Magia e Mística — ferramentas para experiências significativas

Victor Hugo Barreto
Jul 22 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Nosso mundo ultra-racional, “científico-positivista” e tecnológico costuma desprezar saberes ancestrais ou aqueles que se constroem pela ordem dos afetos, mágicos ou místicos. O saber da magia e seus mistérios se constituiu como nossa primeira forma de elaborar um conhecimento sobre o cosmos, a natureza e nossa relação com o mundo. Todo um conjunto de teorias e práticas que buscam um entendimento integral sobre a nossa existência e que, por isso mesmo, tem muito a ensinar para os desafios do nosso mundo presente.

Como a prática da magia pode despertar o nosso melhor, o amor pela humanidade e nosso senso de pertencimento? Para nos conectar com esses saberes vamos receber a diretora artística Sheylli Caleffi no Sandglass dessa semana.

Sandglass ⧖ Torus : Mística / Sheylli Caleffi

Sheylli também é atriz, preparadora de elenco e atualmente trabalha como treinadora de comunicação atendendo empreendedores, executivos, palestrantes, escritores e artistas. Atua na interface entre inovação, criação e comunicação. Compartilha muito de suas indagações, questões e aprendizados em conteúdos produzidos para redes sociais, como seu canal no Youtube.

“Vamos começar então! Não vamos perder tempo, a vida é curta e estamos nessa bola que flutua no universo por pouco tempo, temos que aproveitar bem!”

“The TimeGate at Luna 3” por Eugenia Loli

Sheylli prefere começar de antemão afirmando que não acredita em mágica, que não é possível acreditar em algo que não seja possível replicar e que não possa ser aprendido. Também não vê oposição entre misticismo e ciência. Ainda que sejam tidas como conhecimentos pertencentes à campos separados, ambos são saberes que procuram dar conta de nossa existência. O misticismo, assim como a ciência, é um saber que pode ser aprendido e que tem efeitos reais no mundo.

“Eu brinco que sou o oposto de um cético, acredito em tudo, em todas as formas de se alcançar diversos conhecimentos. Aquilo que eu não consigo ainda sistematizar num processo científico, acabo chamando de mágica ou misticismo — mas tal e qual podemos estudar e aprender”

A questão que a interessa aqui e que trouxe para provocação é: qual é a forma como atuamos no mundo e como criamos experiências. Como criamos experiências que realmente sejam experiências relevantes para todos? Tanto para você que está conduzindo quanto para os outros que estão participando.

Processos de educação

Metaphysical Collapse“ por Eugenia Loli

A maior dificuldade que Sheylli percebe nos processos de aprendizado, seja no meio corporativo ou do cotidiano, não vem da falta de conteúdo, mas sim da condução das pessoas durante o processo para transformar isso numa experiência significativa. É ir além da forma tradicional de ensino em que se intercala partes “chatas” de conteúdo com partes “legais” de dinâmicas lúdicas para "aliviar".

“O que eu estou chamando de experiência, para conceituar, é quando temos uma coisa legal do início ao fim, na qual eu não consiga perceber que estou aprendendo, não há a percepção de ‘agora é hora de consumir conteúdo’. É esse lugar que eu tenho que chegar quando estou desenhando uma experiência, seja sozinha ou com equipes em qualquer lugar do país”.

O objetivo então não é criar uma aula que seja legal, mas sim uma experiência, na qual eu aprenda e crie de forma motivada e feliz, elementos essenciais de uma aprendizagem efetiva. Próxima da ideia que o filósofo francês Deleuze diz sobre o que é uma aula:

Para atingir esse objetivo pouco importa a capacidade cognitiva das pessoas. “Cabeças geniais” não são sinônimo de boa experiência de ensino. Outros fatores intervêm no processo. “Ninguém cria uma experiência genial apenas sentado na frente do computador”. É preciso movimento e é preciso sentimento. As pessoas não precisam ser valoradas pela quantidade ou tipo de conhecimento que possuem.

“Se eu quero criar uma experiência que vai envolver aquele ser humano que está na minha frente, o que que eu preciso considerar? Para além de aspectos que são mais organizadoress como uma entrega ontológica, estética ou taxonômica, eu também preciso pensar em sentimentos humanos que é o meio pelo qual vou me conectar com essas pessoas”

A escolha aqui é entre: conseguir se conectar com seu público apenas por seu cérebro ou com os seres integrais que eles são. Só que para produzir algo integral também não podemos usar apenas o nosso cérebro, o desafio é conectar o outro e a si mesmo por outras partes que não sejam apenas a cabeça. De forma resumida: se falo com a cabeça, meu público vai ser impactado apenas dessa forma; se uso outros recursos como o sentimento, posso criar outras maneiras de envolver e afetar esse público. Criando uma comunicação que vá, por exemplo, para além da fala, expressões faciais e gestos.

