David Alabo

Filosofia — descolonizando o conhecimento

Victor Hugo Barreto
Jul 2 · 9 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

O tempo em que vivemos pode ser o de um mundo digital em conexão constante, porém a sensação que isso nos causa é de vertigem, desconforto e mesmo dificuldade de acompanhar e priorizar nossas questões. O máximo possível deve ser incluído no menor tempo possível. Nesse cenário, o saber e as aprendizagens da Filosofia podem ser instrumentos valiosos. Essa disciplina que é, antes de tudo, uma jornada de entendimento da natureza humana.

Ser filósofo atualmente é também trabalho de papel, cola e tesoura: é preciso saber cortar, ligar, desconectar ideias nos conceitos para fazê-los responder aos problemas. Ou seja, é preciso saber colocar-se problemas, de tal modo que mudar suas conexões, mude também sua natureza.

No encontro dessa semana, Lu Couto, vem nos contar como a filosofia e o poder das perguntas certas podem contribuir para a reorganização da nossa sociedade e da sobrevivência da raça humana.

Sandglass ⧖ Torus : Filosofia / Lu Couto

Lu Couto não se sente à vontade com a definição de si como uma coisa só: ao mesmo tempo que as caixinhas de identidade limitam, elas nos deixam mais vulneráveis. Somos todos muitas coisas, e somos aquilo que fomos construindo ao longo do tempo.

“Tenho 35 anos, mãe de 4 filhos, nortista, latinoamericana, feminista, empreendedora criativa, filósofa em formação, fundadora da Ovelha Negra (consultoria de comunicação) e da Tenda Vermelha (um grupo de conscientização feminista) e atualmente facilito uma experiência de sensibilização através da palavra que chama Escritaterapia”

Quais identidades conformam você? A partir de que lugar você fala? O exercício de entender o lugar que ocupamos na sociedade e no mundo começa, dessa forma, pela localização de si a partir dos diversos elementos que nos constroem enquanto pessoa. Aí está um primeiro passo para o entendimento das perguntas seguintes. É como já dizia Sócrates:

“Conhece-te a ti mesmo”

Um dos aprendizados desse encontro é o de não tomar a Filosofia Ocidental, um conhecimento construído em sua quase totalidade por homens brancos, como um ponto de partida para algum tipo de Verdade Única. Verdade para quem? A Filosofia Ocidental definitivamente não pode falar por todos. E qualquer tentativa disso é incorrer em um racismo epistêmico. Como explica o filósofo e professor Renato Noguera:

“O racismo epistêmico ou epistemológico é uma das dimensões mais perniciosas da discriminação étnico-racial negativa. Em linhas gerais, significa a recusa em reconhecer que a produção de conhecimento de algumas pessoas seja válida por duas razões: 1º) Porque não são brancas; 2º) Porque as pesquisas e resultados da produção de conhecimento envolvem repertório e cânones que não são ocidentais. Penso que a disputa para derrotar, ainda que parcialmente, o racismo epistemológico está no esforço por diversificar as leituras. Combater a injustiça cognitiva começa por deixarmos de privilegiar os modelos epistemológicos ocidentais. E, por fim, realizar uma comparação dos modelos de conhecimento, do repertório, criando condições para a polirracionalidade”

Isso quer dizer que temos que jogar fora tudo o que já foi produzido? Não há caminhos possíveis? Pelo contrário, Lu Couto nos indica que precisamos primeiro reposicionar nossas perguntas.

Primeira pergunta: O seu conhecimento serve a quem?

Quando produzimos algo, seja uma campanha, algum projeto de impacto, de comunicação ou de qualquer outra natureza, precisamos ter essa questão em mente. A quem nosso conhecimento se conecta e impacta? Quem vai receber essa ação? Quem fala através desse conhecimento? A linguagem que estamos usando é acessível a todos ou ela está limitando o acesso?

Se os grupos que vão se beneficiar com o seu conhecimento não estão nomeados ou presentes, eles estão indiscutivelmente sendo invisibilizados. É uma produção que não preza pelo acesso de todos e não democrática, portanto. E isso é um risco que precisamos evitar.

Uma ajuda nesse sentido é buscar exemplos e referências de conhecimentos que não são hegemônicos. Conhecimentos minoritários, feminino, negro, latino-americano, por exemplo, dentre outros. O conhecimento que pensa grupos vulneráveis é um conhecimento que beneficia a todos.

“Se o conhecimento não pensa os grupos vulneráveis, ele não é uma verdade. Porque a Filosofia vai falar de uma verdade que precisa beneficiar a todos”

Uma proposta, nesse sentido, contrária ao dos antigos Sofistas, que eram criticados pelo comércio de conhecimento, afinal, a verdade não pode servir a um grupo só nem servir como moeda de privilégio.

Um antídoto para essa questão é trazido pelo trabalho de Lélia Gonzalez: negra, filósofa, historiadora e doutora em antropologia.

Lélia Gonzalez

Lélia já fazia uma crítica da relação que existia por trás da hierarquização dos saberes: quem possui o privilégio social, possui o privilégio epistêmico, ou seja, é quem detém o conhecimento e o privilégio para falar.

Nessa hierarquização saberes outros acabam por ser desconsiderados: o saber das parteiras, dos povos originários, ancestrais e regionalizados. A necessidade aqui é a de se pensar esses outros saberes e trazê-los para os centros de legitimação.

