Empreendedorismo Social — microrevoluções para macrotransformações

Victor Hugo Barreto
Jun 18 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Essa semana mergulhamos na prática do empreendedorismo. Empreender pode não ser só uma forma de fazer negócio e criar uma fonte de renda. Empreender também pode ser um instrumento de mudança e transformação no mundo. Principalmente se o desejo de mudança vem das inquietações que nos cercam no tempo presente. Como empreender para um futuro melhor? Como pensar negócios a partir de uma visão não-opressora e, mais do que isso, anti-opressora?

Priscila Gama vem para o centro do nosso Sandglass hoje para nos contar como inovação e pensamento empreendedor podem estar a serviço de tempos melhores. Ela é ativista e empreendedora social, consultora jurídica especialista em direito público e direitos humanos, mestranda em sociologia política, pesquisadora e movimentadora da economia criativa afrocentrada e periférica, além de coordenar 12 Projetos de Ação Afirmativa e ser também fundadora e presidente do Instituto Das Pretas.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Sandglass ⧖ Torus : Empreendedorismo Social / Priscila Gama

“Eu sou uma louca idealista, eu realmente acredito nas mudanças e resolvi fazer disso, para além da minha bandeira, meu negócio”.

Trajetória

Os projetos desenvolvidos por Priscila são indissociáveis de sua experiência de vida e dos incômodos causados por certos marcadores sociais da diferença. Uma mulher preta da periferia de Vitória, no Espírito Santo, local que, mesmo invisibilizado pelo eixo Rio-São Paulo, possui grandes índices de feminicídio, violabilidade e mortalidade de mulheres pretas e da juventude preta.

“Eu sou uma preta de pele clara e que, em razão da pele clara, teve alguns acessos, mas quero registrar que, ao contrário do que se pensa, negros de pele clara não tem privilégios, têm acessos. No geral, continuamos sendo pretos, independente do tom de pele e passamos pelas mesmas dificuldades por isso”.

por Nathália Ferreira, ilustradora e grafiteira.

Também contou com pais que, permanecendo juntos e sendo uma exceção à grande estatística de homens que abandonam suas companheiras com filhos, também a ajudaram no investimento educacional. Após a formação em Direito e um período de militância na área de Direitos Humanos, Priscila começou a se envolver no mercado e com empresas. E foi ali que percebeu que muitas das práticas tidas como novas no mercado já eram postas em ação na periferia de forma efetiva.

“Percebi que tinha gente dando nome para o que já fazíamos! Veja bem: Economia Criativa é o que fazemos na periferia desde África. Não é novidade, só não tem esse nome. Eu quis então entender por que fazemos isso há tantos anos e não estávamos dialogando sobre negócios, principalmente negócios criativos nesse lugar de origem do movimento que são as periferias? Por que a gente estava fora do jogo?”

À esquerda, economia criativa in loco; à direita, esquema da nova economia.

Suas ideias começaram a surgir, portanto, das ansiedades e incômodos vindos dessa situação. Da necessidade de se sentir representada, de poder falar de negócios e de criar um espaço em seu lugar de origem que contemplasse tudo isso.

Empoderamento e empreendimento

A auto-revolução das mulheres negras

Importante demarcar que esse movimento é inspirado e em conjunto à outras atividades lideradas por mulheres negras, em uma jornada de empoderamento conhecido como “Revolução Crespa”. Uma jornada de empoderamento estético, emocional, relacional e profissional.

“Empoderamento preto não é só se sentir bonito, mas também fortalecer a autonomia e independência. De que adianta eu dar poder sem ensinar para a pessoa o que ela vai fazer com isso?”

Ação do Instituto Das Pretas: Bekoo das Pretas, um festival focado na cultura afrocentrada que faz explodir no palco rappers, dançarinxs, dj’s e atrações com a diversidade dessas expressões artísticas.

O olhar de negócios voltado e feito por e para negros, vai além de uma percepção sobre o black money, mas de entender que para mudar qualquer sistema é preciso conseguir entrar nele, para poder scanear, hackear ou mesmo bugá-lo a seu favor. Criar acesso à esse sistema, dessa forma, é fundamental. Daí a importância do empreendedorismo social como chave de acesso.

Trata-se de ações afirmativas pensadas de forma disruptiva, que utilizam tecnologias da informação e da comunicação para potencializar processos formativos, de produção e gestão social do conhecimento.

Afroempreendedorismo: à esquerda Das Pretas; à direita Ponto Black.

O Das Pretas, por exemplo, é uma startup de pessoas e de negócios. É a única organização de economia criativa e de protagonismo feminino preto do país, com uma sede própria de 1.000 m2 no centro da cidade de Vitória. Ainda sem patrocínios institucionais fixos, atua a partir de uma rede de várias mulheres com negócios próprios dentro de suas especialidades e a partir daí se fortalecendo em rede.