Conexão espaço-tempo

All It Remains” por Eugenia Loli.

Criar uma experiência integral de aprendizado é se preparar antecipadamente para o acontecimento de um evento. Como nos preparamos para uma audiência que ainda não está lá e que eu não conheço? O evento acontecerá em um tempo diferente do agora, que é o tempo da criação e da preparação. Para isso é preciso ter uma compreensão ampla do que é espaço e tempo e uma inteligência emocional, sobre si e sobre o outro.

Como eu me desloco temporalmente para aquele momento no qual a experiência vai acontecer e consigo sentir o que as pessoas vão sentir quando elas estiverem vivenciando essa experiência?

A resposta a essa questão não é só um exercício de imaginação, mas também de treino de uma comunicação que ultrapassa tempo e espaço e que leve em consideração o nosso corpo, a nossa materialidade.

O conhecimento de si e de como a jornada do conhecimento nos afeta é essencial para que possamos criar também experiências relevantes, conhecimento aliado à técnica. Busque se perguntar: “Qual foi a última coisa relevante que eu aprendi?” ou “Que coisa inesquecível eu passei recentemente e como isso me afetou?”

Lembretes para criar experiências relevantes

Happy Hippy Hippo” by Eugenia Loli.

. Objetivos muito claros: o que eu quero discutir e como quero me conectar;

. Nosso primeiro público tem que ser a gente mesmo;

. Crie uma experiência que você gostaria de viver e não uma que você gostaria de criar (tem diferença);

. Trabalhe a perspectiva integral sobre os seres: corpo e mente são partes de uma coisa só e ambos precisam ser trabalhados em conjunto e em movimento.

Um exemplo de experiência relevante auxiliada por Sheylli

Na Epiphania, somos todos artistas, uma escola de processos criativos, Sheylli ajudou a construir uma experiência de aprendizagem com a artista de desenhos em nanquim, Thaís Ueda, que se chamou “Voar é cair e errar o chão”. O objetivo não era formar artistas nem técnicos na arte do nanquim, era conectar os participantes com a forma da artista de criar, possibilitando que vivenciassem a mesma experiência que a Thaís, numa tarde de imersão para entender como a artista em questão pensa e compreender a partir daí que todos podem também ser artistas.

Após um trabalho de investigação e acompanhamento da vida da artista e seu processo, Sheylli buscou entender as motivações de sua arte, principais elementos (como a questão do risco, medo e do desconhecido), emoções e recursos. Desse trabalho de investigação resultou a criação de várias atividades desenvolvidas para que o público vivenciasse esses processos da artista, tais como: desenhos livres, listagem de medos individuais, dança no escuro, maneiras físicas e livres de se lidar com esses medos como se jogar do alto e no escuro, cuidar de uma outra pessoa e etc. No link abaixo você encontra uma narrativa dessa experiência do ponto de vista de um dos alunos e pode perceber como foi rica as aprendizagens nesse encontro:

por Eugenia Loli

“A gente tem uma ideia de que existe a nossa mente e o nosso corpo de forma separada. Isso é uma herança judaico-cristã na qual se tem o corpo profano e a alma divina. Acabamos reproduzindo essa desconexão, quando na verdade, só pensamos do jeito que pensamos e agimos do jeito que agimos, porque vivemos experiências com esse corpo e essa fisicalidade que temos. Uma experiência de aprendizagem não pode ignorar essa relação.”

A contribuição dos rituais mágicos nos processos de aprendizagem

Sheylli participa de um grupo místico há doze anos. O grupo, chamado “Ordem, Princípio e Luz”, desenvolve estudos sobre autoconhecimento e e espiritualidade a partir da aproximação e experiênciação das mais diferentes religiões, já que prega a liberdade de fé.

“O místico essencialmente é uma pessoa que tem a sua verdade experenciada que vai se construindo ao longo do tempo. Por isso temos medo dos místicos, porque eles não tem filiação única, não seguem um padrão, podem ser um pouco de tudo, é difícil influenciá-los. Nesse grupo respeitamos a liberdade de cada um ser o que se é. E é esse valor da experiênciação que me ajuda a criar as experiências de aprendizagem”

por Eugenia Loli

Sheylli aponta o quanto nossa sociedade ocidental foi empurrando para o território da religião as experiências que não se relacionassem com o aprendizado do que a gente entende como educação clássica, do conhecimento teórico que absorvemos nas escolas. E, dessa forma, deixamos de lado metodologias e mesmo aprendizagens valorosas que esses conhecimentos ditos mágicos, místicos ou religiosos podem proporcionar. Uma proposta que em algumas sociedades orientais, que praticam o budismo, por exemplo, não foi tão separada.

