou analisar os efeitos de tomadas de decisões.

O movimento também pode ser inverso. Além de olhar para o futuro na busca de efeitos imprevisíveis, o pensador sistêmico também pode se voltar para o passado e buscar quais os pontos mais importantes que acabaram levando à uma determinada situação, analisando suas causas e elementos. É importante lembrar que um sistema sempre se relaciona com outros sistemas que, por sua vez, também possuem dinâmicas e tempos próprios.

Independente de qual vetor (se do futuro ou do passado), o pensador sistêmico precisa ter sempre em mente que sua análise é apenas uma perspectiva possível.

“Nunca vai existir a resposta certa para um movimento, sempre vai existir a melhor alternativa possível”

Pensamento sistêmico aplicado aos negócios

Uma das correntes do pensamento sistêmico, a Learning Systems, é a que melhor se aplica nessa interface. O objetivo aqui é desenhar sistemas de aprendizagem mais eficazes baseado na forma como coletamos e retemos informação. Se olharmos para a forma como as empresas aprendem hoje percebemos que dificilmente há um sistema de coleta de informações e de aprendizagem contínua e atentos a como os elementos dessa organização interagem entre si.

Peter Senge é o autor que mais se destaca nesse sentido ao propor aplicações do pensamento sistêmico nas organizações a partir de técnicas, frameworks e novos modelos mentais, um movimento que ele chama de “learning organizations”.

Um bom exemplo de learning system destacado por Gabriel é a própria proposta de aprendizagem do Sandglass organizado pela TORUS. Um fluxo de aprendizagens interrelacionadas que afeta e modifica todos do grupo.

Sistemicamente desejável, culturalmente viável

Muitas das transformações sistêmicas que desejamos e que sabemos que são importantes para o todo, não são culturalmente viáveis. Isto quer dizer que existe uma série de mudanças que precisam ser feitas anteriormente para a viabilidade desse processo, para que as pessoas e o meio estejam culturalmente preparadas para aquela transformação.

Dificilmente solucionaremos o sistema urbano de São Paulo da noite para o dia, por exemplo. Há uma série de variáveis incontroláveis e usos culturais próprios que as pessoas também criaram que vão além dos usos oficiais. Ao invés de dar um ultimato de que tudo imediatamente funcione de uma forma diferente, é melhor fazer pequenas transformações nos elementos do sistema, entender como elas reagem e aí sim implementá-las de fato e dar o próximo passo para outras transformações do sistema. Sem deixar de considerar as transformações inventivas que as próprias pessoas (elementos do sistema) elaboram.

Um pensador sistêmico precisa tanto de humildade (para entender que a maneira como ele enxerga o mundo é só mais uma maneira possível), quanto de paciência diante das questões.

“O próprio pensamento sistêmico diz que jogar o jogo muda o jogo. Precisamos olhar para o sistema que estamos, mexer neles e depois olhar novamente. Um ciclo infinito de teoria e práxis (prática). Esse método é muito rico para encontrar melhores alternativas para o sistema que vivemos, mas é um método que exige tempo”.

É claro que nem sempre (na maioria das vezes) o mercado disponibiliza o tempo necessário para a sistematização das mudanças mais adequadas. Nesse sentido, algumas técnicas mais “rápidas” podem começar a ajudar na resolução das questões. A primeira é organizar o sistema em um diagrama para que seus elementos e suas relações possam ser observadas de melhor forma como num mapa. A segunda é ter bem definida as fronteiras do seu sistema de atuação e as perguntas que quer fazer.

É muito melhor ter uma resposta aproximada para a pergunta certa, que geralmente é vaga, do que uma resposta exata para a pergunta errado, que pode sempre ser tornada precisa” — John Tukey, estatístico

Peter Senge: “Systems Thinking for a Better World”

Dessa forma, entendemos que resultados rápidos não geram melhores entendimentos. É preciso saber apreciar a sabedoria da natureza das coisas, saber que elas demoram, que possuem variáveis incontroláveis e que precisamos pensar em soluções sistêmicas e sustentáveis com calma e à medida que o tempo passa.

Não tem nada mais complexo hoje no Brasil do que a política e assusta muito ver a desconexão desses atores com a busca e o prazer de tentar entender a complexidade desse sistema.

Percepção míope

“Eu acho importante enfatizar como podemos encontrar em comunidades tradicionais práticas ancestrais e populares que carregam em si essa sabedoria. Como, por exemplo, comunidades criam formas de avaliação de cada etapa de decisão que são retroalimentáveis. Em cada passo se volta para entender todas as consequências dessas ações. Economias solidárias ou práticas campesinas de gestão aqui mesmo no Brasil, que podem nos ensinar a reverberar dentro da nossa sociedade pensando em projetos de impacto” — Sarah Brito

Gabriel nos aponta que a retroalimentação é uma palavra importante dentro do pensamento sistêmico, daí o uso da ferramenta “feedback loops” na análise de diagramas. De entender as cadeias de interconexão entre os elementos para que fique mais fácil atuar sobre esse sistema.

“O pensamento sistêmico também se aplica a lógica da informação dentro de uma empresa. Se eu não aprender a olhar para a informação que vá além da informação que apenas tenho acesso a probabilidade é que eu não tenha noção da complexidade do funcionamento desse sistema. Se atuo no marketing da empresa preciso entender o que acontece nas operações ou pricing. Posso ter impactos dentro da área da empresa na qual atuo e sem uma visão sistêmica acabo com uma percepção míope” — Letícia Ange Pozza

Cases nacionais

Colocar em prática as aprendizagens dessa teoria ainda é um desafio. São poucos os cases de aplicação do pensamento sistêmico para grandes resoluções no cenário nacional. Porém, vem surgindo continuamente uma série de ecossistemas empreendedores em diversas cidades do país. Uma das figuras lembradas é a do professor Gustavo Borba da Unisinos que aplicou essa teoria na formulação do cartão de transporte público de Porto Alegre, dentre outros projetos.

O fator humano

Cabe lembrar a importância de que o elemento humano é a gancho para o sucesso das mudanças sistêmicas que queremos.

“Falar em pensamento sistêmico é tocar em algumas feridas que temos enquanto sociedade brasileira. Nenhum sistema se muda sem a presença e a voz das pessoas negras, trans, as pessoas com outras vivências e de outros lugares” — Sarah Brito

Uma presença que se efetua no processo de colaboração com cada um trazendo sua vivência, experiência e metodologia:

“A importância de uma colaboração profunda, né? O hibridismo metodológico é fundamental, não existe cultura de inovação que só funcione por processos ágeis se você não tem espaço para o exercício da colaboração profunda. Não podemos emular o diálogo e só usar o que vem de fora, mas precisamos nos reapropriar dessas ferramentas e frameworks e melhorar nossa capacidade narrativa” — Vinicius De Paula Machado

Não há respostas simples e, por isso mesmo, o campo está mais do que aberto para experimentações. De formas, metodologias e tecnologias.

O desafio que nos colocamos nesse encontro foi o de entender como os elementos de uma organização, as pessoas que fazem parte dela, podem interagir de uma forma mais saudável, mais humana, mais transparente e mais verdadeira mesmo em sua vulnerabilidade. Isso por consequência gera um sistema diferente, possivelmente melhor.


Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)