Projeto Aqui Bate um Coração. Foto Giselle Galvão

O futuro das cidades está na criatividade

Victor Hugo Barreto
Aug 21 · 11 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Cidades são como ecossistemas, um conjunto complexo de seres humanos e não humanos que precisam estabelecer formas intra e transversais de convivência. Como pensar maneiras para que essas relações sejam de mútuo desenvolvimento? Como projetar o futuro das cidades? E, afinal, que tipo de cidades queremos?

No Sandglass dessa semana convidamos a Inovadora Social Carla Link / Talking City, para seu centro. Carla vem nos mostrar como o Design Estratégico pode ajudar a criar melhores sistemas urbanos e plataformas que podem gerar cidades mais inovadoras para se viver.

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Carla veio do mundo da publicidade, mas sempre se interessou pela possibilidade de poder atuar de uma forma mais direta em mudanças no ecossistema em que vivemos. Fez um mestrado em Design Estratégico e atuou em coletivos como Ocupe & Abrace que se mobiliza para intervir e cuidar de espaços urbanos antes deteriorados, como foi o caso da Praça da Nascente em São Paulo. Atualmente atua na Talking City, uma rede de mentes criativas para repensar as cidades, de uma forma que possa ser mais colaborativa.

Cidades Inteligentes X Cidades Criativas

O conceito de smart cities, ou cidades inteligentes, se define pelo uso da tecnologia para melhorar a infraestrutura urbana e tornar os centros urbanos mais eficientes e melhores de se viver. O objetivo é usar diferentes tipos de recursos tecnológicos para coletar dados e usar esses dados para gerenciar ativos e recursos de maneira eficiente. Isso inclui dados coletados de cidadãos e seus dispositivos que são processados ​​e analisados ​​para monitorar e gerenciar sistemas de tráfego e transporte, usinas de energia, redes de abastecimento de água, gerenciamento de resíduos, detecção de crime, sistemas de informação, escolas, bibliotecas, hospitais e outros serviços públicos.

A ideia ganhou força no início do século XXI e foi impulsionada pela construção do zero de cidades inteligentes como Songdo, na Coreia do Sul, e Masdar, em Dubai.

Ainda que seja um conceito muito sedutor à princípio, Carla acha importante ressaltar algumas questões.

“Para mim, essa ideia de que uma instituição (seja a Cisco, IBM ou o próprio governo) seja o responsável pela coleta e centralização de informações da cidade e que vai decidir pelos usuários é muito problemática. Você faz um super investimento e coloca o cidadão num lugar passivo de consumidor e altamente controlado dessa cidade. Me pergunto se isso é possível. O Rio de Janeiro, por exemplo, é um case de monitoramento. Isso por acaso fez dele um lugar mais seguro ou que resolvesse seus problemas com as enchentes?”

Carla nos mostra então que não é uma questão de câmera, de ter informação e de processá-la, é de realmente entender qual o papel das pessoas nessa construção.

Nesse sentido, Carla vê muito mais potência no conceito cunhado pela arquiteta e urbanista Ana Carla Fonseca, o de cidades criativas.

No Brasil, já temos também esforços nesse sentido com a aplicação do conceito na prática. Um exemplo é a cidade de Belém no Estado do Pará, com a iniciativa Laboratório da Cidade, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é repensar as cidades, suas dinâmicas e transformações, almejando cidades mais humanas, democráticas, resilientes e sustentáveis.

“As cidades ou comunidades criativas trabalham em prol de uma cidade que seja surpreendente, que atice a curiosidade, o questionamento, o pensamento alternativo e que, com isso, busque soluções e crie coisas. Não adianta o super monitoramento, portanto, se eu não uso as relações como aditivos à esse ecossistema. É sobre as conexões que eu gero entre esse ecossistema”

“ Não é sobre infraestrutura é sobre as pessoas e a colaboração entre os atores”

por Dan Marker-Moore

Gestão Compartilhada

Como eu faço para as pessoas colaborarem para esses espaços? Que o usem? Que se sintam parte dele?