“Essencialmente, o que procuramos nesse grupo místico é conectar corpo e alma. É poder acessar o HD da alma. Claro, acreditando que existe um lugar tangível dessa alma e que ele pode ser acessado quando precisamos ou através de intermediários, como ensinam algumas religiões”.

Se comunicar com essa energia é, de alguma forma, se conectar com uma potência de criação. Uma força intensa, viva, e que se aprendermos a canalizar de maneira favorável, pode nos impulsionar e alimentar nosso poder de criação. Daí o destaque na importância desses rituais que passam necessariamente por uma jornada de (auto)conhecimento, principalmente no campo do sensível:

“Essa jornada tem efeitos reais no mundo social. Eu preciso entender o meu valor, a minha importância e a minha relevância no mundo para que eu possa ensinar alguma coisa para alguém. Por que é isso que me ajuda a entender o outro. Não me colocando numa posição superior mas reconhecendo a minha contribuição”

O autoconhecimento não tem o efeito de uma arrogância de controle. É preciso também ser vulnerável para reconhecer que não sabemos tudo. Ser vulnerável é ter a coragem de se expor sem ter qualquer controle do resultado final e, de fato, aprender algo. Aprender é uma experiência em conjunto, tanto de quem aprende quanto de quem está ensinando, um não pode dominar o outro. Portanto, sempre é uma situação da qual não temos controle, corremos riscos e estamos vulneráveis. E não dá para ter um aprendizado real sem correr esse tipo de risco.

“Espiritualidade e misticismo são boas formas de treinar esse processo, porque é onde esses conhecimentos estão. Qualquer espiritualidade e qualquer misticismo, desde que seja uma busca genuína, te ajuda a entender quem você é”

Conexões de aprendizagem

por Eugenia Loli

Passou o tempo de percebermos que a aprendizagem não se dá apenas no modelo clássico, técnico, ultra-racional e teórico que herdamos do sistema educacional. Aprender é uma forma de conexão com o outro (em que ambos se modificam) e uma forma de estado de espírito ou mesmo de canalização de energia.

Entrar num estado de espírito de aprendizagem é estar aberto às conexões que estão não só próximas e disponíveis, mas também àquelas que, inclusive, ainda estão por serem inventadas. A neurociência já mostra como a nossa mente é uma verdadeira máquina do tempo, que nos permite experimentar estados de espaço/tempo diferentes. Sheylli potencializa essa característica humana através de nossa espiritualização, capacidade de modificar passado e construir futuros.

Cada cosmovisão também criará entendimentos para esse processo. Morena Mariah nos lembra, por exemplo, o quanto essa energia de comunicação e criação na cultura iorubá é tida como referente ao orixá Exu. Nesse sentido, não há metodologia única e exata para isso. Não há roteiro pré-escrito. A aprendizagem é um exercício de experimentação mental, corporal e espiritual constante.

A aprendizagem pode passar apenas pela presença, observação e abertura à afetação do campo e universo ao nosso redor, como nos saberes advindos de povos ancestrais em seu contato com os ritmos e tempos da natureza e suas diferentes cosmologias.

“Veja, eu não acredito em seres iluminados. Acho que nossa autonomia se constrói junto com a nossa responsabilidade. A gente só alcança liberdade quando assumimos responsabilidade pelas coisas. Quando eu me responsabilizo por mim, pelas coisas que estão acontecendo ao meu redor, pelas relações que estou construindo ou não. Quando chego nesse lugar consigo inspirar isso nas outras pessoas, alcanço outro patamar de comunicação, o engajamento. O engajamento real também é um compromisso. Um compromisso de ordem social mesmo”

Para concluir

Sheylli concluiu nosso encontro indicando o livro do cineasta russo Tarkovsky “Esculpir o tempo”. Como vimos, o processo de aprendizagem se relaciona com o processo de criação artística. Processos que demandam uma relação e experimentação de espaço/tempo singular. São idéias que nos ajudam a pensar sobre experiências de aprendizado. Podemos ter a sensação que um filme de duas horas passou em 30 minutos e que uma música de 5 minutos durou uma hora. Esculpir o tempo é criar a partir dessa percepção humana sobre o tempo.

Carolina Coroa, Gustavo Nogueira (Gust), Victor Hugo Barreto, Lu Couto, Letícia Ange Pozza, Ian Ferreira, Andréia Rocha, X, Vinicius De Paula Machado, Sarah Brito, Sheylli Caleffi, Anne Fonseca, Rodrigo Turra, André Pimenta, Thayná Lougue De Farias, Priscila Gama.

Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

Written by

Torus

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Estudos do Tempo (Time Studies)

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