Uma das outras formas encontradas por Priscila para difundir suas ideias é através do projeto “Papo Cabeça”, junto à marca de cosméticos Griffus, da qual é embaixadora. Um marketing inteligente voltado para “cabelo e conteúdo”: produtos voltados para a estética através dos quais pode-se debater o orgulho da mulher negra, empreendedorismo, autocuidado e etc.

“A economia criativa se dá pela maneira de repensar o negócio, por uma forma diversa, uma nova forma do jeito de fazer negócio. Impacto social também não é sobre uma empresa decidir que a cada 10 centavos de produto vendido irá doar para alguma organização, isso continua sendo filantropia, uma forma de assistencialismo. Para mim, falar de impacto social e economia criativa é repensar uma metodologia de um novo jeito de fazer negócio numa perspectiva de sanar as desigualdades. Empreender como um instrumento de mudança mesmo. Mudança de si, do entorno e do mundo.”

Empreender a partir das inquietações e do desejo de mudança é um dos maiores aprendizados. A experiência de Priscila demonstra a importância de construir projetos em rede que levem em consideração os pilares de diversidade, inovação, inclusão e sustentabilidade.

por Xilopretura

Empreender sem oprimir

A perspectiva anti opressora é o grande desafio. Não é só lutar por um mundo melhor dentro daquilo que você acredita que seja dentro da sua “caixa”, já que assim corre-se o risco de reproduzir outras opressões. Mas sim de fazer do empreendedorismo um veículo de transformação.

“O desafio de integrar sem oprimir. É, sem dúvida, uma construção delicada, trabalhosa, mas que vale muito a pena. Nesse sentido, a interseccionalidade é uma potência de conexão” — Sarah Brito

Saber o seu lugar, a partir daquilo que te define, de suas experiências e qual a sua potência a partir disso é essencial.

Dica de leitura: nova edição de “O que é lugar de fala?” da filósofa Djamila Ribeiro

A importância aqui de que pensar lugar de fala e os chamados marcadores sociais da diferença nos serve enquanto análise, mas que as pessoas não são apenas “recortes”. Essas características não podem ser limitantes. Não se pode viver dentro da bolha do “recorte”. Cada um dos aspectos que nos compõe são potências que podemos acionar, conectar com as dos outros e fazer elas se multiplicarem. Catalisar as potências em conexão.

“Eu sou uma empreendedora potente e a minha potência não tem recorte”

“A gente precisa saber de onde vem para criar perspectivas e caminhos de onde quer chegar. E, sobretudo, porque eu sei da quântica que corre no meu corpo. No meu caso, o afrocentro é meu epicentro, esse corpo de mulher preta é o que sou, de onde eu vim e aonde me reconheço enquanto indivíduo. Acredito que se não fossemos potentes ou capazes, não estaríamos aqui ainda aguentando. Eu entendo que essa potência se dá porque as escravizações são corporais, ninguém escravizou a nossa mente. É preciso então trabalhar a partir da mentalidade disruptiva de descolonizar as mentes”.

Fonte: Apresentação Priscila Gama

Aqui está presente também o aspecto educacional dessa proposta, no sentido dessas micro revoluções se darem no âmbito de disseminar uma nova forma de pensar. De todas as pessoas envolvidas no projeto, passando por aquelas que serão impactadas pela ação e até mesmo pelos investidores que não conhecem essas novas formas de tecnologia e inovação social.

Educar pelo troca de afeto é outra possibilidade.

Vivemos em tempo de afeto em escassez. E quando pensamos em afeto costumamos achar que a empatia é o mais importante deles, quando não percebemos que o respeito pode ser mais potente em nossas relações com o outro. O exercício do respeito, por exemplo, é fundamental no processo de empoderamento, de possibilidades de mudança de vida e mesmo de futuro. Não há verdades únicas e é preciso respeitar a divergência.

“Se você parar para observar empatia é coisa de opressor, é só ele que cobra empatia; quem já tem empatia não cobra, tem e pronto. Eu não quero empatia, eu quero respeito!”

Nesse sentido, a potência do incômodo fica mais evidente. O projeto que Priscila trouxe não só nasceu a partir de incômodos pessoais, mas também com o objetivo de causar incômodo no outro. De fazer do incômodo algo produtivo e não impeditivo ou excludente. Da necessidade de despertar reflexões e mudanças a partir dessa sensação, ela também forma de afeto e de potencial educativo.

“Incômodo é ferramenta de mudança. Para mim, tem uma coisa fundamental nisso que é construir espaços seguros para compartilhar incômodos. De fato, não dá para construir juntos sem passar pelo incômodo. É muito difícil se sentir seguro e essa tem sido minha principal batalha nos ambientes que convivo: criar espaços seguros para podermos compartilhar os incômodos” — Morena Mariah

A necessidade desses espaços seguros, inclusive, foi um dos motivadores para a criação desse encontro de aprendizagens em rede que é o Sandglass.

