Self Reflected / Greg Dunn, Brian Edwards, Will Drinker

Neurociência — o cérebro é a melhor máquina do tempo

Victor Hugo Barreto
Jun 14 · 10 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Tempo e neurociência. Como a mente entende o tempo? Uma ciência dedicada a compreender o funcionamento do cérebro e como isso impacta em nosso dia a dia. Uma interlocução de temas que nos permite autoconhecimento, mindfulness e transformações em nossas vidas. Vamos aprender como uma boa relação com o tempo também depende de entender o que temos de melhor na mente.

Para isso, nosso encontro contou com a presença de Caroline Baldasso, que trabalha como neurocientista e que atua criando uma ponte para unir neurociência e indústria criativa através da pesquisa de comportamento.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Algumas definições

Neurociência é a área de estudos dedicada ao nosso sistema nervoso. Ainda que seja entendida como um ramo da biologia, combina conhecimentos de diversas áreas: de fisiologia e anatomia até física e filosofia. A neurociência é, dessa forma, um estudo multidisciplinar interessado no comportamento humano de uma forma holística.

“Falando de uma forma simples e engraçada, imagina uma mesa de bar. A neurociência é como se fosse a própria mesa, na qual toda a galera das áreas mais diferentes vai se sentar ao redor para conversar coisas incríveis. A medicina que nunca pode, mas às vezes aparece no bar, a filosofia, a psicologia, a física…todas essas grandes ciências estão nessa mesa de bar conversando e trocando e a neurociência é a possibilidade desse encontro e desse cruzamento. Nesse sentido, o neurocientista é um generalista.”

Neurocientistas pesquisam os aspectos biopsicossociais da existência humana e de fatores ainda invisíveis (aqueles que ainda não conseguimos reconhecer e ver no laboratório, ou estudar com as tecnologias atuais, como pensamentos e emoções, por exemplo) que moldam a maneira como agimos, pensamos e nos relacionamos com o mundo e consigo mesmos. Atua em cinco áreas principais: molecular, celular, sistêmica, cognitiva e comportamental.

Os ensinamentos e contribuições que a neurociência pode trazer para o mercado são muitos. As organizações costumam gerar um excesso de produtos aleatoriamente sem ter um embasamento no pensamento nas pessoas. Essas pessoas são chamadas e entendidas apenas como consumidores, só que se esquece que antes de consumir (uma das muitas coisas que fazemos em nosso tempo), somos pessoas com um universo próprio.

Aplicar pesquisa neurocientífica na indústria criativa é reverter essa equação. O objetivo aqui é entender as pessoas e conhecer seus problemas, a fim de ensinar marcas a fazerem o mesmo, e desenvolver novos insights que ajudem a diminuir as dores desses universos.

Como a neurociência pode nos ajudar a entender o tempo?

“Tudo o que realmente pertence a nós é o tempo, mesmo o tempo só tem a ele mesmo” — Baltasar Gracián

Divisão do cérebro proposta pela frenologia

Há pouco mais de um século, alguns cientistas acreditavam que havia uma área local específica do cérebro responsável pela faculdade de demarcar e sentir a passagem do tempo. Hoje sabe-se que não.

Porém, os neurocientistas continuam lutando para entender o que significa “sentir” a passagem do tempo. Ou seja, de como o cérebro nos conta ou contabiliza para nós o tempo e por que os humanos são capazes de se projetar mentalmente no futuro, ou mesmo de lembrar do passado.

Somos capazes de fazer projeções (ou viagens) no tempo que nos trazem até sensações físicas, seja revivendo e lembrando de algo ou no planejamento do que pensamos que virá.

O que se entende atualmente é que o cérebro não é “projetado” para entender a natureza do tempo. O que não é uma impossibilidade ou barreira. Precisamos continuar explorando as teorias sobre o tempo e a natureza do tempo, juntamente com a arquitetura, o design e as limitações de nossos cérebros.

O que sabemos hoje sobre a capacidade do cérebro com relação ao tempo é:

  1. Ele nos conta sim o tempo de alguma forma, há uma narrativa de tempo que ele constrói e nos apresenta a todo tempo;
  2. Ele gera sim padrões temporais (e consequentemente comportamentais) de forma inconsciente a todo momento, como os nossos hábitos ou mesmo vícios;
  3. Ele também permite perceber conscientemente a passagem do tempo a partir dos ritmos em que vivemos e das medições que criamos;

“Ao inventarmos a ampulheta e o relógio de sol, passamos a perceber de maneira consciente o tempo ao redor e também a interferir na nossa experiência no tempo.” Gustavo Nogueira

4. O cérebro tem a capacidade de reservar memória e é isso que nos possibilita se reconectar com o passado; Lembra do filme “Como se fosse a primeira vez”, em que a personagem tinha amnésia e precisava ser lembrada diariamente para se reconectar?

5. Ele também tem a capacidade de pensar e projetar sobre o futuro, o que inclusive garantiu a nossa sobrevivência enquanto espécie.

Dentro das duas grandes escolas filosóficas sobre o tempo (o presentismo e o eternalismo), os neurocientistas tendem a adotar o campo presentista, devido à complexidade e ao inerente caos da atividade cerebral.

Isso acontece pela impossibilidade de se estudar simultaneamente um tempo que vá além do presente no mesmo cérebro. Não existe um corpo no passado ou no futuro, um corpo é sempre presente.

Gustavo Nogueira: “Esse ponto é interessante quando lembramos que no momento em que estou revivendo uma memória, estou vivendo essa memória em um presente, assim como se fosse uma projeção do futuro que também seria feita a partir do meu eu presente. Ambas acontecem no meu cérebro no presente.”