A grande revolução do conhecimento, na verdade, está justamente acontecendo na produção desses conhecimentos periféricos, marginais ou subalternizados. Produzem saberes sobre o “ininteligível”. É o que aponta a filósofa panamenha Linda Alcoff no artigo “Uma epistemologia para a próxima revolução

“Precisamos dar atenção às circunstâncias políticas nas quais o saber de todo tipo é produzido. Essas circunstâncias incluem quem tem autoridade, como certos lugares, processos e metodologias são valorizados enquanto outros são desprezados e como a produção de teoria espelha a desigualdade social”

O objetivo aqui, portanto, é descolonizar o conhecimento. Abrí-lo à essas outras possibilidades e criações. Já que quando desautorizamos o ponto de vista dos oprimidos, impedimos o diálogo e as alianças de conhecimento que poderiam gerar novas soluções. “É uma perda de ambos os lados”.

Segunda pergunta: Quem pode falar? Quais vozes são legitimadas?

Quando estamos envolvidos em nossa produção, estamos nos dando conta de quais vozes estão sendo legitimadas no processo e nos resultados de nossas ações?

Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro, filósofa e ativista do feminismo negro vem em sua obra questionando o racismo estrutural em nossas produções.

“O racismo é a ciência da superioridade eurocristã branca e patriarcal”

Nesse sentido, nossa ciência hoje ainda é permeada por esse racismo e continuamente reproduzimos essa lógica, mesmo em nosso ativismo. Lu Couto aponta como historicamente o feminismo teve uma dificuldade de entender a especificidade da experiência da mulher negra.

“Enquanto em determinada onda do feminismo se tinha o desejo de poder trabalhar, as mulheres negras sempre trabalharam e eram exploradas desde muito jovem. Enquanto algumas mulheres brancas falam sobre aborto, as mulheres negras viviam uma realidade de esterilização. O pensamento feminista branco não dialogava com a prática das mulheres negras”

Começa aí uma das grandes contribuições ao pensamento do feminismo negro ao trazer, de fato, um diálogo entre pensamento e prática, entre teoria e experiência, pela busca de uma verdade mais próxima da realidade. De uma realidade que se dá pela sensação, daquilo que se pode sentir ao ser afetado no próprio corpo. Distante, portanto, de uma idealização da racionalidade que é tido como um dos pilares do conhecimento. A possibilidade de um conhecimento pautado por outras tecnologias, vivências, sensações e experiências.

A solução proposta por Djamila Ribeiro é que para descolonizarmos o conhecimento precisamos nos ater à identidade social, aos marcadores sociais da diferença.

“Essa insistência em não se perceberem marcados faz com que pessoas brancas persistam na ideia de que podem falar por todos”

Importante perceber que focar nesses marcadores, falar de grupos sociais a partir de suas diferenças não é sobre separar antagonistas nem criar mais divisões na sociedade. Essas diferenças já existem e demarcam hierarquias estruturalmente. Exatamente por isso é preciso entender a complexidade do sistema social.

“A branquitude é consequência dessa estrutura gigantesca ao mesmo tempo que também é o combustível dela. A pesquisadora Élida Lima, está trabalhando em uma tese muito interessante sobre branquitude. Acho esse ponto de partida muito importante para os brancos anti-racistas, questionar a sua subjetividade como estopim para agir ativamente em prol da desconstrução estrutural do racismo” — Sarah Brito

Terceira pergunta: Qual o contexto político dos autores que referenciam nos seus trabalhos?

A questão aqui é que aprendemos desde cedo a reproduzir conhecimentos que por sua vez reproduzem contextos localizados que muitas vezes não se aplicam a realidade que estamos vivendo. É preciso de alguma forma intervir nessa cadeia de reprodução.

Por isso a necessidade de reflexão sobre a origem do conhecimento que estou trazendo para basear minha ação. De como a nossa realidade se relaciona com aquela perspectiva.

“Para mim isso reafirma uma coisa que venho pensando há algum tempo: a perspectiva que a gente escolhe olhar não depende de quem a gente é, mas depende de que tipo de esforço a gente está disposto a fazer no mundo para ver o mundo se tornar aquilo que a gente acredita” — Morena Mariah

A filosofia pode ajudar nesse processo, já que como conhecer é se conhecer, ela pode nos colocar num lugar em que podemos observar o mundo e nos relacionar com os conhecimentos que já foram desenvolvidos.

Um exemplo dessa proposta: o trabalho desenvolvido pela filósofa nigeriana Sophie Oluwole. Ela tem um trabalho instigante juntando o pensamento de Sócrates com a filosofia produzida por Orunmila, o grande adivinho da mitologia yoruba que foi deificado, mas viveu de fato e produziu muita filosofia que pautou toda a construção da cosmogonia yoruba.

“E esse movimento é de urgência, porque esses saberes podem desaparecer. Nós temos urgência em dar valor a essas outras tecnologias, outras ferramentas, outras metodologias, porque o saber/fazer tradicional são, em sua maioria, da ordem da oralidade. Temos que garantir essa preservação não na chave do extrativismo, mas sim garantir o legado com respeito e a devida valorização aos detentores desses saberes” — Sarah Brito

Uma filosofia que abarque aquilo que Yuval Harari, historiador e filósofo israelense LGBT, chamou de 4Cs: pensamento crítico (político), comunicação (diálogo), colaboração (diversidade) e criatividade (vulnerabilidade).

“Se a filosofia é a admiração pelo que é, como os filósofos gregos diziam, nós temos que observar tudo o que é. Não só a minha bolha, a minha própria realidade, ou meu próprio lugar de fala, mas sim pensar na minha própria identidade (para falar desse lugar), porém entendendo todas as outras que existem ao meu redor”

Lu Couto, Gustavo Nogueira, Rodrigo Turra, Victor Hugo Barreto, Sarah Brito e Morena Mariah

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

Written by

Torus

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade