Leis Herméticas e Alquimia — algoritmos qualitativos do nosso tempo

Victor Hugo Barreto
Jul 15 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Conheça aqui o nosso primeiro workshop online aberto para desenvolver sua inteligência temporal

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

No encontro dessa semana mergulhamos no tema das Leis Herméticas e da Alquimia. Antes daquilo que a gente entende como ciência existia a prática ancestral da alquimia. Sem o peso que o pensamento positivista cobra de neutralidade e objetividade científica, a alquimia é como se fosse a produção de um artista. Livre, pode experimentar e combinar elementos simbólicos de vários conhecimentos. É sobre essa arte da mistura, combinação e transformação das unidades que falamos no Sandglass dessa semana.

André Pimenta é VJ, uma espécie de alquimista da imagem em movimento, e vem nos falar a partir de sua experiência na criação de experimentações sobre o tempo intenso do agora. De como a tradição da alquimia hermética pode contribuir para as questões do nosso tempo presente e em várias áreas de nossas vidas.

Sandglass ⧖ Torus : Alquimia / André Pollux Pimenta

A alquimia hermética e sua origem

Os primeiros registros da prática da alquimia datam dos primeiros séculos da nossa era (os anos contados depois de Cristo). A alquimia hermética vem de um conjunto de obras chamado “Corpus Hermeticum”. São textos de sabedoria egípcia-grega escritas por volta do século 2 DC, a partir do sincretismo de diversas elementos pertencentes à várias culturas.

“Sincretismo é quando a gente pega um monte de referências que não necessariamente tem uma relação formal, mas nas quais fazemos as nossas próprias conexões. Dessas conexões identificamos padrões e conseguimos sobrepor camadas de significado. Na prática isso aconteceu com as diversas religiões, sejam elas monoteístas ou politeístas. O exemplo mais palpável é o da transição dos deuses gregos para os deuses romanos ou latinos. Hermes, por exemplo, era o deus grego da comunicação, da magia, que levou o conhecimento aos homens. Hermes na cultura egípcia era Thoth e na romana se tornou Mercúrio. Sobreposição de mitologias para tratar do mesmo tipo de personalidade: a pessoa que está sempre em busca do conhecimento”.

André aponta como a “cultura do remix” é muito mais antiga do que pensamos, e que é justamente desse amálgama de conhecimentos, filosofias e culturas que vai formar o conjunto de textos do hermetismo.

Em seu conteúdo são textos apresentados principalmente como diálogos em que um professor, geralmente identificado como Hermes Trismegisto (“Hermes Três-Vezes-Grande”), ilumina um discípulo. Marsilio Ficino produziu a primeira tradução latina do Corpus em 1463, já no contexto do Renascimento, uma época de retomada desses saberes da Antiguidade.

Esses são os textos que formam as bases do hermetismo. Eles discutem o divino, o cosmos, a mente e a natureza. Ainda que tenha um tom religioso, o foco é na busca de conhecimento. Um dos maiores exemplos nesse sentido é que um dos tradutores da “Tábua Esmeraldina” (texto que compõe o Corpus) tenha sido o físico Isaac Newton.

“Daqui nasceu a alquimia, a tábua ensina a separar o sutil do mais concreto e conseguir realizar todas as obras. Basicamente da ideia simples de análise: para você entender algo precisa abri-lo para ele se tornar mais palpável. Como? Separando esse algo em diversos elementos, analisando esses elementos separadamente, para depois conseguir entendê-lo completamente”.

A alquimia, portanto, se tornou uma forma de colocar em prática esse conhecimento. Um ramo antigo da filosofia natural e tradição protocientífica praticada através da Europa, África e Ásia, originária do Egito greco-romano nos primeiros séculos dessa era. Os alquimistas tentaram purificar, amadurecer e aperfeiçoar certos materiais, objetivos comuns eram a transmutação de “metais básicos” em ouro, a criação de um elixir da imortalidade e o desenvolvimento de um solvente universal.

“No plano físico e naquilo que depois deu origem à química, os alquimistas focaram em descobrir as substâncias, do que elas são feitas e saber como elas interagem entre si. Mas também há um plano filosófico de uma busca espiritual de refinar o nosso ser, trabalhar os elementos à nossa volta ou os elementos e dimensões internos até conseguir dominá-los”.

Acreditava-se que a perfeição do corpo e da alma humanos permitisse ou resultasse na obra máxima da alquimia e, na tradição do mistério helenístico e ocidental, a realização dessa gnose.