As violências cotidianas ainda persistem.

O racismo e o colonialismo ainda permanecem estruturalmente em nossa sociedade e é contra esses elementos de opressão que temos que direcionar nossas forças. Justamente para que eles deixem de contaminar nossas relações.

Ressignificando Conceitos Para Reconstruir Histórias | Priscila Gama | TEDx

“Nós estávamos falando aqui sobre o afeto e é interessante apontar como essas violências também as atravessam. O mais doido e surreal desse sistema de opressão que a gente vive é que as duas coisas conseguem coexistir: o afeto e o racismo. Seja em relações de trabalho, familiares ou sociais. É a realidade de várias famílias interraciais no Brasil, por exemplo, em que as estruturas de afeto e de opressão coexistem. O mesmo para a homofobia também. Por isso a necessidade de ações e tecnologias para mudar essas estruturas” — Sarah Brito

Priscila lembra que o empreendedorismo social se faz pelo propósito genuíno da mudança e comprometimento com a mesma. Para isso, atenta para a diferença entre aqueles que têm um real propósito, daquela figura que chamou de “Inclusivo Gourmet”, a ser evitada.

“O Inclusivo Gourmet quer fazer impacto social, mas nunca fez. Ele capta recursos, mas não tem resultado. Nunca empreendeu impacto social. O Inclusivo Gourmet salva o mundo, rouba o direito de fala, o protagonismo das pessoas. Mais importante: o Inclusivo Gourmet tem todos os privilégios para poder ficar pensando em como mudar o mundo sem precisar pagar seus próprios boletos. É por isso, por pessoas assim, que precisamos deixar de se ser hipócritas. Vários cases de sucesso estão sendo desmascarados a partir da gourmetização de suas existências. Só foto bonita não é resultado.”

Essa é a importância de um trabalho que seja o mais transparente, aberto, com base em dados efetivos e, principalmente, de forma respeitosa. Uma troca que se faz respeitando o lugar de fala do outro e que busca questionar esses outros a partir dos privilégios. Metodologia que vem se mostrando mais eficiente do que apenas o grito.

“Chegamos num momento que pode ser pensado que nem na metáfora do bolo. Ou a gente entende que fazemos parte do jogo e comemos também o bolo, ou então ninguém vai comer nenhuma fatia”.

A metáfora do bolo é importante para se entender que esse projeto de luta e transformação não se faz a partir de um voto de pobreza. O ganho econômico é parte fundamental do coletivo voltado para o empreendedorismo social. Não confundir fins econômicos com fins lucrativos pura e simples.

Para ser mais direto, não se trata de uma disputa por fala, poder ou privilégio. Não é tirar o protagonismo ou o espaço de ninguém, mas sim respeitar o espaço de protagonismo individual de cada um. O importante é criarmos espaços para que todos os protagonismos estejam trabalhando juntos, em conexão.

Fonte: Databot. Material usado no nosso Zeitgeist Navigators, a experiência de aprendizagem da Torus

O efeito desse processo de mudança é mais poderoso do que se imagina. Justamente pelo fato de ter uma visão que preza à ampliação e à abundância. Aumenta o consumo, a representatividade, as trocas e também o respeito à esses protagonismos. Claro que algumas dessas melhorias são mais difíceis de quantificar em termos de dados específicos, afinal como medir o nível de empoderamento de alguns indivíduos? Existem métricas para esses ganhos?

“Sabemos o retorno que teremos de determinado projeto na moeda desse tempo, que é a moeda do capital financeiro, mas como a gente metrifica ou mede os resultados que estamos tendo nessas outras moedas que são tão importantes quanto a moeda financeira? Há um poder nessa construção intangível que não se transmuta no dado-dinheiro. Porém se percebemos que nosso projeto foi importante para pelo menos uma pessoa tomar uma decisão e mudar a sua vida para melhor, isso já vale” — Gustavo Nogueira

O empreendedorismo pode fazer mudanças efetivas não só em termos de ganhos econômicos e sociais, mas também no afeto e no autoconhecimento. É um exemplo do que se conhecer e atentar para o que as potências de si permitem e como isso pode se conectar à potência do outro enquanto uma rede de engajamento.

Uma rede que atua de forma coletiva na mudança do presente em busca de futuros melhores.

Participantes do encontro dessa semana (da esquerda para a direita, de cima para baixo): Priscila Gama, Gustavo Nogueira, Rodrigo Turra, Felipe Meres, Lu Couto, Thayná Lougue, Anne Fonseca, Sarah Brito, Victor Hugo Barreto, Georgia Cunha e Morena Mariah.

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

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