Nós, seres humanos, entendemos passado, presente e futuro como coisas distintas, ainda que todos estejam conosco no momento presente e na tomada de decisões. No caminho evolutivo começamos a armazenar memória e a pensar e projetar o futuro como uma forma de sobrevivência.

O que começou como uma reação instintiva, se tornou uma forma de prever ameaças e se manter vivo. Compartilhamos essa característica com os outros mamíferos e o que nos diferenciaria das outras espécies seria uma camada de subjetividade consciente de manipulação dessa reserva de memórias.

“Só nós pensamos sobre as nossas próprias memórias, só nós nos questionamos sobre a passagem do tempo, sobre como o tempo é armazenado no nosso cérebro e como usar melhor o nosso tempo”.

Nesse sentido, a ideia de um tempo que passa e de um fluxo do tempo deve ser entendida como uma experiência de ilusão subjetiva compartilhada da nossa consciência.

Ela não existe em termos neurocientíficos, é como se fosse um truque de nossa consciência. (Deu pane aí também?)

Quais seriam as três dimensões temporais mais importantes para a neurociência?

  1. O tempo natural: se trata do meio em que vivemos entre nascimento e morte, a dimensão em que nossa vida se desenrola, sendo o nosso corpo, por si só, um relógio, se auto regulando a partir da homeostase.
  2. O “tempo-relógio”: se trata do tempo que convencionamos a partir da divisão em dias, horas, minutos e que nos regula enquanto coletividade. Uma forma local de quantificar e medir as mudanças pelas quais passamos.
  3. O tempo subjetivo: é aquele tempo que reside em nosso cérebro e nossa consciência, é a sensação e o sentido que damos a passagem do tempo a partir de nossa própria percepção. Uma construção mental de realidade de como gerenciar, usar melhor e aproveitar o nosso tempo. É como sentimos os outros dois tempos anteriores (ainda que não tenhamos um órgão responsável pela recepção temporal).

É por isso que podemos afirmar que “o cérebro é a melhor máquina do tempo que temos”. Não a melhor máquina que iremos conhecer, mas certamente, a melhor que teremos ao longo da vida.

Nós entendemos tanto sobre o tempo quanto um computador entende sobre um software. Um computador só opera ou roda um software, ele não pensa sobre ele. Nós, seres humanos, operamos o tempo, só que não entendemos como operamos ele.

“Acho muito difícil que vá existir uma máquina que reproduza o que nosso cérebro faz. Nosso cérebro instantaneamente vai e volta no tempo o tempo inteiro. O que nosso cérebro menos sabe fazer e que treinamos muito hoje é ficar no momento presente, ainda que estejamos sempre no momento presente. Uma benção e uma maldição ao mesmo tempo, porque estamos sempre criando necessidades e sofrimentos desnecessários que nem sempre nos ajudam a sobreviver”.

No livro “A morte é um dia que vale a pena viver” de Ana Claudia Arantes, médica que realizou uma pesquisa sobre cuidados paliativos, apresenta-se uma perspectiva interessante sobre a morte e tempo.

O nosso tempo é entendido como aquele entre o nascimento e a morte, e esta última é inevitável. O que se mostra, na verdade, é que nosso tempo é além disso. A nossa morte em si, só acontece quando somos esquecidos, a partir do momento que deixamos de existir na memória ou na lembrança de alguém.

Sarah Brito: “Essa reflexão se relaciona com a filosofia de comunidades tradicionais ou a própria religião iorubá. Ela acredita na vida após a morte, digamos assim, a partir do momento que você é lembrado. Por isso que se dá um valor tão grande à vida comunitária, já que é a lembrança que o outro tem de você que garante a continuidade da vida no sentido espiritual”.

A possibilidade de uma dimensão temporal infinita após a morte é celebrada em algumas culturas de matriz africana, a partir da ideia de que a morte é um desligamento da materialidade e uma conexão com o infinito. Essa concepção está na base do conhecimento científico africano. Uma interlocução próxima entre religião e ciência, ainda vista com resistência na ciência ocidental. Criaram, dessa forma, formas de ciências espirituais. O ritual como uma porta de entrada para experiências temporais e estados da consciência. Para conhecer mais sobre isso, foi mencionado Deuses de Dois Mundos, uma trilogia de livros de ficção que explicam a cosmogonia iorubá.

Tudo o que envolve comportamento humano a neurociência não nega. Tudo o que envolve força humana, seja uma crença, seja uma prática, pode ser do interesse de estudo dos neurocientistas, sem jamais invalidá-las. Tem muita coisa que ainda não se sabe e se está procurando pesquisar e aprender. Enquanto “mesa de bar”, a neurociência é um grande passo para isso, porque procura juntar todo mundo e fazer as perguntas certas que ainda não foram feitas. A neurociência não espera que os conhecimentos fiquem separados em casinhas, ela quer um grande prédio de ocupação com todo mundo junto.

E para quem quiser se aprofundar mais nesse assunto, a Carol deixou algumas dicas:

  1. Livro: “Neurocomic”. Uma jornada através do cérebro humano. Fornece uma visão sobre a coisa mais complexa no universo: o cérebro humano.
  2. Podcast: “Invisibilia. Um podcast de ciência e medicina para nos ensinar sobre nós mesmos.
  3. Documentário: “Secret Life of Babies. As experiências dos bebês antes e depois do nascimento em que o tempo parece não passar.
  4. Reportagem: “National Geographic: Brain 101. Saiba mais sobre as partes do cérebro humano, bem como suas defesas únicas.

Veja outros registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Victor Hugo Barreto

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Torus

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