Fonte: apresentação Andre Pimenta

Os sete princípios

André também trouxe para o encontro os sete princípios contidos no Caibalion (ou Kybalion). Trata-se de uma das interpretações sobre os textos herméticos que afirma sintetizar suas aprendizagens nesses sete pontos ou Leis. A obra, ainda que mais antiga, foi publicada só em 1908 por três autores anônimos (denominados “os Três Iniciados”).

“Tudo é mente”

Basicamente a ideia de que tudo que está a nossa volta e a nossa própria existência, existe a partir de nós e não do mundo exterior. De acordo com este princípio, o Universo é uma criação mental do Todo, existindo em nossa mente.

“O que está em cima é como o que está embaixo”

Existe uma correspondência entre as leis e fenômenos de todos os planos de existência e de vida. O microcosmo humano é governado pelas mesmas regras que o macrocosmo universal e vice-versa.

“Tudo vibra em diferentes frequências”

Todos os elementos nada mais são do que vibrações energéticas em diferentes frequências e diferentes disposições. Todos os objetos são energia. Tudo é feito da mesma energia básica, mas trabalhada em diferentes grau.

“Tudo tem o seu oposto; extremos se tocam”

Os opostos são apenas extremos de algo da mesma natureza, de uma mesma escala, apenas diferenciados por graus distintos de vibração ou aplicação. Pelos extremos se tocarem sua configuração é melhor percebida por um círculo e não pela linha. Isso se percebe até mesmo nos extremismos políticos de direita e esquerda no país atualmente.

“Existe um ritmo pendular entre cada par de opostos”

Existe uma oscilação natural, não apenas nos fenômenos da natureza, mas na vida humana. O ruim sucede o bom, a alegria segue-se à tristeza, períodos de animação são precedidos e sucedidos por períodos de retração, não há um equilíbrio completo.

“Existe uma causa para cada efeito e um efeito para toda causa”

Existe uma causa para tudo o que acontece; nada ocorre aleatoriamente. É possível aprender a trabalhar sobre as causas para obter os efeitos desejados. André aponta como essa lei está presente nas mais recentes descobertas neurobiológicas apontadas pelo historiador Yuval Harari em “Homo Deus”, em que o autor explica a causa de tudo pelos algoritmos ainda que humanos.

“O gênero se manifesta em tudo”

Tudo e toda pessoa, assim como ideias, vontades e desejos contém os dois elementos, masculino e feminino. Em um plano simbólico a energia masculina estaria relacionada à expansão e exploração e a feminina relacionada à introspecção e contração. Obviamente uma visão fruto de uma construção cultural de determinada época e aberta à desconstrução. Este princípio não tem relação necessária com o sexo, é mais próxima da ideia de um “casamento alquímico” para gerar uma terceira coisa. Algo como aquilo que o yin-yang representa.

“Essa perspectiva lembra o que é discutido em design ontológico. Nós não estamos aqui questionando qual seria a melhor forma de traduzir isso, mas entendendo que isso em algum momento foi traduzido assim e por ter sido desse jeito criou-se em volta todo um conjunto de significações” — Gustavo Nogueira

Os elementos

Fonte: apresentação André

Os quatro elementos (terra, água, fogo e ar) são os quatro planos de nossa existência. Na imagem ao lado podemos ver uma tentativa de se relacionar os símbolos, uma tentativa de criar um algoritmo que codificasse nossa relação com os planos de energia dos elementos.

No canto superior esquerdo (da salamandra e de uma mão segurando uma tocha) vê-se uma representação do fogo e no canto superior direito (da ave) seria a representação do ar, ambos elementos tidos como ativos e positivos, por isso localizados na parte de cima da figura.

Nos cantos de baixo: do lado esquerdo (o rei com um escudo sentado num monte), a terra; e do lado direito (uma mulher com um ser aquático) representa a água, ambos elementos tidos como negativos e passivos.

“A terra é nosso mundo físico, material. Se eu tenho uma ampulheta na minha mão é porque ela existe no plano material. Depois do plano material tem o ar, um plano mental, não tenho mais a ampulheta na mão, mas ela existe enquanto ideia na cabeça. Quando se sente algo por essa ideia mental, alcançamos o elemento da água, um plano emocional, que é mais abstrato que o plano mental das ideias. E o último plano que chamamos na alquimia de espiritual seria o dos valores e das crenças: no exemplo, a gente acredita que existe a ideia e o sentimento sobre a ampulheta”

Ainda que o plano “real” seja o físico, da terra, os outros planos abstratos tem a sua importância, justamente por partirem deles a mudança que vai ter resultado no concreto.