É importante destacar que essa perspectiva não ignora a responsabilização e o papel do Estado nas mudanças. A ideia é que o governo possa estar mais perto das pessoas. Principalmente no contexto atual, no qual é cada vez mais difícil o respeito à diferença e o entendimento de situações no qual pessoas vivem em maior vulnerabilidade. O objetivo desse mindset é de, justamente, estreitar relações. De fazer com que as pessoas também se sintam parte ativa e responsáveis na divisão de direitos e deveres e que isso se efetue em mudanças coletivas, visando o bem comum.

“O esforço não é só sobre o governo estar mais perto, mas fazer as pessoas agirem enquanto parte da cidade e desse ecossistema”

Um exemplo de iniciativa nesse sentido é o app Colab, no qual as próprias pessoas apontam coisas que precisam ser melhoradas em sua região. Essas questões são encaminhadas para autoridades, responsáveis ou políticos como demandas de mudança. A ideia é estimular uma gestão pública colaborativa.

Hacker Urbano

Carla nos apresenta então a figura do hacker urbano. É como são chamadas as pessoas que desenvolvem, por conta própria, iniciativas para melhorar a cidade. São os atores que justamente atuam na conexão entre governos, empresas e comunidade, que conseguem mostrar que existe esse caminho do meio.

Atuam como empreendedores, desenvolvedores ou designers e que possuem:

  • Atitude propositiva: de ter a vontade de pensar e propor soluções.
  • Paciência: lidar com burocracias durante o percurso não é fácil e na maioria das vezes é preciso repetir esforços.
  • Oportunidade: ter um bom olhar para as oportunidades de fazer intervenções.
  • Ideia > forma: não guardar as ideias para si, buscar formas rápidas de prototipação.

Quanto mais diverso for o hacker melhor, justamente para que a cidade e os espaços possam ser construídos ou ressignificados de uma forma que não reproduza e mesmo ajude a lutar contra a desigualdade e a polarização.

É o caso do conceito urbanístico de infraestrutura social. Ele basicamente define que bons espaços públicos — praças, bibliotecas, parques — são fundamentais para saúde social, relacional e afetiva dos habitantes de um bairro ou cidade, e por isso devem ser parte de qualquer plano de ação que deseje ser levado a sério. Ou seja da criação de espaços públicos comunitários para além das redes sociais. Tanto como forma de habitar a cidade, como de fazer política. O conceito tem inspiração na obra Palaces for the People: How Social Infrastructure Can Help Fight Inequality, Polarization, and the Decline of Civic Life do Eric Klinemberg.

Aplicação através do Design Thinking

Carla nos aponta como o seu trabalho é procurar uma forma de aplicar essa abordagem do hackeamento urbano através das ferramentas do design thinking. De atuar com base nos princípios de design, transformando ideias em forma. O objetivo é atuar a partir de três frentes:

  • Alta empatia: identificando necessidades reais dos cidadãos (ouvindo e conversando).
  • Colaboração: conectando com outros atores e fazendo parte de um ecossistema aberto.
  • Prototipação: testando e errando rápido.

Todo o processo, portanto, parte de um entendimento empático dos usos do espaço pelas pessoas.

“Aprendi isso quando atuava em um coletivo na época do meu mestrado, conseguimos uma parceria com uma loja de tinta do bairro para pintar uma praça. Pintamos e o que aconteceu foi que no dia seguinte acordou pichada em um dos muros. Repintamos e novamente pichado no dia seguinte. Foi aí que nos questionamos: ‘Para que estamos tapando essa pichação? Claramente essas pessoas usam também a praça’. E é muito mind-blowing isso: por que eu estou tentando colocar o meu estilo na frente dos outros? Essa praça é do interesse do seus usuários. Quem sou para dizer o que é melhor ou pior? Temos que estar abertos e empáticos para essas descobertas do espaço”

O hacker urbano precisa entender rapidamente que ele precisa de outras pessoas, não só para uma compreensão melhor do espaço, mas também para agregar e conectar diferentes habilidades na colaboração e, dessa forma, poder colocar em prática a frente de prototipação. Daí a figura do design thinking para facilitar esse encontro de talentos e habilidades, coordenando a atividade colaborativa a partir da diversidade.

“O poder da síntese do design é tentar utilizar mais eficientemente do recurso mais escasso nas cidades, que não é o dinheiro, mas a coordenação” — Alejandro Aravena

Algumas Ações

Os exemplos desse tipo de ação colaborativa e criativa são muitos. Um dos mais famosos é a da construção de uma passarela em Rotterdam, na Holanda, feita para conectar o metrô com uma área de escritórios do local. Como a prefeitura não tinha verba, a obra foi feita por crowdfunding e os nomes dos apoiadores estão marcados na passarela.

Barcelona, na Espanha, também é uma cidade que teve iniciativas e gestou projetos muito interessantes nessa lógica. Andréia Rocha lembra uma maneira que eles criaram de lidar com a poluição sonora nas praças com participação da população e também na questão do trânsito com os “superblocks”, quarteirões na cidade que privilegiem o uso dos pedestres.

“Os superblocos são incríveis. Sempre cheios de gente realmente usando a estrutura urbana. Mas também tem “controvérsias”, você vê várias faixas de protesto de moradores que não gostam da iniciativa, porque concentra o trânsito nas ruas que eles moram para liberar outras” — Andréia Rocha

Talvez o leitor esteja pensando que essa seja uma realidade exclusiva do cenário europeu, mas em 2016, moradores da cidade de Barra Mansa no Rio de Janeiro, se cotizaram para construir uma ponte que passava sobre um rio local, numa tentativa de facilitar o acesso a outras áreas da cidade. A obra, feita pelos próprios moradores, custou bem menos do que o orçado pela prefeitura local, argumento usado como desculpa para o atraso da intervenção.

Carla também comenta sobre o movimento colaborativo iniciado na cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí, o Cidade Criativa, Cidade Feliz. Um movimento que pretende dar um passo na melhoria da qualidade de vida da população da cidade, através da conexão dos valores e das diversas potencialidades humanas, econômicas e culturais existentes ali. Além da organização do evento Hackatown, um momento de troca de experiências e aprendizagens.

“É importante destacar que o papel das marcas nessas ações não poder o de apenas patrocínio. Mas sim numa lógica de conversa, na qual se coloque também como cidadão e não numa atitude ‘de cima para baixo’”.

Há também iniciativas de soluções de atores de dentro do governo também. Lembramos o exemplo do Code for America de São Francisco, uma organização que financia grupos de hackers (gerentes de projeto, desenvolvedores e pesquisadores) dentro do governo para ajudar a pensar em soluções com tecnologia. No Brasil, existe a iniciativa de um grupo de servidores públicos de Brasília, o i.GOV.night, uma rede remota e gratuita para servidores com o propósito de desmistificar a inovação e contribuir com a melhoria da vida das pessoas no contexto do serviço público.

“Acho interessante comentar sobre a rede de Fab Lab vindas da Europa e espalhada pelo Brasil. São espaços makers onde se tem acesso a ferramentas como impressoras 3D, recorte a laser e etc. E aonde também somos instrumentados a usar essas tecnologias a favor de desenhar soluções” — Gustavo Nogueira (Gust)

Um exemplo dessa prática é o Movimento Fab City, que estimula cidades a apostarem nessa ideia como uma política pública. No Brasil já temos cinco cidades que assinaram o compromisso de criar soluções dessa forma.

Ações e diversos exemplos, dessa forma, que apontam o quanto a ideia de cidades criativas estimulam figuras como o hacker urbano que coordenados pelo instrumental do design thinking de forma colaborativa faz com que as pessoas deixem de ser vistas como consumidores passivos e se tornem, elas também, makers.

O que você pode fazer por sua cidade hoje?

Fonte: apresentação Carla

Nosso aprendizado nesse encontro é que podemos ser agentes na inovação e criação de espaços e mundos melhores a partir de questões que ainda não foram postas. Um olhar para oportunidades é um olhar atento ao espírito do nosso tempo. Um despertar para questões que nos atravessam a todos e nas quais podemos transformar para um bem comum.

Aqui vão algumas dicas de leitura para quem deseja se aprofundar um pouco mais no tema do nosso encontro com a proposta de algumas técnicas e frameworks que podem ajudar no processo de prototipação:


Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

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