Os três triângulos ou pontas externas ao círculo central da figura representam as três dinâmicas nas quais esses planos podem se manifestar:

  • Corpus: qualquer coisa ou entidade, seja um objeto (no plano material) ou uma ideia (no plano mental ou emocional).
  • Anima: é o que coloca em movimento as entidades, seja uma força física ou expressiva e de persuasão.
  • Espiritus: um movimento da entidade consigo mesma, uma ação ou movimento interno.

O cruzamento dos quatro elementos e das três dinâmicas gera os doze passos da alquimia que também se relaciona com os 12 signos do zodíaco, como veremos mais adiante:

Fonte: apresentação André

Como ressignificar esse processo para o tempo presente e usá-lo a nosso favor?

Objetivo de André: desenvolver uma espécie de alfabeto, uma linguagem para criarmos um algoritmo para qualquer coisa. Algoritmos qualitativos e não quantitativos, uma espécie de matemática ou mesmo de framework que só serve para qualidades e não para quantificação. A alquimia é uma codificação para nos ajudar a prever e trabalhar energias de qualquer tipo. Para isso ele nos apresenta a seguinte releitura e ressignificação do que vimos sobre a alquimia até agora e que possamos aplicá-la de forma prática.

Fonte: apresentação André

“A gente pode falar, por exemplo, que num iphone, o plano energético dele, sua energia é o próprio aparelho; o plano dos dados e mental dele é o processamento de informações, a câmera, o microfone e as aplicações que ele faz; o mood dele para nós é a personificação e a identidade que ele compõe enquanto parte de nós mesmos, nos sentimos alegres ou tristes com ele; no plano do fogo e do valor, seria o status que temos diante dos outros por termos um iphone ou outro produto dessa marca. Uma marca se posiciona, por exemplo, no fortalecimento desse elemento”

O cruzamento das camadas e planos anteriores gera os próximos quatro slides, nos quais André propõe uma tradução para diferentes energias dinâmicas a partir dos doze signos e seus respectivos elementos:

Fonte: apresentação André

“A partir desse framework eu consigo identificar o que eu preciso trabalhar, qual elemento, plano, dinâmica ou energia precisa ter mais foco para que determinado projeto possa ser efetivado. Nesse sentido, a alquimia é um pouco diferente da magia, porque a magia é tentar alterar as coisas de uma maneira simbólica. A alquimia é só um alfabeto de símbolos que a gente decodificou e que nos serve para mapear diversas relações e que podemos aplicar de forma prática em nosso cotidiano”.

Fonte: Apresentação André

“Esse alfabeto que estou mostrando para vocês serve para tudo. Desde projetos pessoais e construção de marca, até o simples ato de tomar café. A partir do momento que você pensa no plano da informação: ‘Quero tomar café’, os elementos de água e fogo vieram antes, porque para eu querer tomar café é porque eu gosto de café, um sentimento que eu tenho em relação a essa bebida. E eu só tenho esse sentimento, porque eu tenho uma atitude com relação ao café, uma crença de que o café é uma coisa que faz parte da minha personalidade. Então, tenho a identidade de uma pessoa que toma café, gosto da bebida, penso que quero tomá-lo e aí sim vou para o elemento terra, material, que é tomar o café mesmo, literalmente. E esse ato no plano físico faz alimentar meu valor de crença de que gosto de café, ou seja, do elemento terra para o fogo. Através do comportamento gerando valores”.

O impacto dessas aprendizagens não é algo que possa ser absorvido de imediato. É algo que envolve um tempo de afetação e de engajamento. Exige uma série de ressignificações e uma nova perspectiva de relação entre os elementos e as forças dinâmicas de nossos planos de ação. Acrescenta e sobrepõe uma camada de entendimento que pode nos ser útil. Ao contrário do que possa ser entendida à primeira vista, não se trata de uma visão esotérica ou mística sobre a realidade, mas sim da eficácia simbólica e do poder da interpretação em nossa vida e do mundo ao nosso redor.

André Pimenta, Gustavo Nogueira, Carol Coroa, Fernanda Sigilião, Bárbara Machado, Victor Hugo Bareto, Andreia Rocha, Rodrigo Turra, Francisco Estivallet, Anne Fonseca, Felipe Meres, Sarah Brito, Lu Couto e Morena Mariah

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

Written by

Torus

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade